“Fantasmas” – André Novais
“Fantasmas” (2010) é um curta dirigido por André Novais. Durante todo o filme, que tem onze minutos de duração, a câmera não se mexe nunca. Ela apenas treme quando alguém esbarra nela. O zoom é utilizado perto do final para os personagens e os espectadores conseguirem ver de perto uma nova personagem muito importante para a história.
Durante toda a obra, o público ouve dois amigos discutindo; ambos têm forte sotaque mineiro e parecem estar no terraço de uma casa localizada na periferia ou em um bairro de classe média baixa de Minas Gerais. A audiência nunca vê esses personagens e apenas sua imaginação pode ajudar a imaginar como eles podem ser. O pano de fundo é uma esquina que possui um posto de gasolina, uma ruazinha em que passam carros, ônibus e pessoas corriqueiramente. É mais um dia comum em um lugar que poderia se localizar em qualquer parte do Brasil, dado que cria a identificação automática dos brasileiros que assistem ao curta.
Os amigos se chamam Maurílio e Gabriel. Eles discutem como se fossem conhecidos de longa data, os assuntos são futilidades cotidianas, nada que chame a atenção de ninguém. O que se dá para inferir deste diálogo, além da relação de intimidade que ambos parecem compartilhar há algum tempo, é que Maurílio parece não estar bem. Ele passou por algum evento que não podemos precisar direito, mas que o deixou mal. Segundo Maurílio, Gabriel não está saindo de casa e parece estar estranho.
É aproximadamente aos seis minutos, na segunda metade do curta, que Maurílio reconhece algo estranho naquela interação. Ele percebe uma câmera, que também nunca é mostrada, e pergunta o que o amigo Gabriel está filmando. Gabriel reluta para confessar, mas depois admite que está filmando porque tem a impressão que viu sua ex recentemente por aquele lugar e quer confirmar este dado.
O tom dos diálogos entre os dois é bem natural, parece mesmo uma conversa entre dois amigos e não entre dois atores interpretando personagens que são amigos. O uso de expressões e gírias próprias de MG também ajuda o público a imaginar a que tipos de pessoas pertencem aquelas vozes.

O título do curta “Fantasmas” pode ser interpretado de diversas maneiras. André Novais não está interessado em solucionar este problema. Uma interpretação possível é ser uma referência a um fantasma de um passado não tão distante assim; o fantasma de Camila, ex-namorada de Gabriel, seria uma das respostas.
Talvez Gabriel precise filmar a aparição da ex-companheira para provar sua existência; ele precisa capturar sua imagem com uma câmera para assegurar que o que viu anteriormente não era fruto de sua imaginação, uma alucinação ou uma aparição fantasmagórica. Esta pessoa, que agora viverá para sempre naquele filme, existe em carne e osso, mas foi preciso a mediação de um artefato tecnológico – a câmera – para provar a “realidade” daquele acontecimento. Quando Gabriel filma Camila, ele se apropria da sua imagem e pode utilizá-la como quiser.
Também há um aspecto voyeurístico no filme, que é uma característica do cinema desde suas origens. Um exemplo do cinema clássico que trata desta questão do voyeur é o longa “Janela Indiscreta” (1954), dirigido por Hitchcock. Nesta obra, o protagonista observa seus vizinhos pela própria janela, uma metáfora nada sutil que remete à relação do espectador com a sétima arte. Estar em uma sala de cinema observando algo e não ser observado de volta é um dos maiores prazeres secretos da humanidade.
O curta “Fantasmas” subverte o estilo de narrativa tradicional e constrói algo diferente. Ele convida o espectador a se colocar na mesma perspectiva de seus personagens, ao mesmo tempo que deixa uma certa dose de mistério e imaginação a cargo do público para este imaginar os elementos da história que ficaram em branco.
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