Música

O Casamento entre o Erótico e o Sagrado em Leonard Cohen

Em seus discos abundam as tentativas, muitas das quais bem-sucedidas: “Suzanne”, “Joan of Arc”, “The Window”, “Take This Longing” e, claro, “Hallelujah”

Criado em uma próspera família judia de Montreal ligada ao comércio têxtil, as histórias bíblicas — judaicas e cristãs — serviram-lhe de inspiração. Lhe eram caros especialmente o livro de Salmos e os Cânticos de Salomão (ou Cântico dos Cânticos), mas também as histórias dos profetas (vide Story of Isaac). A essas referências, juntaria-se o I Ching, um livro chinês que transita entre a filosofia e a adivinhação.

Mais tarde, Cohen chegaria até mesmo a passar um tempo como monge zen-budista, enquanto a sua empresária sumia com o dinheiro que havia conquistado durante décadas. Daí a sua necessidade de fazer turnês mesmo idoso. Isso, contudo, é conversa para outro dia. 

Leonard Cohen em Paris, 1970 (Foto: Philippe Gras / Le Pictorium – 12/05/1970 – Imago Stock & People)

No ano de 1984, o canadense precisava de dinheiro. Há cinco anos não lançava nenhum disco e o patrimônio que tinha estava se esgotando, os romances e os livros de poesia não pagavam suas contas e a rede de pessoas que Cohen sustentava.

É importante notar que foi assim que Cohen entrou para a música, aos 33 anos, bem mais velho que os seus companheiros dos fins dos anos 60. Não podia mais viver de editais de literatura e dos royalties dos livros. Assim, voltou ao estúdio e lançou o disco “Various Positions“. 

Dentre as faixas do disco, “Hallelujah”, hoje sua música mais conhecida. Traduzida e cantada em diversas línguas, a canção possui mais de 300 regravações. Ela não se tornou um sucesso do dia para a noite. Só com Jeff Buckley a música encontrou a fama.

Buckley, por sua vez, chegou até “Hallelujah” através de um cover de 1991, de John Cale. É hoje a versão mais ouvida. É difícil conhecer alguém que nunca tenha escutado ao menos a sua melodia. Se não reconhece por nome, faça o teste e escute. A melodia não soará estranha.  

“Hallelujah” passou até mesmo a ser utilizada em ambientes litúrgicos, serviços religiosos e casamentos. Seu refrão, grito de louvor de origem judaica, ecoou e ainda ecoa em todos os ambientes possíveis, dos tidos por mais profanos aos tidos por mais sagrados, dos bares e bordéis aos teatros e catedrais. 

Meticuloso, a música levou quatro anos para ser composta. A versão original possuía 80 versos (e isso já após ele ter descartado muitos outros). É curioso que, como conta Sylvie Simmons, biógrafa do cantor, Bob Dylan ajudou Leonard a escolher quais seriam os versos finais da canção. 

Na ocasião, Cohen e Dylan se encontraram em Paris. Este apresentou a música “I And I”. Quando perguntado quanto tempo levou para compor, o Bardo de Minnesota respondeu: 15 minutos. Envergonhado ao receber o mesmo questionamento, Leonard omitiu o tempo, dizendo apenas que havia tomado “alguns anos”.  Dylan emendou, disse que suas músicas pareciam preces.

Uma prece e um louvor — mas a partir do sexo e da carne, do erótico e do sensual, e um louvor a tudo isso a partir do Divino. Na sua mais bem-sucedida tentativa de unir as delícias da terra aos prazeres do Céu, “O amor está lá para mitigar a sua solidão, a prece é para acabar com a sensação de separação em relação à fonte das coisas” (Leonard Cohen, Nigel Williamson, Uncut, 1997, I’m Your Man, p. 303-304).

A música, como pretendeu Leonard com o conceito do disco “Various Positions” (que algumas pessoas acreditaram, à época, se tratar de uma referência ao Kama Sutra e às inumeráveis posições sexuais), oferece diversas perspectivas acerca da existência. Nela, encontramos uma série de conflitos e possibilidades dadas pelo narrador, mas todas as necessidades, embates e desejos terminam em uma espécie de orgasmo celestial: Aleluia! 

Sobre a “Hallelujah”, Leonard comenta: “Este mundo está cheio de conflitos e […] coisas que não podem ser pacificadas, mas há momentos em que podemos transcender o sistema dualista, pacificar e aceitar toda esta bagunça. […] Independente da impossibilidade da situação, há um momento em que você abre a boca, abre os braços […] e apenas diz: ‘Aleluia! Abençoado seja o nome.” (I’m Your Man, Syvie Simmons, p. 304)

Toda a sua percepção religiosa e espiritual, das diferentes tradições, era lida a partir da Kabbalah, a compreensão mística do judaísmo. É possível dizer, sem hesitação, que o mais sagrado altar na “teologia” de Leonard Cohen é o leito onde duas pessoas se unem, espírito e corpo.  Neste altar, dois corpos em holocausto dissipam as trevas da distância, tornam-se um.

