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“Druk: Another Round” e o Realismo Cotidiano

O filme indicado ao Oscar procura discutir assuntos como o uso excessivo do álcool e o marasmo do dia-a-dia

“Druk: Another Round” é o mais novo filme do aclamado diretor dinamarquês Thomas Vintenberg, famoso por A Caça”  — filme de 2012 que retrata a história de um professor do jardim de infância falsamente acusado de pedofilia por uma de suas alunas.

Em “Druk”, Vintenberg retoma a parceria com Mads Mikkelsen no papel principal. No filme, o ator interpreta Martin, um desgastado professor de história que demonstra insatisfação com sua turma em sala de aula e também com a monotonia da relação familiar.

Sua vida muda abruptamente quando, durante uma conversa, ele e seus amigos, também professores, decidem testar a intrigante teoria do psicanalista norueguês Finn Skårderud de que o ser humano nasce com 0,05% de álcool no sangue. 

Portanto, como forma de experimento social e ao mesmo tempo dissertando sobre essa prática, os professores passam a beber pequenas doses de álcool durante o dia, afim de aprimorar o desempenho profissional e restabelecer relações já há muito tempo perdidas.

“A vida da maioria dos homens e mulheres é, na pior das hipóteses, tão dolorosa, e, na melhor, tão monótona, pobre e limitada, que a vontade de escapar, o anseio de transcender a si mesmo, por poucos momentos que seja, é e sempre foi um dos principais apetites da alma.” 

— As Portas da Percepção e Céu e inferno, Aldous Huxley.

Mads Mikkelsen oferece uma atuação primorosa e bastante autêntica; o ator transmite muito bem, na primeira metade do filme, um personagem afetado e abatido. Seu olhar melancólico e opaco facilita nossa compreensão de seu estado psicológico, mesmo com poucos e sucintos diálogos.

O desenvolvimento do restante do grupo também é muito bem exposto: Em Tommy vemos uma pessoa solitária que não soube se encontrar desde o divórcio; já em Nikolaj vemos um pai de família entediado com sua vida conjugal e que enxerga nessa teoria um pretexto para escapar da sua desgastante rotina.

Ao retratar o uso e o abuso do álcool “Druk” é bastante cru e realista, o roteiro procura fugir de convenções previsíveis, como cenas ou discursos moralistas ou a glamourização do alcoolismo como uma solução possível para os problemas pessoais.

Além de tudo, apesar de sua temática carregada, “Druk” não é um filme melodrámatico; o diretor soube muito bem como suavizar o tom com momentos sutis de descontração que harmonizam muito bem com a trama sem fugir do plot principal.

“O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhe concederam um lugar permanente na economia de sua libido.”

 — O Mal-Estar na civilização, Sigmund Freud.

“Druk” é um filme extremamente relevante na discussão do uso esporádico do álcool como forma de desinibição e também de instigação da criatividade, mas também expõe seu lado mais sombrio e melancólico

O filme está sendo indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Direção no Oscar deste ano (2021), que ocorrerá neste domingo (25/04) e é o favorito para levar a estatueta. Até o momento “Druk” está disponível apenas para compra ou aluguel em plataformas digitais.

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