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Débora Tavares e a força da obra de Orwell

Em entrevista, especialista em Orwell fala sobre a atualidade do seu pensamento

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair. Nascido em 1903 na Índia Britânica e morto relativamente jovem aos 46 anos em 1950 de tuberculose. Jornalista, ensaísta e escritor, ele é mais conhecido por duas obras de ficção, suas últimas publicadas em vida: “A Revolução dos Bichos” e “1984”. Em linhas gerais, “A Revolução dos Bichos” é um romance satírico sobre uma revolução traída (livremente inspirado nos eventos da revolução russa de 1917) e uma fábula em que animais se revoltam contra o domínio dos humanos; já “1984” é um romance distópico que critica a ameaça do totalitarismo, um conceito-chave do período político em que o britânico viveu, e todas suas consequências decorrentes para a liberdade do indivíduo.

Orwell sempre se preocupou em ter uma escrita clara e direta. Sua experiência como jornalista o influenciou muito nesse aspecto. Tanto seus livros de ficção quanto os de não-ficção compartilham algumas das mesmas características estilísticas de simplicidade. Outro elemento em comum de suas obras é a utilização de episódios autobiográficos. Sua experiência como soldado republicano na Guerra Civil Espanhola serviu para escrever “Lutando na Espanha”/ “Homenagem à Catalunha” (existem duas versões do mesmo livro, com títulos diferentes e poucas alterações, publicadas no Brasil). “Dias na Birmânia” foi baseado em sua vivência como policial colonial na antiga Birmânia. “Na Pior em Paris e Londres” narra seus perrengues pela França e a Inglaterra, respectivamente. “O caminho para Wigan Pier” só foi possível graças à sua investigação in loco das condições da classe trabalhadora britânica.

O escritor foi uma das figuras mais importantes do século XX e acompanhou em primeira mão acontecimentos que definiram sua época. O fascismo, o totalitarismo, o imperialismo e o capitalismo foram temas recorrentes em seus escritos. Assuntos que, infelizmente, continuam muito atuais. A forma como o autor trata temas tão pesados também facilita muito o contato de uma pessoa não tão familiarizada assim com a leitura. Em 2021, toda obra de George Orwell entrou para domínio público. Editoras no Brasil aproveitaram essa oportunidade para lançar novas edições de suas obras mais famosas, assim como outras não tão conhecidas. Um exemplo é o livro “Homenagem à Catalunha“, relançado pela Companhia das Letras, que não tinha uma edição nova faz algum tempo e que vale muito a leitura.

George Orwell em seus tempos de BBC (Foto: Internet)

Débora Tavares: especialista em Orwell

A Pista conversou com Débora Reis Tavares, mestre e doutora em literatura pela USP, professora de Literatura e Sociedade e especialista na obra de George Orwell. Entre os tópicos discutidos na entrevista estão as obras de não ficção de Orwell, seu posicionamento político, a apropriação recorrente da obra de Orwell por grupos direitistas, as influências de sua escrita e a atualidade do pensamento orwelliano.

Débora ministrou em 2020 um curso virtual gratuito “A literatura política de George Orwell” pela FFLCH-USP. Foram quatro aulas no total e todas elas estão disponíveis na íntegra no YouTube (link abaixo). A professora também dá cursos livres sobre literatura e pesquisa acadêmica em seu projeto Livre Literatura. Ela também escreveu um texto de posfácio intitulado “A esperança vem do plural” para a nova edição de “1984” da Editora Antofágica.

Entrevista

A Pista: Como e quando você decidiu estudar a obra de George Orwell?

Débora Reis: O primeiro livro que me impactou de verdade foi o 1984, eu tinha 12 anos e não tinha entendido direito o que aconteceu naquele enredo distópico. Desde aquele momento, esse tipo de história me instigou e, aos poucos, fui lendo e conhecendo outros objetos culturais despretensiosamente. Mal sabia eu que essa leitura iria guiar todo o meu trajeto intelectual quando adulta. Livros que trazem um tipo de sociedade, aparentemente diferente da nossa sempre me deixaram muito fascinada para entender o funcionamento do mundo. E, então, ao entrar no mestrado na USP escolhi voltar para o livro que me marcou desde muito pequena. Mergulhei fundo na obra do Orwell. Comecei pelo fim, com o 1984 e terminei, com o doutorado, no começo da escrita dele nas obras A Flor da Inglaterra e O Caminho para Wigan Pier. Essas duas pesquisas que eu fiz tiveram como um recorte metodológico as relações entre história, marxismo e literatura. Então na minha análise do Orwell é indissociável pensar sociedade, desigualdade e a forma literária.

A Pista: Não é de hoje que a obra de George Orwell sofre a tentativa de ser cooptada por parte de uma direita mais conservadora. Você poderia comentar um pouco mais sobre a formação política do Orwell e onde ele se situava ideologicamente no seu tempo?

