
“The Moment” – Charli xcx
“The Moment”, da britânica Charli xcx, chegou ao Brasil nesta quinta-feira (19) após meses de burburinho. A exibição é exclusiva nos cinemas da rede Cinemark.
Com a estreia no Festival de Cinema de Sundance, em 23 de janeiro de 2026, a produção veio a cinemas estadunidenses ainda em janeiro, além de agora entrar em países como Alemanha, Áustria, Argentina, Irlanda e Reino Unido. A partir de março, Austrália, México, Portugal, Nova Zelândia e Dinamarca são alguns dos outros lugares que o receberão. A estreia em terras brasileiras não era algo que muitos fãs esperavam que acontecesse – ou o lançamento em salas de cinema, de forma geral, com muitas pessoas se perguntando: “por que o filme não foi direto a um serviço de streaming?”.
A decisão de pôr um longa como este nas telonas foi um tanto arriscada, pois, como o próprio filme satiriza, apenas os fãs de Charli que irão se interessar pela obra. De fato, quem for assistir sem algum conhecimento sobre quem a artista é, pode não entender muita coisa. É uma obra baseada em uma ideia de Charli, escrita por Aidan Zamiri (que assume a direção) e Bertie Brandes, e começa logo após o estouro de “Brat” (sexto álbum de estúdio), algumas semanas antes da turnê começar.
É um documentário falso sobre os bastidores da preparação dessa turnê, como a cantora de “365” está tentando manter uma coerência com sua estética, personalidade e mensagem que quer passar. Mas, devido às cobranças da gravadora Atlantic Records, ela é forçada a trabalhar com o diretor Johannes Godwin (Alexander Skarsgård), queridinho pelas celebridades, porém um completo insuportável que não aceita ouvir “não”, que quer limpar a imagem da cantora, tornando-a family friendly, ou seja, aceita pelo grande público. Se Johannes fosse brasileiro, definitivamente estaria por dentro (e talvez concordando) com o dizer “nojo de farra”, que circula pelas redes sociais em formato de meme.
Não conseguindo defender sua diretora criativa Celeste e passando por exaustão mental e física, Charli deixa que Johannes comande toda a direção de sua turnê para agradar a gravadora.
Decepcionando mais do que quem é sua amiga, contudo a si mesma, a artista não parece conseguir descansar nem quando decide tirar quatro dias de férias em Ibiza. Precisando resolver os problemas à distância, e não parecendo de fato feliz, ela entra em colapso após uma sessão com uma terapeuta holística chamada Maria. A profissional sugere que Charli precise parar um pouco, que está muito rígida, porém, após a cantora ficar na defensiva, Maria diz que não pode ajudá-la. Ao sair da sala, Charli dá de cara com Kylie Jenner, que diz amar Maria e conta que Johannes iria trabalhar com ela e sua família. Neste momento, dá para perceber o quão inadequada Charli se sente. Ela não consegue relaxar, encontra uma influencer que parece que tem a vida nos eixos, que lida bem com a fama e com questões que a artista não gosta ou quer encarar.
Como canta em “Girl, so confusing”, o roteiro expressa essas comparações e competições entre mulheres, como Charli não quer ser essa pessoa famosa “vendida” ou que “entrega o que todos querem”. Ela quer poder ser livre, ser controversa ou não fazer grandes collabs com bancos. Mesmo não divulgando o cartão de crédito nas redes, depois ela volta atrás e fala de benefícios que seus fãs receberão ao adquirir um cartão do banco Howard Stirling, e, ao fazê-lo, muitas dessas pessoas cometem fraude e dão um empurrão para o banco, que já não ia bem, entrar de fato à falência.
Charli, arrasada com o cancelamento que recebe na internet após essa polêmica, é chamada de comunista, pois ninguém sabe se não tentou quebrar um banco de propósito. Neste e em outros momentos, o filme escancara seu humor ácido e satírico, sempre com algum enquadramento em primeiríssimo plano focando no desconforto dos personagens ou imagens como Charli e a bandeira comunista.
