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“O Caso Richard Jewell” e a atualidade do cinema de Clint Eastwood

Caracterização de Paul Walter Hauser no papel de Richard Jewell traz retrato único de um personagem próprio ao cinema contestador de Clint Eastwood
O ator Paul Walter Hauser, que interpreta o protagonista Richard Jewell, ao lado do diretor Clint Eastwood no set de filmagem

Baseado em uma história real, “O Caso Richard Jewel” (Disponível na HBO GO) é um filme dirigido e produzido pelo cineasta e ator norte-americano Clint Eastwood. Lançado em 2019, o longa-metragem reconstrói parte da história de vida de um herói improvável chamado Richard Jewell.

Jewell é um típico americano admirador da lei e da ordem. Ele tem uma oportunidade única de servir a um bem maior, como sempre sonhara, durante um atentado à bomba em um evento relacionado aos Jogos Olímpicos de Atlanta em 96. Uma mochila suspeita foi abandonada no Parque Olímpico Centenário e Richard foi o responsável por identificar o potencial perigo da situação e coordenar o protocolo de segurança recomendado.

Richard tem 33 anos e ainda vive com sua mãe em uma pequena casa. Ele foi removido do cargo de sub-xerife das forças policiais por motivos que nos escapam e agora vive de bicos como segurança. Em certo momento do filme, um pouco antes do atentado, ele faz uma observação à sua mãe de que ela merecia algo melhor do que aquilo que tinha.

Inicialmente considerado um herói, Jewell cai em desgraça quando vaza à imprensa o fato dele ser considerado o suspeito principal da investigação sobre a autoria do explosivo.

Richard Jewell se encaixa na categoria de americanos brancos ressentidos que não conquistaram nada na vida e decidem fazer algo drástico para ganharem notoriedade. Pelo menos é esta a teoria dos agentes do FBI, o principal deles é vivido por Jon Hamm (ex-astro da série Mad Men), e também de parte da imprensa — representada pela jornalista sensacionalista Kathy Scruggs (Olivia Wilde). Ambos são caracterizados de forma bastante caricata propositalmente para servirem como antagonistas ideais e direcionarem o foco principal do roteiro ao escrutínio do protagonista.

Paul Walter Hauser brilha na representação de Richard Jewell

A representação minimalista de Paul Walter Hauser como Richard Jewell é um dos destaques do filme. De uma maneira contida, ele consegue mostrar toda ambiguidade presente na personalidade de Jewell. Inicialmente, nos é dada impressão de um personagem meio tosco e servil, mas com o decorrer da obra conhecemos seu outro lado que também pode ser bastante perspicaz e intuitivo.

Desde o primeiro contato do protagonista com o advogado Watson Bryant, na primeira cena, percebemos que a postura afrontosa do personagem vivido por Sam Rockwell, exerce certo fascínio a ele. Bryant, que tem uma conduta cínica e crítica em relação à autoridade em geral, adverte Richard do perigo que o poder oferece a um indivíduo quando este o informa sobre sua pretensão de se tornar um policial.

A política no cinema de Clint Eastwood

Apesar de Clint Eastwood se declarar como republicano (partido da chamada direita norte-americana, conservador), seu cinema costuma trazer questionamentos ao próprio campo moral e certo nível de ambiguidade em seus personagens. O dilema ético-político que permeia grande parte da obra de Clint é representado magistralmente por Hauser em sua encarnação de Richard Jewell, que conquista a simpatia da audiência com facilidade antes mesmo de se revelar como herói.

A relação de Jewell e Bryant também é emblemática neste sentido e sustenta muito bem a proposta da obra. O embate entre um respeito arraigado à autoridade — inculcado na mente de pessoas como Richard desde criança — e uma atitude crítica e/ou rebelde à ela— como a de Watson— é parte constituinte da subjetividade do homem contemporâneo.

O Caso Richard Jewel”, lançado quando Clint estava na casa dos 89 anos, mostra como o lendário diretor nascido nos anos 30 continua se desafiando e questionando a si próprio. Sua cinematografia não cansa de se expandir e ele já tem outra produção à caminho intitulada “Cry Macho”. Quem ganha com isso é o cinema e nós também, é claro.

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