Débora Reis: O Orwell ocupa um lugar duplo na sociedade inglesa: ele faz parte do que foi o grande império britânico, mas seu olhar e sua preocupação sempre estão naqueles à margem desse sistema: seja quando serviu como policial na Birmânia, atual Myanmar, e viu de perto os procedimentos do imperialismo e da crueldade com as colônias. Mais tarde ele via lutar na Guerra Civil Espanhola, se afilia a um partido Marxista (POUM –Partido Obrero de Unificación Marxista). A experiência dele na Espanha vai ser o grande divisor de águas do seu posicionamento político: ele se considera socialista e anti-stalinista, pois ainda havia muitos comunistas e socialistas alinhados com Stalin e a URSS, ele comenta sobre isso em seu ensaio Por que escrevo: “A Guerra Civil Espanhola e outros acontecimentos em 1936-7 pesaram na balança, e a partir de então eu soube me situar. Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrata, da forma que eu o entendo. Parece-me absurdo, num período como o nosso, pensar que se pode evitar escrever sobre esses assuntos. Todo mundo escreve sobre eles de uma forma ou de outra. É apenas uma questão de que lado tomar e de que abordagem adotar. Quanto mais ciente se está de uma tendência política, mais oportunidade se tem de atuar politicamente, sem sacrificar a estética e a integridade intelectual.”

Os conservadores e a extrema direita fazem uma leitura equivocada do Orwell, seja pela polêmica em si, seja para querer trazer para o outro lado um autor que criticou exatamente os procedimentos desonestos conservadores, principalmente o autoritarismo daqueles que concordavam com Stalin, em que as escolhas operavam na base da censura, do culto ao líder e da centralização. Para entender bem os escritos do Orwell é preciso compreender as diferenças entre essas subdivisões políticas. 

A capa da nova edição de 1984 lançada pela Editora Antofágica e que conta com posfácio de Débora Reis

A Pista: As obras mais famosas de Orwell são as de ficção, como “1984” e “Revolução dos Bichos”, mas seu trabalho de não ficção também é considerado muito bom apesar de não ser tão conhecido. Quais livros você recomendaria para quem quer conhecer um pouco mais esse outro lado do escritor que também foi jornalista e ensaísta?

Débora Reis: Orwell foi um ensaísta brilhante, ele vivia da escrita de ensaios, resenhas e artigos para revistas e jornais. Existem muitos textos excelentes, eu sugiro alguns, pensando uma divisão temática: sobre o imperialismo “O abate de um elefante” e “Um enforcamento”, em que ele comenta sobre o panorama da Birmânia; sobre desigualdade social e pobreza “Como morrem os pobres”; sobre a Inglaterra nos anos 1930 “Inglaterra, nossa Inglaterra”; e, finalmente, sobre escrita, linguagem e literatura recomendo muito “Por que escrevo”, “Dentro da Baleia” e “Política e a língua inglesa”. Todos esses ensaios já se encontram traduzidos e bem disponíveis, assim como os originais em inglês para quem tiver acesso à língua.

A Pista: Quem mais influenciou o estilo e a escrita de Orwell historicamente e quem poderíamos dizer que sofre influência dele até hoje?

Débora Reis: Orwell se influenciou muito pelos escritores satíricos, naturalistas, como Charles Dickens, Jack London e Jonathan Swift, e também se inspirou muito em Yvgeny Zamyatin e sua obra Nós, Arthur Koestler, Aldous Huxley antes de escrever 1984. E ele influenciou toda uma geração de autores que escrevem distopias, relatos jornalísticos. A escritora Margaret Atwood comenta como Orwell foi uma influência forte para escrever o Conto da Aia, ela afirma que “A maioria das distopias – inclusive a de Orwell – foram escritas por homens e o ponto de vista era masculino. Quando as mulheres apareciam, era geralmente autômatos desprovidas de gênero ou rebeldes que desafiavam as regras do regime. Eu queria tentar uma distopia do ponto de vista feminino – o mundo de acordo com Julia, de certo modo.” [1]

A Pista: O que permanece de mais atual de George Orwell para pensarmos nosso cotidiano e elementos-chave da nossa sociedade como a política e a mídia?

Débora Reis: Uma das questões mais atuais é o conceito de Orwelliano, que surge com um ensaio dele “A política e a língua inglesa” e que alcança seu ápice no 1984 com a Novafala e o Duplipensar, que implica a manipulação da linguagem pela política.  Para Orwell a relação entre linguagem e pensamento é muito densa e profunda, a ponto de que um implica no outro: ao manipular a linguagem manipula-se o pensamento, que por sua vez se manifesta por meio da linguagem. A gente percebe isso atualmente na disseminação de notícias falsas em que situações orwellianas acontecem diariamente, o que apenas reforça a ideia de que a sociedade em que o Orwell viveu sofreu poucas transformações estruturais e é o sistema que vivemos hoje, o capitalismo.


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