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Camus: muito além de “A Peste”

Para Camus, segundoAlberto Luiz S. de Oliveira, o ser humano deve abraçar a vida e extrair desse conflito a liberdade, a paixão e sua revolta

Albert Camus foi um jornalista, filósofo, dramaturgo, escritor e ensaísta franco-argelino nascido em 1913 e morto tragicamente em um acidente de carro em 1960, apenas três anos após receber o Premio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.
Camus também fez parte da resistência à ocupação nazista na França enquanto editava o jornal clandestino Combat e depois se tornou uma das principais referências intelectuais da geração francesa pós-segunda guerra ao lado de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

Dentre as suas principais publicações estão: “O Estrangeiro”, “A Queda, “A Peste”, “O Mito de Sísifo” e “O Homem Revoltado”. Sua obra trata de temas considerados pesados, mas que até os dias de hoje continuam atuais como o suicídio, o assassinato, o niilismo, a condição humana, a liberdade, a busca por sentido, o autoritarismo e o totalitarismo.

A Pista conversou com o recifense Alberto Luiz S. de Oliveira, 30, Mestrando em Filosofia na linha de pesquisa Ética, Fundamentos Morais e Valores, e também Graduado em Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco — UNICAP sobre o pensamento de Camus.

Alberto também mantém uma conta no Instagram chamada Albert Camus Brasil desde 2019 em que se dedica a difundir o pensamento do escritor de origem argelina através da publicação de trechos de seus livros, vídeos, entrevistas e imagens.

Entrevista

A Pista: Quando e como foi seu primeiro contato com a obra de Camus?

Alberto: Meu primeiro contato com a obra de Albert Camus foi entre 2017–2018, estava na graduação de filosofia pela UNICAP. Na época tinha um grande interesse por Nietzsche e também comecei a me aproximar do existencialismo de Jean-Paul Sartre. Entretanto em algum momento conversando com um amigo ele me perguntou se conhecia O mito de Sísifo e respondi que não. Ele me mostrou alguns trechos do livro que me causaram uma boa impressão e curiosidade sobre a obra. Ele me indicou que eu procurasse para ler O estrangeiro e foi após a leitura deste que iniciei minha leitura das obras do Camus com maior atenção. Algum tempo depois, percebendo que não existia na época uma página voltada para a divulgação da obra do autor em português no Instagram, decidi iniciar o Albert Camus Brasil para viabilizar o diálogo sobre a obra do autor, com quem tivesse curiosidade ou trabalhasse o autor na academia.

AP: Camus costuma ser associado erroneamente ao existencialismo apesar dele recusar o rótulo de existencialista. Qual a principal diferença do existencialismo francês pós-guerra para o pensamento de Camus?

Alberto: A amizade de Camus, Sartre e Simone é uma das relações mais interessantes entre os intelectuais do pós-guerra (séc. XX). E parte do rótulo de existencialista dado a Camus é por causa dessa relação. Entretanto Camus não gostava do rótulo e buscava se distanciar dele. Em uma entrevista concedida no outono de 1945 ele diz: “Não, eu não sou existencialista. Sartre e eu sempre nos surpreendemos ao ver nossos nomes associados. Nós pensamos até mesmo em algum dia publicar um pequeno anúncio onde os signatários afirmarão não ter nada em comum e se recusarão a responder, cada qual, pelas dívidas que o outro tiver assumido. Pois, enfim, isto é uma brincadeira. Sartre e eu publicamos todos os nossos livros, sem exceção, antes de temos nos encontrado. Quando nos conhecemos, foi para constatar nossas diferenças. Sartre é existencialista, e o único livro de ideias que publiquei, O mito de Sísifo, era dirigido contra os filósofos ditos existencialistas.” Os leitores podem encontrar um bom material biográfico da relação entre Sartre, Camus e Simone em uma obra chamada Camus e Sartre, o polêmico fim de uma amizade no pós-guerra escrita por Ronald Aronson, além da maravilhosa biografia que o Olivier Todd escreveu sobre Camus que podem ser encontradas ainda em sebos.