“The Moment” traz pouco da interação da cantora com os próprios fãs, em um em específico, um homem tenta presenteá-la com um desenho, dizendo como sua arte o salvou de se matar. Essas falas são desconfortáveis e, por mais insensíveis que seriam em outro contexto, arrancam uma risada do telespectador. Tudo é muito cru e absurdo, o desconforto de Charli é presente em quase todos os takes, e você se pega se sentindo constrangido por ela ao ouvir certas coisas. Como na cena em que o motorista de seu carro tenta puxar assunto, perguntando quem ela é. Ao pesquisar no Google, o primeiro nome que aparece é o de Charlie Puth, gerando mais uma piada sobre como muita gente fora de uma bolha não a conhece. Após achar a pessoa certa, o motorista vê o clipe de “Boom Clap”, canção que fez para “A Culpa é das Estrelas” (2014), e ressalta como ela está totalmente diferente hoje. Foi um filme feito para jovens com câncer, ela responde, o que essa simples fala também contribui com o humor de toda a cena, pelo contexto tragicômico em que ela se encontra. Quer ser educada e solícita, porém está cansada de performar algo.
O tom do longa, com seus muitos zooms e músicas de A.G. Cook na trilha é um pouco agonizante; Charli se sente presa e é difícil não se sentir presa com ela, também. É interessante como fala brevemente de cancelamentos online, e a gravadora até imagina que Charli possa ter morrido, pois ela desaparece quando o banco quebra. E, se ela tivesse morrido, ainda faria sentido na história. No fim, ela aparece viva, mesmo após cenas de sua mão e uma mosca andando em cima, dando a entender que estava morta na cama.
O que faltou foi mais participação de outras pessoas da indústria musical. Troye Sivan, amigo e colaborador de longa data, poderia ter aparecido no filme com algum insight do que outros artistas estão falando dela, ou como a própria fama o afeta, também. Ela vive tão isolada (mesmo rodeada de pessoas) que em nenhum momento mostra ela tendo algum amigo verdadeiro neste meio – fora Celeste. Rachel Sennott faz um ótimo papel em ser “a amiga famosa”, que até tenta se posicionar sobre sua amizade com Charli após o cancelamento da cantora.
Alexander Skarsgård é um dos destaques, sendo tão cheio de si e egomaníaco na sua visão totalmente errônea do que é a cantora e o que seus shows deveriam ser, que traz cenas cômicas quando tenta mostrar a Charli como deveria agir e o que deveria falar no palco. Ele é a representação de um homem branco rico out of touch, que não respeita a opinião de mulheres, mas que tenta aparentar descolado, cool.
“The Moment” termina com “Bitter Sweet Symphony” de The Verve tocando no trailer do documentário gravado dentro do filme, com a artista fazendo um show totalmente fora do que a própria faz, na realidade. Com dançarinas, roupas com muito brilho e frufru, elementos no palco como um grande isqueiro e um cigarro gigante flutuante, muita maquiagem etc., aquilo nunca foi o que Charli XCX é ou quer ser. Na realidade, suas apresentações parecem com uma rave, ela está sozinha no palco – caso não tenha chamado a participação de alguém – e não tem nenhuma decoração excessiva.
Parece que Charli acaba ressentindo “Brat”, tudo o que ele foi ou a tornou ser. O monólogo final é potente ao pedir desculpas à Celeste. Ela explica que, por mais que não seja bom ser a última pessoa na festa, ela não quer ir para casa.
Acabou a party girl?
“Brat” vem num momento que dialoga com o fim da era party girl. De acordo com a MindMiner (via Exame), a Gen Z reduziu o consumo de álcool, e segundo uma pesquisa de Atlas Intel (via Veja), esta geração é a que menos gosta de Carnaval, por exemplo. Numa era em que as pessoas buscam por saúde, disposição e dão mais atenção aos cuidados com a pele, talvez não seja mais cool ficar de ressaca toda semana, indo dormir em horários insalubres. E, em contrapartida, há o medo de perder a juventude. Há a ânsia de sair e viver a vida, ser inimigo do fim, querer mais e mais. Charli, em crises de identidade, não tem as respostas, mas sabe que precisa se libertar do peso da cobrança externa. Talvez nunca mais alcance esse nível de fama como aconteceu com o “Brat”, que a deixou criticamente aclamada, talvez nunca consiga deixar de ser a party girl que já a suga com tantas cobranças e medos. Contudo, qualquer rótulo que tome a si, se apegar a ele ao ponto de autodestruição é o esperado da fama, da pressão misógina direcionada às mulheres. E por mais “previsível” que isto seja, a vulnerabilidade da artista com Celeste é um fechamento importante. O vínculo feminino é o conector; claro, junto com as músicas, a rave, o verde brat, o sentimento de pertencimento ou não pertencimento numa pista de dança.

