Cinema

“A História do Som”: filme com Paul Mescal e Josh O’Connor desperdiça o potencial de uma grande história de amor

Filme muito bonito, história promissora, encantadora e trágica de uma certa maneira, mas com um tom tão apático que, infelizmente, não condiz com o que se propõe.

Poucas coisas entristecem tanto quanto simpatizar com um filme, querer gostar dele e acabar se decepcionando com o que foi entregue. Infelizmente, é o meu caso com “A História do Som“, filme de Oliver Hermanus estrelado pelos simpáticos Paul Mescal e Josh O’Connor.

O filme traz a história de Lionel Worthing (Paul Mescal), um músico por natureza que se apaixonou por música desde a infância. Acompanhado de delírios cinestésicos, Lionel estabelece a mais bela relação com as canções entoadas pelo pai, o que acaba sendo, posteriormente, o catalisador de sua relação com David White (Josh O’Connor) na vida adulta. Encantado com um ainda desconhecido David cantando uma canção tradicional da sua região, Lionel dá abertura para o desenvolvimento de uma relação amorosa que, apesar de curta, marca para sempre a sua vida.

“A História do Som” (Divulgação/Universal Studios)

Como pode um filme que apela tanto ao coração ser tão monótono? É um filme muito bonito, uma história promissora, encantadora e trágica de uma certa maneira, mas com um tom tão apático que não condiz com o que se propõe. Verdadeiramente trágico é ver um grande romance ser conduzido de forma tão tímida, quadrada e superficial, emocionando pouco ou quase nada apenas nos minutos finais do filme.

A parte em que Lionel e David viajam em busca de canções folk, como verdadeiros caçadores de tesouros, é a mais animadora do filme, a parte mais interessante. É nesse momento em que percebemos a importância que ambos os personagens dão à música, não como ondas de som que ecoam, mas como um potencial elemento afetivo. Enquanto embarcam nessa aventura que é tanto material (na coleta do produto) quanto espiritual, os personagens se veem em uma realidade intensa, mas fugaz, o que os faz questionar as suas escolhas de vida. Assim, separam-se e fazem suas vidas em lugares muito distantes.

Esse primeiro movimento do filme sugere, bem vagamente, uma valorização da cultura popular e ancestral, das vozes do campo, da música como herança. No entanto, tanto esse aspecto como o romance entre os personagens recebem um tratamento morno, despretensioso, algo que entristece de tão apático. Um filme sobre música produzida e reproduzida por gerações deveria emocionar, mas na realidade, frustra.

Chega a ser decepcionante como o filme se demora demais em nos mostrar a vida que Lionel constrói para si longe de David. Como espectadora, ansiava pelo momento em que ele regressaria ao passado, algo que acontece e até agrada, apesar da situação dramática. É a partir daqui que o filme tenta dar o seu respiro final, que acaba sendo um momento de quebra na narrativa, com um salto temporal muito longo.

Toda a história que insere saltos temporais corre o risco de cair em uma caricatura de si mesma, algo que, infelizmente, acontece aqui. Não que eu não aprecie qualquer tentativa de mover ecos do passado, mas é preciso reconhecer que este é um recurso perigoso, que pode se tornar apelativo, distante demais ou até didático. No caso de “A História do Som“, o recurso até emociona, mas depois de muito tempo. Os minutos finais são lindíssimos, mas chegam com tanto atraso que perdem um pouco do fôlego.

Será que eu criei expectativas demais e, portanto, sou a responsável pela decepção? Não tem como saber, mas fato é que eu queria ter gostado mais. Uma história com um grande potencial, mas que se apresenta com uma roupagem morna, uma canção de uma nota só.

“A História do Som”, lançado no Brasil pela Imagem Filmes, estreia nos cinemas no dia 26 de fevereiro de 2026.

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