Mas para não me alongar de mais nessas considerações, as divergências com o existencialismo se apresentam em um primeiro momento em O mito de Sísifo, onde Camus indica que o existencialismo cristão promove uma evasão, uma fuga da vida, porque depositam em deus ou em uma razão superior os termos finais da condição humana. Outros divinizavam aquilo que esmagava o homem (a morte). Na medida que o existencialismo ateu vai se associando ao Marxismo e toma a História como universal, para Camus eles acabam caindo nessa mesma fuga ou evasão. Com o passar do tempo e o agravamento das relações na guerra fria, as críticas de Camus também se estendem a ideia de que a violência devia ser justificada como único caminho eficiente para solução dos conflitos. Esta postura adotada por Camus e suas críticas formam os contornos da ruptura entre ele e Sartre em 1952.

AP: Como podemos definir o absurdismo? Como você definiria o pensamento de Camus para quem não está familiarizado com sua obra?

Alberto: O absurdismo não é uma linha filosófica original de Camus, outros tantos autores que ele chama de “espíritos contemporâneos” já tinham escrito e sinalizado em suas obras essa sensibilidade que se chamou de absurdo. A náusea de Sartre, as obras de Kafka e de Dostoiévski já ilustravam essa temática. Camus, entretanto, dá a sua roupagem e seu rigor a esse tema. O absurdismo expresso nas obras de Camus não oferece uma resposta pronta, ele convida o leitor a refletir sobre as questões relacionadas ao sentido da vida e etc.

O que podemos extrair das reflexões de O mito de Sísifo e das obras de Camus é que a existência humana é marcada pelo conflito do desejo humano de impor uma ordem ao mundo e o próprio movimento natural do mundo que é indiferente a esse desejo. Para Camus, o homem através do hábito, da cultura e da razão tenta estabelecer sua vontade sobre as forças naturais e acaba sendo superado pela morte, pela perda, pela sensação de exílio. O absurdo para ele marca essa condição humana que não deveria ser fundada sob abstrações como vida eterna, sociedades perfeitas ou transcendências, mas na pura imanência. O ser humano deve abraçar a vida e extrair desse conflito a liberdade, a paixão e sua revolta.

AP: Por que decidiu fazer seu mestrado sobre a obra de Camus e por quê escolheu “O Homem Revoltado”? Você poderia nos contar qual o enfoque de sua pesquisa e como está seu andamento?

Alberto: Bem, creio que o primeiro impulso que me levou a investir nesse projeto de pesquisa foi perceber a riqueza da reflexão do pensamento de Camus e de sua originalidade. E posteriormente encontrei no tríptico da Revolta, especialmente em O Homem Revoltado, um vivo debate sobre dois temas que me atraíram bastante: a questão do niilismo e do assassinato lógico. Então desenvolvi meu projeto abordando o conceito da revolta como uma objeção ao niilismo em consequência o assassinato lógico. O que também me deixou bastante intrigado foi perceber que a pesquisa pode oferecer luz a algumas questões relativas ao próprio momento que estamos vivendo. A pesquisa está em seus estágios iniciais, mas é bastante promissora.

AP: O niilismo do pensamento ocidental analisado por Camus em “O Homem Revoltado” ainda está presente nos dias de hoje? O próprio bolsonarismo como fenômeno político teria um fundo niilista segundo o pensamento de Camus? O quão relevante é a obra de Camus para a atualidade?

Alberto: O niilismo que eclodiu no ocidente no século XIX nunca abandonou a cultura ocidental. Ele se manifestou no início como uma ferramenta para revisão de conceitos e dogmas, mas como toda praga sem controle destroçou certas referências éticas, morais e permitiu o esvaziamento da própria dignidade humana. E o século XX soube demonstrar para vergonha de todos nós como é possível desenvolver instrumentos eficientes de destruição em massa. Os campos de concentração Nazistas e Stalinistas, o bombardeio de Hiroshima e Nagasaki são os ecos desse apagamento da dignidade humana.

O que vemos hoje na política brasileira é um eco dos movimentos de extrema direita internacionais. Não é novidade que o estrategista da campanha de Donald Trump, o Steve Bannon também tem ligações profundas com a família Bolsonaro e desenvolveu sua campanha com base na guerra híbrida, Fake News e uma massiva campanha negacionista. Camus olharia para esses movimentos com a mesma preocupação que olhou os do seu tempo e em uma conferência proferida na Universidade de Columbia 1946 falava sobre a crise humana e os desafios para resgatar a moral em um mundo mergulhado na negação da verdade e da liberdade.

