O filme da diretora Luso-Cabo Verdiana é quase um conto literário em imagens, com uma fotografia bastante limpa e com cenas abertas, em que o território de Cabo Verde aparece como uma extensão subjetiva de uma criança que ainda não compreende o mundo, a narrativa pouco explica os acontecimentos em cena, a progressão dramática está no silêncio cortado pelo vento ou o barulho das ondas, uma obra que aposta no rigor estético e que cresce no silêncio quer mostrar a força daquela que escolheu ficar. Nana que mora em uma comunidade na Ilha do Fogo está acostumada com todos que se vão buscando uma oportunidade melhor, mas isto não significa que ela entende suas emoções ou que saiba nomear seus anseios e vivências, ainda é uma jovem criança que é criada em comunidade depois da partida da mãe.

Apostar na contemplação e experiência subjetiva no cinema contemporâneo têm sido bastante arriscado, é necessário algum tipo de recurso para conseguir segurar seu público na sala, o chamado cinema de arte ás vezes ao tentar ser experimental demais pode soar pretencioso e vender uma história que apela para o artístico porquê não tem muito conteúdo. Alinhar forma e conteúdo é um desafio que poucos diretores conseguem já no seu longa de estreia, Denise Fernandes no entanto consegue entregar um filme em que roteiro e edição caminham lado a lado, para mostrar o amadurecimento de um país que constantemente é apagado do mapa, ainda que a história seja focada em Nana é sobre Cabo Verde, o país de seus pais que Denise está falando.
Em entrevistas a diretora afirmou que diversas vezes constatou que devido a escalas cartográficas muitas vezes seus país de origem não constava no mapa e que isto a incomodava, a invisibilidade da cultura de seu arquipélago e o olhar colonizador do cinema para com a África que muitas vezes aponta a sua diáspora e este continente só como ponto de saída e não de retorno foi o que foi dando vazão para ela escrever o roteiro de Hanami (2024).
Assim, o filme é um convite contra principalmente o olhar do assimilado, aqueles que julgam que o olhar do colonizador estava certo e que não é possível ser feliz em uma país que historicamente sofreu processos de exploração. Nana enxerga nos membros anciões de sua comunidade a coragem e a raiz necessária para ficar, apesar da saudade da mãe. Cabo Verde existe graças aqueles que resolveram ficar, apesar da febre. Denise Fernandes quer mostrar um país que se orgulha de seus conhecimentos tradicionais e sua cultura e a melhor forma de mostrar isso foi se apropriando discursivamente e imageticamente de uma cosmogonia que geralmente é interpretada como realismo fantástico e muitos autores, como por exemplo, Mia Couto, já rejeitaram.
Aqui o mistério não quer ser moeda para o consumo de um público que não compreende o encantamento de uma percepção outra de tempo e de vida, de convivência com o invisível ou mesmo a coexistência de universos, o místico, a tradição, a lenda, o real, se misturam no cotidiano de uma ilha que precisa saber lidar com um vulcão em atividade.

Denise Fernandes quer mostrar um território possível, habitável, um espaço onde se pode estar e, sim, ser feliz, mas também mostra uma criança que cresce buscando entender as partidas ao seu entorno e ela é como a ilha que tem um vulcão que está em atividade, mas está controlado, ela sente tristeza, saudade, no entanto ama onde está e com o tempo aprende a ser feliz, ela controla suas emoções em nome da permanência. É em como aprender que ela entende sua relação com aquele lugar, Nana vai conhecer na história de amizade de um ancião do lugar o significado de Hanami que na cultura japonesa se refere à tradição de observar as flores de cerejeira durante a primavera. Não é só sobre olhar, mas contemplar e sentir de acordo com o colega japonês e é curioso que essa ponte seja construída, dois países arquipélagos, em que a cultura milenar, a tradição, e a religião podem ser a chave para um país que busca ainda uma identidade e meios de existir apesar de seu constante apagamento.
Depois de passar por festivais internacionais no mundo todo, sendo premiado em Locarmo e Mostra de São Paulo, o filme foi o escolhido de Portugal na corrida do Oscar de 2026, acabou ficando de fora dos finalistas, no entanto é um filme que merece ser visto para aqueles que ainda conseguem se entregar para a contemplação. O filme distribuído pela Imovison estrou no Brasil na última quinta-feira e está em cartaz com sessões no Reserva Cultural da Paulista.
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