Em Hallelujah, Cohen parece atingir o ápice da sua obsessão enquanto artista. Todo artista possui uma obsessão que o caracteriza, ainda que muitas vezes sequer a perceba. Ela o guia desde a espinha, passando pelo texto e chegando ao canto, à pintura, à cinematografia e a todas as formas de expressão. É preciso provar algo, ainda que muitos morram sem descobrir que algo é este. Lutam, ainda que o algo seja o nada. 

Para Leonard, Deus, conflitos, mulheres, amores, desejos, carne, todos se unem em um só Aleluia, um grande coro, uníssono e ainda assim múltiplo. Esta era a sua obsessão. Neste clímax, o sexo abandona a característica de obscenidade que tão constantemente lhe é atribuída, e se torna um sacramento: um sinal visível de uma realidade metafísica que faz do ser humano, ao mesmo tempo, abençoado e amaldiçoado, sempre existindo em um eterno descompasso entre a finitude inevitável da morte e o desejo da infinitude. 

O Aleluia da música surge para sacralizar toda a aparente profanidade, e mesmo um relacionamento caindo em pedaços se rende como Davi.  O fato é que, para Cohen, “se Deus é excluído do sexo, ele se torna pornográfico; e se o sexo é excluído de Deus, Ele se torna piedoso e moralista.” (Sincerely, L. Cohen, 1993). Ele nunca aceitou estas exclusões.

Também em sua obra literária, esse desejo é evidente. Não é exagero dizer que o músico compreendia que a resposta definitiva da vida humana gira em torno do amor. Viveu sua vida buscando encontrá-la. Seu livro de poesia “Book of Mercy”, por exemplo, confunde-se com um livro de preces em que o Amor aparece, de maneira implícita e explícita, contagiando até mesmo os versos de ódio, como nos paradoxos de um Koan budista. 

Em “Joan of Arc”, Leonard se utiliza da imagem da santa sendo consumida pelo fogo como uma figura do amor que oblitera e se deixa obliterar de maneira abrasadora. Em “Take This Longing”, ele canta: “seu corpo como um farol/minha pobreza revelada”, como num salmo. 

Homem de muitas mulheres, teve dificuldades de estabelecer relacionamentos duradouros e estáveis, enquanto expressava um certo receio de ser consumido pelo desejo e pela paixão. Temia confundi-los com o amor.

Nos anos de 1950, Leonard viajou para a Ilha de Hydra, na Grécia, e lá se estabeleceu. Um paraíso libertino e reduto de autoexílio de uma série de artistas. Foi aí que conheceu Marianne Ihlen, a mais marcante de suas musas, mas os paradoxos eram tantos que a sua declaração de amor veio através de uma despedida: “So Long, Marianne“. Como em “Joan of Arc”, um amor destruidor: “Você se agarrou em mim como num Crucifixo/ Enquanto seguíamos ajoelhados através da escuridão”.

Vivendo a revolução sexual, assumia as enormes possibilidades que surgiam à sua frente, como seu personagem (quase autobiográfico), no romance A Brincadeira Favorita (1963): “Breavman, você está apto às mais diversas experiências neste que é o melhor dos mundos possíveis.”

Quatro anos depois, no primeiro disco, em 1967, perguntava-se: “E onde essas estradas nos levarão/ agora que somos livres?” Para em seguida responder, na mesma canção, como que falando de si mesmo: “Você está trancado em seu sofrimento/ e seus prazeres são o selo.” Em 1979, por sua vez, cantaria: “Eu vim tão longe pela beleza/ eu deixei tanto para trás.”

É difícil dizer se Leonard encontrou uma resposta que o satisfizesse; a obra final de sua vida deixa a questão em aberto. Em “You Want It Darker”, praticamente seu testamento, outra palavra hebraica dá o tom da sua despedida: Hineni, que significa “estou pronto” em hebraico, aparece repetidamente, ao lado de “Estou pronto, meu Senhor”, e fecha a música. 

Como os profetas que tantas vezes aparecem em suas letras, Leonard agora se punha de pé perante o mistério inefável, perante a porta da morte, de peito aberto. O canto e alegria da Páscoa, Hallelujah, solene o suficiente para a celebração da Ressurreição e para o sexo, agora dá lugar a um decidido Hineni, uma expectativa que não pode falhar, ante um destino inevitável. 

Em seu último ato, expõe mais uma vez a contradição da existência, a dele e a do Divino, tão desejado através de tantos corpos: “Um milhão de velas queimando por uma ajuda que nunca veio”. Sua disposição, aparentemente pessimista, apenas confirma sua abertura à dialética de uma realidade complexa. 

Leonard Cohen, ao longo de sua vida, não se deixou assustar por aparentes contradições, tomou o prazer e a contemplação pela mão, levou-os à cama e, neste altar, cantou vividamente um sonoro Hallelujah.

Siga A Pista em todas as redes sociais (InstagramTwitter e Facebook) e não perca nenhuma das nossas matérias sobre cinema, literatura, séries e música!

Torne-se um apoiador da Pista no apoia.se clicando aqui. Você também pode apoiar o nosso trabalho e o jornalismo cultural independente com qualquer valor via Pix para apistajornal@gmail.com.

Deixe uma resposta