O bolsonarismo é um movimento de extrema direita que por extensão sobrevive negando a verdade dos fatos, destruindo a dignidade do outro e atentando contra as instituições democráticas corroendo os fundamentos do estado de direito. Como não pensar que todas essas ferramentas de destruição não são ecos de um niilismo na pior acepção da palavra? Bem, creio que é uma das fontes do mal…

AP: Em “O Homem Revoltado”, Camus distingue o conceito de revolta e ressentimento a partir de uma crítica à noção de ressentimento de Max Scheler que também parece muito pertinente para pensarmos o momento político atual. O ressentimento parece ser um elemento essencial para o fortalecimento e crescimento do bolsonarismo no cenário de hoje. De que modo Camus propõe que se conduza o conceito de revolta tão caro à sua obra até as últimas consequências sem que ela não se desdobre em ressentimento?

Alberto: A revolta é um conceito ético de afirmação. O homem revoltado é aquele que afirma e delimita o campo de ação. “Diz o sim e o não”. Enquanto a revolta for afirmativa no sentido de não permitir a violação da vida do outro, ela se preserva de qualquer ressentimento. Por outro lado, o ressentimento é corrosivo, é destrutivo, ele é o oposto de uma ética revoltada.

Enquanto a Revolta se manter em sua afirmação, consciente dos limites de sua própria ação, ela não vai ceder ao assassinato ou ao esvaziamento do outro.

AP: Nietzsche e Dostoiévski são dois dos autores que mais influenciaram Camus e estão presentes diretamente/ indiretamente em quase todas as obras do autor. Qual a importância dos dois para o pensamento dele?

Alberto: Não há dúvida sobre a importância das obras dos dois autores para a formação de Camus como pensador e como artista. Seja pela postura vitalista que encontramos nas obras de Nietzsche, seja pela forma como as questões existenciais são construídas nas obras de Dostoiévski. Essa maneira de levar as questões existenciais ao limite da razão é um traço. Camus dialoga com esses autores. Mesmo que suas conclusões sejam diferentes e até mesmo no caso do Dostoiévski opostas, mas é inegável a influência de ambos na obra de Camus.

AP: Pelo contexto de pandemia em que vivemos é inevitável não se mencionar o livro “A Peste” de Camus, um livro que pode ter diversas interpretações e leituras, sobre à qual você mesmo já escreveu dois ótimos textos. Neste romance estão presentes diversos elementos recorrentes na obra do escritor franco-argelino como o suicídio, o niilismo, a busca por sentido, a indiferença do mundo, a existência ou não de uma divindade. Até que ponto “A Peste” condensa a filosofia camusiana e o que deste romance nos fornece um material de reflexão pertinente para pensar a pandemia atual de Covid-19?

Alberto: Creio que algo que é muito próprio da forma de escrever do Camus é a capacidade de espelhar nos leitores os dilemas e assim fazer com que o leitor dê as respostas e não seus personagens. Os personagens da Peste são trabalhados sob a perspectiva de conceitos e dilemas da existência humana. Como não encontrar em Rieux a expressão prática do conceito da Revolta? Mas essa é uma chave de leitura para quem tem certa intimidade com a forma de Camus escrever. Para um leitor novo que se depara com A peste, ele pode ter outras percepções do que está sendo dito. O autor já tinha expressado que esse romance especificamente era uma alegoria da ocupação nazista. Mas como não ler hoje o romance em meio da pandemia global do novo coronavírus e não sentir a correlação dos eventos e dos termos? Creio que o brilhantismo da obra é fazer com que o leitor dê as respostas que está procurando e não os personagens.

Podemos extrair lições poderosas de coragem, abnegação e alteridade do romance que seria muito útil para nossa condição atual. Creio que no mínimo teríamos bares menos lotados em suas noites de fruição e egoísmo. Afinal é impossível que a peste venha e vá sem ter afetado o coração dos homens.

AP: Para finalizar, por quais obras você recomendaria para uma pessoa que pretende conhecer a obra de Camus?

Alberto: Eu indico O estrangeiro como um primeiro contato com os textos de Albert. E mediante a experiência que o texto fornecer ao leitor e as respostas que o leitor desejar dar ao romance, ele pode seguir para O mito de Sísifo e outras obras.

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