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Ghetto Brothers: A eclosão do Hip-Hop nas ruas de Nova Iorque — Parte 2

O seguinte texto compõe a segunda parte da matéria sobre o famoso grupo de jovens do Bronx, confira a primeira parte no link
A Banda em uma de suas apresentações nas block parties. Foto: Alejandro Olivera/ Saboteur Media

Nos anos 1970, os Ghetto Brothers, em meio a todo contexto em que estavam inseridos, adquiriram um forte perfil ideológico e insistiam na luta contra a opressão e o imperialismo, mesmo que a maioria já tivesse desistido.

Pregavam a igualdade entre as gangues na intenção de unificar a luta e expor os aspectos em comum (e não suas diferenças), procuravam mostrar que se encontravam na mesma situação e não deveriam matar uns aos outros em confrontos, mas sim buscar o mesmo ideal.

“Eram minorias discriminadas. Como tal, tinham maiores dificuldades no cotidiano e escassas possibilidades de ascensão social. Dentro desta realidade, o surgimento de uma subcultura (cultura de um determinado grupo social específico), que representasse resistência e a reafirmação de identidade era algo no mínimo previsível e necessário”, afirma o professor Ladenilson referindo-se ao surgimento do grupo.

Os Ghetto Brothers sempre tinham um forte caráter social, procuravam tirar as crianças das ruas e incentivá-las ao estudo, acolher e livrar pessoas do mundo das drogas, ajudar a comunidade como podiam, doando roupas e comidas.

Através destes atos que repercutiram por todo estado, conseguiram firmar seu propósito e logo expandiram-se, totalizando mais de 2.500 membros em toda Nova Iorque. Consequentemente, ganharam repercussão na mídia e o apoio da opinião pública.

Dessa forma, tornaram-se uma banda. Com influências do rock e do funk latino, suas composições expunham um pouco de suas vivências, por isso muitos jovens da época identificavam-se com as mensagens que passavam.

8 de dezembro

Os Ghetto Brothers detinham muito respeito das demais gangues, porém, mesmo depois de todos os esforços na tentativa de reerguer a comunidade, ainda havia muitos confrontos por todos os distritos. Tudo o que transmitiam nos discursos e através das músicas não era o bastante para contê-los.

O estopim ocorreu no fatídico dia 8 de dezembro de 1971. Neste dia, haveria grande confronto entre os Bongos, Black Spades e Seven Immortals — gangues de outros distritos — que anunciaram um ataque aos Roman Kings — uma gangue do Bronx — que atacaria um de seus territórios. Como eram minoria, pediram a intervenção dos Ghetto Brothers, na intenção de servirem como intermediários e apaziguadores.

Melendez destinou alguns novatos da gangue e dois membros de alta influência entre os demais para intervirem, Playboy e Cornell Benjamin, mais conhecido como “Black Benji” — um ex-dependente químico resgatado pelos Ghetto Brothers, o qual realizava constantemente discursos e palestras e era visto como porta-voz do grupo.

Tais membros designados foram ao local demarcado para impedir o confronto, porém depararam-se com uma multidão sedenta por violência, armados com facas, tacos, entre outros artifícios. Quando viram Cornell aproximando-se pedindo por paz, um dos membros das gangues rivais aproximou-se violentamente desferindo golpes contra ele.

Cornell foi atingido várias vezes na barriga com facadas e morreu no local. Sua morte repercutiu na mídia e gerou bastante comoção entre as pessoas, justamente pelo fato de ter morrido violentamente, apesar de estar pedindo por paz.

Os Ghetto Brothers, tanto como outras gangues do Bronx, ficaram bastante chocados pelo acontecimento. A morte de Cornell veio a se tornar um marco, cuja relevância mudaria toda a história e a situação dos distritos.

Tudo que a mídia queria era ouvir o pronunciamento do grupo anunciando retaliação as pessoas que mataram Cornell. Corriam rumores de que Karatê Charlie já havia convocado diversos membros dos Ghetto Brothers e de outras gangues aliadas para um embate direto contra os assassinos, o que seria completamente, sem sombra de dúvidas, um dos maiores banhos de sangue de toda a história de Nova York.

