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“Malcolm & Marie”: a incomunicabilidade em evidência

Sam Levinson recruta Zendaya e John David Washington para seu novo filme da Netflix

Zendaya e John David Washington em “Malcolm & Marie” (Foto: Netflix)

Malcolm & Marie” (2021) é o novo longa de Sam Levinson, mais conhecido por ser o criador da série de drama adolescente ‘Euphoria (2019–) da HBO. A obra, uma produção original da Netflix, é estrelada por Zendaya (sua colaboradora também em “Euphoria”) e John David Washington (“Infiltrado na Klan”, “Tenet).

Marie (Zendaya) é uma ex-atriz que abandonou precocemente a sua carreira e Malcolm (John David Washington) é um jovem cineasta promissor que acaba de lançar seu mais novo projeto. O casal acaba de voltar para casa após assistir à exibição do trabalho mais recente de Malcolm e se vê implicado em uma discussão que se estenderá pelo filme inteiro.

O trabalho dos dois atores é um destaque em si. Eles conseguem, apenas por meio de suas respectivas presenças e posturas, retratar bem onde seus personagens parecem estar mentalmente. Seria difícil imaginar que parte da proposta do trabalho conseguiria se sustentar até o final sem o emprego da dupla renomada nos papéis principais.

Sam Levinson, inicialmente, demonstra um cuidado mínimo com a parte visual, está preocupado em isolar espacialmente os protagonistas e com isso inferir a fissura que se avizinha daquela relação. Depois de alguns destes planos emblemáticos, ele abandona essa pretensão mais artística para focar apenas nas “verdades” que cada uma das partes do casal despejará sobre a outra.

O diretor parece mais interessado em criar imagens bonitas e vazias de significados, via fotografia em preto e branco, do que utilizar recursos cinematográficos que dariam camadas extras à sua história.

A maior parte dos diálogos serve menos para construir psicologicamente suas criações e mais para alimentar o ego do roteirista, dar vazão aos seus desabafos ressentidos sobre parte da crítica de cinema e a mídia especializada. Algumas das críticas veiculadas tem algum mérito, mesmo que se discorde delas, mas dramaticamente não agregam muita coisa ao drama.

No fim das contas, “Malcolm & Marie” é uma reflexão sobre a incomunicabilidade. Além do conflito clássico de dois polos distintos em um relacionamento, também aborda a relação do artista com o seu meio — a eterna busca por um modo próprio de se expressar.

Marie e Malcolm parecem falar línguas diferentes. Acaba-se até questionando como duas pessoas tão diferentes podem ter terminado juntas. Por mais piegas e clichê que possa soar, talvez essa seja mesmo a mágica do amor. Ele é, ao mesmo tempo, um sentimento e um estado de espírito que não pode ser explicado ou compreendido racionalmente por quem está de fora.

Levinson, por sua vez, tem repertório para fazer mais e melhor, vide seu trabalho em ‘Euphoria mencionado anteriormente. Na série da HBO, ele consegue criar uma atmosfera que mergulha o público nas subjetividades de cada um dos seus personagens. Aqui, na produção da Netflix, ele está mais preocupado em impor sua visão de mundo ao espectador do que em criar um mundo ficcional que mereça a atenção de alguém além de si mesmo.



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