
Jim Morrison foi poeta e formou-se em cinema pela University of California, mas conquistou fama como vocalista da revolucionária banda de rock psicodélico The Doors. Morrison, tal qual sua banda, teve uma trajetória breve e intensa, marcada pela vivência do trilema que definiu uma geração: sexo, drogas e rock ‘n’ roll.
À frente do grupo entre 1965 e 1970, afastou-se neste último e mudou-se para a capital francesa em março de 1971, almejando fugir da fama ao lado da sua companheira Pam Courson. Seu objetivo era focar na sua carreira de poeta e ficar um tanto distante do ambiente caótico dos Estados Unidos. Tentou largar as drogas, mas o vício dele e de Pam atravessou o Atlântico com ambos. Em 3 de julho de 1971, aos 27 anos, foi encontrado morto na banheira de seu apartamento em Paris. A versão oficial é a de que Jim morreu de insuficiência cardíaca — até hoje não se tem certeza da causa da morte, já que não foi realizada autópsia, com muitas especulações sobre overdose causada pelo uso de heroína.
Após sua morte, o grupo ainda lançou dois álbuns, mas acabou se desfazendo sem a presença do “Lizard King”, como era conhecido.
Jim notabilizou-se não só por seu vocal potente, mas também por suas letras, e não precisou de mais do que o período de 1967, ano do Verão do Amor, a 1970 para marcar definitivamente a história do rock. Inicialmente tímido, tornou-se uma entidade. Sex symbol, a capa do disco de estreia em 1967 mostra a predileção: o rosto de Jim toma a maior parte da arte, enquanto os demais membros da banda aparecem discretamente no canto inferior direito.
Quando bebia, tornava-se incontrolável, o que fez valer-lhe o apelido de Jimbo, uma espécie de alter ego, em contraposição ao doce e delicado Jim. Chegou a ser preso após um show em 1969, acusado de ter mostrado o próprio pênis para a plateia (o acontecimento nunca se comprovou).
Para compreender a anomalia musical que foram os Doors (e aqui, anomalia surge como um grande elogio — visto que a banda não se encaixava apropriadamente em nenhum rótulo), é preciso buscar primeiro entender seu frontman.

Leitor assíduo, deixou, do nome da banda às letras e aos poemas que publicou, uma série de referências que nos ajudam a compor o mosaico artístico-literário que o forjou para o mundo. Aqui, alguns livros e autores que inspiraram Jim Morrison:
1. “As Portas da Percepção” e “Céu e Inferno”, de Aldous Huxley.
O nome da banda surgiu do livro de Huxley: expandir as portas da percepção. Em seu livro, Huxley dá a tarefa de expansão para o uso da mescalina — uma droga alucinógena, o avô do LSD. Sem dúvidas, uma das obras que mais influenciaram a geração Hippie. Para Huxley, os alucinógenos poderiam ser um canal para uma realidade mais ampla, aberta e completa. O título do livro, por sua vez, era inspirado na obra do poeta e místico William Blake.
2. “O Matrimônio do Céu e do Inferno”, de William Blake.
Huxley cita Blake: “Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como realmente é: infinito.” Poeta de forte veia mística, simbólica e crítica, Blake foi influência decisiva para Jim, fato que se torna muito claro na música “End of the Night”, do disco de 1967, em que aparecem alguns versos do poema “Auguries of Innocence”.
3. Arthur Rimbaud, poeta simbolista
“Um meteoro.” A expressão poderia se referir a Rimbaud ou a Morrison. Aquele, poeta do fim do século XIX, promessa e realidade da poesia francesa, parou de escrever aos 21 anos, mas não sem deixar uma obra que ecoaria dali em diante. Admirado por muitos, foi também amante do consagrado poeta Verlaine. Era uma das leituras favoritas de Jim.
4. Friedrich Nietzsche, filósofo alemão
John Densmore (baterista do Doors) teria dito que Nietzsche matou Morrison. Isso porque a frase “o que não me mata, torna-me mais forte” teria sido levada muito ao pé da letra por Jim, que adotou um estilo de vida intenso e inconsequente, que o levaria à morte com apenas 27 anos. Algumas biografias (como “Jim Morrison – Ninguém Sai Vivo Daqui”, de Jerry Hopkins e Danny Sugerman) indicam que Jim Morrison leu tudo o que podia de Nietzsche. Quando adolescente, chegava mesmo a comprar livros de Nietzsche com o dinheiro que recebia para comprar roupas.
5. “Édipo Rei”, Sófocles
Jim era um grande fã de Teatro Grego. Sua leitura mais marcante é, sem dúvidas, a de “Édipo Rei”. A tragédia, que conta como Édipo foi amaldiçoado e condenado a matar o pai e fazer sexo com a mãe, rendeu os versos mais polêmicos da carreira da banda, que não esperou muito: “The End”, música que fecha o primeiro disco. Conta-se que os Doors foram expulsos do famoso bar Whisky a Go Go, em 1966, quando cantaram a música. O dono, horrorizado, chutou-os dali. A ideia principal de Morrison, contudo, era retratar o Complexo de Édipo, tese presente na psicanálise freudiana.
A lista acima, claro, não esgota as leituras de Morrison, mas dá o tom daquilo que ele levaria em suas letras, recheadas de simbolismo, expansão da mente, misticismo (e, no caso dele, até xamanismo) e tragédia. Os Doors marcaram não só a sua época, mas todo um gênero musical, e é difícil imaginar que teriam alcançado esse patamar sem o gênio e as referências de Jim.
Em sua lápide, o epitáfio de Jim diz: “Kata Ton Daimona Eaytoy”, que em grego significaria algo como “Contra o Demônio dentro de si mesmo”. A vida e a obra de Morrison são condizentes com o dito.
I am the Lizard King / I can do anything*
[Eu sou o Rei Lagarto / Eu posso fazer qualquer coisa]
* Famoso verso da canção “Not to Touch the Earth” (1967), representando a persona xamânica, caótica e intensa de Jim, seu alter ego místico e artístico.
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