Cinema

“Nomadland”: uma crônica do capitalismo contemporâneo

A sensibilidade de Chloé Zhao e a caracterização de Frances McDormand são os destaques do novo filme candidato ao Oscar
A atriz Frances McDormand no papel de Fern em “Nomadland” (Foto: Internet)

Nomadland”, lançado em 2020, é um filme escrito, editado e dirigido pela cineasta de origem chinesa Chloé Zhao. O roteiro é uma adaptação do livro de não-ficção “Nomadland Surviving America in the Twenty-First Century”, escrito pela jornalista Jessica Bruder.

O longa-metragem é estrelado pela consagrada norte-americana Frances McDormand, que já ganhou duas vezes o Oscar de Melhor Atriz. Uma por sua interpretação em “Fargo” (1996) como Marge Gunderson e outra pela caracterização de Mildred Hayes em “Três Anúncios Para um Crime” (2017).

Este é o terceiro projeto de Zhao. Seus trabalhos anteriores foram “Songs My Brothers Taught Me” (2015) e “Domando o Destino” (2017). Sua cinematografia é tematicamente e formalmente coesa. É comum a presença da natureza, como um tema, e o uso criativo da profundidade de campo, no aspecto formal e estético.

O resultado dessa síntese é que a natureza costuma ser retratada como se fosse um personagem com vontade própria e não um mero pano de fundo para as histórias. Também é recorrente o uso da câmera na mão e o emprego de atores não-profissionais.

Fern, a protagonista interpretada por Frances, é uma mulher independente de meia-idade que acabou de perder o marido Bo, por quem era apaixonada, seu lar e seu emprego na pequena região de Empire (Nevada) — que vira uma cidade fantasma. Ela então toma a decisão de cair na estrada com seu veículo adaptado, que também utiliza como moradia.

A personagem se encaixa na condição dos chamados nômades modernos. Eles se dividem em duas categorias: pessoas que escolheram esse caminho por filosofia de vida ou convicção pessoal, e outras que foram forçadas a esta condição como consequência da crise do mercado imobiliário de 2008 nos EUA.

Este último grupo não é tão explorado no filme como no livro. Os comentários sociais e políticos na adaptação cinematográfica são mais sutis. A diretora não se limita a expor à alienação do trabalho no mundo contemporâneo, que é evidente e aludida indiretamente, mas sim focar na história de vida daquelas pessoas — cada uma delas. Elas não são utilizadas como meio para servirem de metáfora para algo ou impor um ponto de vista, cada uma é tratada como um fim em si.

Cada ser humano carrega uma história de vida única. Chloé Zhao oferece uma plataforma para que esses indivíduos possam se expressar da forma mais transparente possível. A obra flerta um pouco com o documentário, como os os trabalhos anteriores da cineasta, e utiliza atores não profissionais que interpretam a si mesmos — como é o caso de Swank, Linda May e Bob Wells (a maioria deles está presente no livro de Jessica Bruder, com exceção de Fern).

Pôster de “Nomadland”

O fato de não sabermos muita coisa sobre a vida anterior de Fern à torna um receptáculo perfeito ao público que pode se identificar com ela, como se compartilhasse da mesma jornada. Isso também dá mais espaço para o espectador imaginar o que se passa em sua cabeça e até se projetar na personagem, visto que esta não verbaliza tanto suas angústias.

Soma-se a isso a simpatia natural que a audiência nutre por McDormand em virtude de seus papéis anteriores — principalmente o mais recente como Mildred Hayes em “Três Anúncios Para um Crime”, onde interpretou uma mãe em uma luta incansável por justiça pelo assassinato da sua filha.

A sutileza com que Zhao filma a história também é um dos destaques do longa ao lado da caracterização de Frances McDormand. A diretora respeita o material que está sendo filmado, sejam eles pessoas ou lugares, e não se impõe nenhuma vez a ele. A utilização da câmera na mão cria uma intimidade natural com o que está sendo registrado. É como se ela se moldasse/ adaptasse aos gestos de seus personagens, estivesse ao seu serviço.

O uso da profundidade de campo nas cenas ao ar livre também é um fator que se sobressai. Os planos enfatizam a vastidão daquele espaço e a infinidade de possibilidades abertas decorrentes dele, além de uma sensação única de liberdade e beleza.

Nomadland” é mais do que um filme de road-trip. Se trata de uma crônica do capitalismo contemporâneo norte-americano, um retrato da solidão e um registro íntimo da importância da amizade num mundo com relações fragmentadas. Além de ilustrar a busca incessante de algumas pessoas tentando construir outro modo de vida e resgatar um senso de comunidade perdido, a obra também é um retrato da crise existencial, espiritual, econômica e política de uma nação.



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