

A Pulsão de Morte em Clarice Lispector
Do Ísis ao Abjeto: um Percurso Pessoal
Ao me debruçar sobre a obra de Clarice Lispector, sempre me senti atraído não pela luz clara da psicologia, mas pela sua sombra orgânica e movediça – aquela força que, de dentro das frases, corrói as certezas e atrai o ser para um centro tão silencioso quanto ameaçador. Neste ensaio, proponho um percurso pessoal de investigação sobre a manifestação da pulsão de morte em sua escrita, tomando como eixo dois livros que, à primeira vista, parecem falar línguas opostas: Água Viva (1973) e Via Crucis do Corpo (1974).
Minha leitura de algumas de suas obras é que a pulsão de morte – entendida aqui não como desejo de aniquilação, mas como aquela força freudiana regressiva que anseia pela dissolução das tensões e pelo retorno ao estado zero – é o fio que costura o aparente abismo entre esses dois projetos. Em Água Viva, ela se apresenta como um impulso místico e criativo: a morte do eu individual é o preço e a via para se atingir o “instante-já”, o “isto” puro e pré-linguístico. É uma busca pelo indiferenciado, uma volúpia de dissolução na água viva do ser. Já em Via Crucis do Corpo, a mesma pulsão mostra sua face imanente e brutal, inscrita na carne degradada, nas relações violentas e na solidão que esfacela personagens à deriva. É a queda sem transcendência, a paixão pelo avesso.
Para compreender a amplitude desse movimento duplo em Lispector, não poderia fazer este caminho sozinho. Trago comigo, como interlocutores essenciais, duas vozes poderosas. De um lado, Virginia Woolf, cuja fragmentação do eu no fluxo de consciência e busca pelos “momentos de ser” iluminam a dimensão metafísica e temporal da dissolução em Água Viva. De outro, Hilda Hilst, cuja exploração radical do abjeto, do corpo e dos limites da linguagem oferece um espelho distorcido e potente para ler a violência contida e lancinante de Via Crucis do Corpo. Este ensaio é, portanto, o mapa de uma travessia pessoal por um território literário onde morrer para o mundo constituído parece ser a única forma verdadeira de habitar a vida – uma travessia que faço acompanhado por estas autoras fundamentais.

A Dissolução do Eu em Água Viva – Morte como Gênese
Água Viva é um livro-sem-nome, uma voz que fala do limiar entre ser e não-ser. Nele, a narrativa convencional se desfaz para dar lugar a um turbilhão de impressões, sensações e pensamentos em estado bruto. A narradora-pintora não conta uma história; ela persegue o “instante-já”, o momento puro que precede a linguagem e a individuação. É precisamente nessa busca que opera a pulsão de morte em sua face mais sutil e criativa.
Para alcançar o “isto”, é necessário morrer para o eu social, histórico e narrativo. A narradora almeja uma despossessão de si: “Não quero mais ter o rosto que tenho”. Ela busca tornar-se impessoal, um canal para a força vital-cósmica que escapa à definição. Essa aniquilação do ego não é um fim, mas uma condição para acessar um estado de gênese permanente: “Sou um grito vivo. E salto do trampolim do tempo para fora do tempo. E mergulho no é.” A pulsão de morte, aqui, é o mergulho no indiferenciado, a volúpia de se perder no magma originário da existência.
A linguagem de Água Viva é o campo de batalha dessa pulsão. As frases são curtas, cortantes, muitas vezes desconexas. A sintaxe se quebra, repetindo-se e corrigindo-se, num esforço fútil e ao mesmo tempo glorioso de nomear o inefável. O próprio ato de escrever é descrito como um risco de aniquilação: “Escrever é uma pedra atirada no poço profundo de si mesmo.” A escrita tenta capturar a vida, mas só o consegue através de um processo de autodissolução. A narradora deseja ser “água viva” – fluida, sem forma fixa, em constante transformação. Esse desejo é a expressão máxima da pulsão de morte como retorno ao estado de não-individuação, à quietude anterior à vida organizada. É uma morte que não é fim, mas fonte.

Água Viva é um livro-sem-nome, uma voz que fala do limiar entre ser e não-ser.
Via Crucis do Corpo: a Carne e a Ruína
Se em Água Viva a pulsão de morte opera no plano da consciência e da linguagem, em Via Crucis do Corpo ela desce à matéria, manifestando-se com violência crua sobre a carne. Os contos deste livro são um inventário de humilhações, desejos perversos, solidão e degradação física. A pulsão aqui não é mística, mas visceral; não aspira ao cósmico, mas se esboroa no chão da miséria humana. O corpo em Via Crucis não é um templo, mas um campo de batalha e um cadáver em processo. Em “O Corpo”, uma mulher obsessivamente limpa o apartamento após a morte da empregada, confrontando-se com o nojo e o mistério da matéria orgânica em decomposição. Em “A Via-Crúcis do Corpo”, uma prostituta é submetida a um ato degradante por um cliente, num ritual de violência que reduz a pessoa a pura função carnal. Em “Miss Algrave”, a personagem tenta desesperadamente escapar da solidão através de encontros casuais, mas só encontra vazio e autodestruição.

A pulsão de morte se revela no desejo de autopunição, na submissão à violência, na atração pelo abjeto e na decomposição social e física das personagens. Elas estão presas em circuitos de repetição que as levam, inexoravelmente, a uma queda. Não há transcendência aqui, apenas imanência da ruína. A “via-crúcis” do título é precisa: é um caminho de sofrimento infligido ao corpo, uma marcha rumo a uma espécie de calvário sem ressurreição. A pulsão opera como força de desagregação dos laços sociais e de profanação da própria ideia de dignidade humana. O corpo, longe de ser água viva, é peso, obstáculo, ferida aberta.
Fechamento: a morte de Lispector
A exploração da pulsão de morte em Água Viva e Via Crucis do Corpo revela as duas faces da mesma moeda na cosmovisão de Clarice Lispector. De um lado, a atração pelo inorgânico, pelo silêncio e pela dissolução do eu como via de acesso ao estado puro de ser, ao “é” primordial. É uma pulsão que se confunde com o êxtase criativo e a busca mística. Do outro, a face sombria e imanente: a queda no abjeto, a repetição destrutiva, a ruína do corpo e dos vínculos, a força que corrói a vida a partir de dentro.
Ambas as manifestações, no entanto, convergem para um ponto central: a recusa da vida como forma estável, organizada e socialmente aceitável. A pulsão de morte em Clarice é o avesso necessário da pulsão de vida, sua sombra inseparável. Em Água Viva, a morte do ego permite um renascimento em estado de pura potência. Em Via Crucis, a morte social e psicológica das personagens é o testemunho brutal de uma vida que não conseguiu encontrar forma, sucumbindo à sua própria entropia.
No fim, a literatura de Clarice Lispector é esse lugar perigoso onde a vida se deixa contaminar pela sua própria sombra, onde para dizer o mais vivo é preciso enfrentar o mais morto. Sua escrita é o fio tênue que atravessa essa região, sendo ao mesmo tempo o sintoma da pulsão e a tentativa heroica – e sempre falhada – de nomeá-la. É na tensão entre essas duas forças, a de criar forma e a de dissolvê-la, que pulsa o coração obscuro e genial de sua obra.
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