“Uma Batalha Após a Outra”, o décimo longa-metragem do consagrado diretor Paul Thomas Anderson
As primeiras cenas de “Uma Batalha Após a Outra“, novo filme de Paul Thomas Anderson, remetem a uma recapitulação dos episódios anteriores de uma série. Uma avalanche de acontecimentos é mostrada em um ritmo frenético que quase desnorteia o espectador logo de cara. Nós conhecemos o grupo revolucionário French 75, que tem entre seus integrantes dois protagonistas: o casal Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor).
O primeiro ato da revolução que eles pretendem é o resgate de prisioneiros de algo que parece um campo de detenção para imigrantes ou refugiados, tema muito atual que pode ser interpretado como uma crítica aos EUA de Trump. Steven Lockjaw (Sean Penn), membro do exército americano, é um dos responsáveis por essa prisão. Ele é rendido por Perfidia e, durante essa ação, rola um clima entre os dois em uma cena meio bizarra que já mostra o senso de humor do longa.
Bob personifica a esquerda revolucionária, Lockjaw representa a extrema-direita mais reacionária e depois acaba até se aproximando de uma sociedade secreta que se assemelha ao grupo supremacista branco Ku Klux Klan. O que ambos têm em comum é o amor por Perfidia e a possível paternidade de Wila (Chase Infinity), sua filha. O enredo tem essa dinâmica de corrida de gato e rato, de um lado correndo atrás do outro, os revolucionários contra o sistema e vice-versa.

O longa não está muito interessado em construir as histórias de vida destes personagens. Quase todos são bem caricatos, desde o papéis de DiCaprio até o da Teyana Taylor e do Sean Penn. Isso não é algo negativo em si, porque combina com a proposta da obra ser uma espécie de sátira política em determinados momentos. Anderson faz críticas pontuais, que se assemelham mais a comentários superficiais do que a ataques categóricos, aos Estados Unidos, ao racismo, a um romantismo da esquerda e a extrema-direita racista. Ainda assim, tudo isso é mais um pano de fundo para o diretor poder fazer sequências de ação memoráveis, como quase todas as perseguições e fugas.
A ação e a comédia funcionam muito melhor aqui do que o drama político e familiar. A dinâmica entre Leonardo DiCaprio e Benicio Del Toro é um dos pontos altos da produção. Ela é um dos destaques cômicos que não diminuem a tensão da narrativa, mas até a amplificam com auxílio da trilha sonora de tom grandioso de Jonny Greenwood do Radiohead, que também trabalhou em “Sangue Negro” (2007), “O Mestre” (2012) e “Licorice Pizza” (2021).
DiCaprio interpreta um revolucionário paranóico que vive preocupado em não ser preso. É um personagem tragicômico, que vive chapado e carrega o filme com toda sua vulnerabilidade e seu carisma. Ghetto Pat (seu apelido) é um azarão nato que não tem nada a perder e fará de tudo por sua filha, que também corre perigo por seu passado.
Teyana Taylor também entrega uma performance muito boa e intensa no pouco tempo de tela que dispõe. Ela é a militante mais radical de todos do seu grupo e que não aceita ser confinada ao papel de mãe. A paternidade é um dos temas do longa, mas não é explorada de uma forma tão envolvente como poderia ser pelo roteiro escrito por PTA e inspirado no livro Vineland do escritor estadunidense Thomas Pynchon.
O filme é tão acelerado que às vezes eu pensei que estava assistindo a algo dirigido pelos Irmãos Safdie (conhecidos por “Jóias Brutas” e “Bom Comportamento”) e não um trabalho do Paul Thomas Anderson. Algumas cenas de perseguição também me lembraram a atmosfera caótica de “Anora“, ganhador do Oscar de 2025, de Sean Baker, outro diretor contemporâneo. Vivemos tempos ansiosos por causa das redes sociais e seus algoritmos, e é claro que isso também se reflete na velocidade do cinema atual. É como um sintoma da nossa época.
O título do projeto faz justiça ao seu conteúdo; de fato, o público vai acompanhar “Uma Batalha Após a Outra”: desde um resgate de prisioneiros até a fuga da polícia, passando pela luta diária de ser um pai em um mundo que está em constante mudança. Apesar disto, ainda dá para se criticar a falta de desenvolvimento interior dos personagens e um maior aprofundamento do contexto político deste universo que lembra muito os atuais Estados Unidos. O impacto emocional da experiência poderia ter sido maior ainda com a atenção a estes não tão pequenos detalhes.
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