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“Uma Vida Oculta”: Terrence Malick e o cinema que faz perguntas

Novo filme do diretor retoma temas existenciais recorrentes em suas obras

Pôster americano de “A Hidden Life” (Uma Vida Oculta)

Uma Vida Oculta — Terrence Malick (Disponível no Telecineplay)

Baseado em uma história real, “Uma Vida Oculta” é um filme de 2019 escrito e dirigido pelo cineasta norte-americano Terrence Malick. A obra retrata a vida de Franz Jägerstätter, católico, agricultor, marido e pai de família que morava em um pequeno vilarejo na Áustria. Ele foi um objetor de consciência do nazismo alemão e se negou a jurar lealdade à Hitler ao se recusar a combater pelas forças de ocupação nazista. Malick adquiriu os direitos do livro “Letters and Writings from Prison” que contém cartas e escritos de Franz quando o austríaco estava preso para poder realizar o projeto.

Planos gerais abertos e contemplativos de paisagens exuberantes combinados com a trilha sonora grandiosa composta por James Newton Howard criam a atmosfera deste universo paradisíaco digno de Adão e Eva antes do pecado original em que vivem Franz junto com sua esposa Fani e suas filhas em comunhão com a natureza, o mundo e Deus — que parecem ser a mesma coisa tanto para os protagonistas quanto para o diretor — antes da chegada dos nazistas na Áustria, responsáveis por colocar em cheque essa harmonia.

O que complementa essa beleza bucólica e atmosférica do filme são as cartas lidas pelos personagens e narradas poeticamente em voz off — característica comum a outras produções do Malick — enquanto a câmera segue livre e percorre aquele mundo por si própria enquadrando a vida de uma forma não-tradicional como se fosse igual à Franz e também não pudesse se omitir de tomar suas próprias decisões.

Malick, a filosofia e a eterna busca por sentido

Formado em filosofia por Harvard, Malick chegou a lecionar a disciplina por um tempo no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e também traduziu a obra “Sobre a Essência do Fundamento” do filósofo alemão Martin Heidegger. Terrence acabou depois por escolher a carreira de cineasta para melhor expressar suas inquietações, por isso temas filosóficos e existenciais não são estranhos à sua filmografia.

A busca por sentido, a morte, a transcendência, a espiritualidade, a existência de Deus, o vazio existencial, a liberdade, a interioridade, a harmonia do homem com a natureza e a contemplação da vida são questões recorrentes nos filmes de Terrence Malick. Um exemplo é seu outro longa “Além da Linha Vermelha” (1998) que também se passa durante a Segunda Guerra Mundial e divide o protagonismo entre vários tipos de soldados que refletem sobre suas vidas durante o combate que parece servir apenas como pano de fundo para questionamentos mais profundos e essenciais virem a tona.

O universo de “Uma Vida Oculta” assim como o nosso é permeado pela beleza e a tragédia, dois elementos em perpétuo conflito. Esse combate parece não ter fim assim como a incessante busca por sentido e a falta de respostas às perguntas que a humanidade se faz desde os primórdios de sua existência, mas isso não nos impede de continuar vivendo e refletindo durante nosso dia-a-dia ou através da imersão em uma experiência cinematográfica contemplativa e significativa como a última obra de Malick.

Enquanto falava sobre seu estilo de produzir filmes durante sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty de 2013, o cineasta brasileiro Eduardo Coutinho, um dos maiores nomes do cinema nacional, declarou “Bom é o filme que faz perguntas, o que tem respostas, você joga no lixo. Não posso discordar dele nesse aspecto.

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