Porém, o pronunciamento de Charlie e Melendez foi completamente o oposto do esperado: na frente de milhares de jornalistas, o grupo anunciou que não faria nada, mas levaria a morte de Cornell como um símbolo, para provar que a guerra entre as gangues não levaria a nada a não ser a autodestruição.

“Essa virada de chave quando morre o Black Benji, foi quando finalmente abriram os olhos. Alguém morreu para dar sentido a uma causa, isso serviu de lição para as pessoas. A morte dele foi tão emblemática, que ao invés da galera colocar uma guerra geral, eles ofereceram um tratado de paz. Já tinham sofrido demais, não precisavam de mais sofrimento”, complementa o DJ Barba.

O pronunciamento e logo em seguida o tratado de paz surpreendeu a todos no local. Nos dias que se seguiram, o estimado grupo Ghetto Brothers marcou horário e local e convocou representantes de mais de 40 gangues para discutirem e entrarem em um consenso de paz. Após esta reunião histórica, o tratado foi assinado pelos líderes.

O Surgimento do hip-hop

Após o acordo, a paz reinou quase que instantaneamente nos distritos. Foi uma significativa mudança de atitudes, e a partir de então havia mais interação entre as pessoas, que não mais se hostilizavam.

O papel dos Ghetto Brothers, no entanto, não acabou por aí. Depois da reunião, passaram a organizar grandes festas, mais conhecidas como Block Parties, nas quais costumavam comparecer um grande número de pessoas, em sua maioria ex-membros de gangues.

“Essa pacificação das gangues fomentou para um movimento que foi muito importante para o começo do hip-hop que foram as Block Parties. Eles faziam festa na rua, colocavam as caixas, fechavam as ruas da periferia de Nova Iorque e faziam as batalhas de dançarinos, os Ghetto Brothers fomentaram e muito para isso”, afirma o DJ Paulão dono da Patuá Discos.

Essas festas vieram principalmente para quebrar os antigos limites territoriais que ilhavam as pessoas nos anos anteriores. O clima era descontraído, era permitido cantar, tocar e dançar nos palcos.

O conceito de gangue foi se desfazendo com o tempo, quando a música foi ganhando mais espaço que a violência, e as gangues acabaram virando equipes de DJ, MC’s e B-Boys (dançarinos de Break).

“Os Ghetto Brothers, transformaram essas gangues em ‘crews’ de dançarinos, por isso que até hoje a coisa da batalha de B-Boys tem esse tom tão disputado. Ela vem de uma animosidade do pessoal na época”, diz Paulão.

A mudança de atitude generalizada fez com que uma cultura diferente nascesse, cultura essa conhecida como o hip-hop, que tomou completamente as ruas do Bronx.

Com a cultura emergente surgiram grandes nomes, como DJ Kool Herc. De acordo com o DJ Paulão, Herc foi um dos principais DJ’s da época, pois possuía fortes raízes musicais jamaicanas influenciando uma leva de pessoas.

Afrika Bambaataa e a Zulu Nation

Foto: Repodrução.

Segundo DJ Barba, Afrika Bambaataa foi como o grande “Boom” da época, pois teve um papel crucial para traduzir a violência em música e ao mesmo tempo levar as pessoas a seguirem esta transição.

Ex-integrante da gangue Black Spades, Bambaataa resolveu transformá-la na Zulu Nation. “Essa transição foi muito importante também, eles trocaram de nome, trocaram de consciência, e ao invés de ser uma consciência de guerra, pregavam a paz e a harmonia”, diz Barba.

Bambaataa queria transformar a identidade do grupo e esquecer aquela imagem de violência que passavam. Por consequência de sua influência no meio, já possuía o apoio da maioria das pessoas que antigamente eram membros de gangues.

Como o grupo surgiu posteriormente aos Ghetto Brothers, podemos considerá-los como sucessores, pois possuíam características similares tanto na maneira de expor ideias positivas através dos sons, quanto no apoio conquistado por toda Nova York.

Não somente, levaram também a total mudança de estilo: as pessoas deixaram o hábito de usar colete com remendos nas costas, roupas rasgadas e sujas, passando assim a usar calças boca de sino, medalhões, jaqueta de couro, entre outras peças que caracterizam até hoje o movimento Hip-Hop.

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