O Teatro Oficina é, por si só, um espetáculo à parte. De todos os lados e alas existentes, tudo o que se vê são rostos à procura da próxima ação dentro da casa da família, que, se num palco italiano convencional já estava exposta, agora é vista numa situação inimaginável: todo o teatro é a sala de estar dos burgueses.
A peça “Senhora dos Afogados” é baseada na obra homônima de Nelson Rodrigues, publicada em 1947. Parte do chamado “Ciclo Mítico”, o enredo da peça parte da morte de Clarinha por afogamento, seguindo os passos de sua irmã Dora, morta anos antes. Dentro da família Drummond, Moema, a filha que restou (brilhantemente interpretada por Lara Tremouroux), salta dentro da narrativa, onde todos as personagens são importantes para a construção do inconsciente familiar. A peça trabalha com vários elementos do contexto do Rio de Janeiro no segundo quartel do século XX amalgamados às experiências culturais atuais, como se traçasse um panorama de síntese entre o momento da concepção da peça e o momento presente.
Longe de serem exagerados, os elementos cénicos tendem para o kitsch; a maquiagem de algumas atrizes, como Danielle Rosa, Kelly Campêllo, Mariana de Moraes, Selma Paiva e Zizi Yndio do Brasil (todas elas compondo o coro das prostitutas), é pesada em contraste com as outras, que trabalham em um tom sóbrio; dignas de nota aqui são as tatuagens do Noivo, deliberadamente infantis e grosseiras, dando à sua caracterização um tom lúdico e distanciado. A música funciona da mesma forma, alternando entre Schubert “Trio para Piano n. 2 em Mi Bemol Maior D 929” e uma batida techno contemporânea, com toques de Umbanda preenchendo este “terreiro eletrônico” (nas palavras do próprio José Celso Martinez, idealizador do Oficina) com um misticismo que combina tão bem o presente com a época em que a peça se passa. A banda, responsável pelas performances musicais ao vivo e no local, trabalha em um formato que combina planejamento e espontaneidade; tudo é muito bem ensaiado e planejado — ao mesmo tempo, porém, o arranjo instrumental transmite uma sensação de simplicidade e improvisação.
Essa dualidade de elementos cénicos reflete, na minha opinião, a complexa composição textual da peça. Dividida em apenas dois atos, o primeiro com duração de 90 minutos e o segundo com 45, o contraste é visível após o intervalo. Enquanto o primeiro ato trabalha com um ar de seriedade cômica, o segundo cativa o espectador-ator com sua comédia séria. Magistralmente dirigida por Monique Gardenberg, a peça faz grande uso do cenário à beira-mar; nesta adaptação, o mar torna-se uma personagem ao lado de Eduarda (Leona Cavalli), Misael (Marcelo Drummond) e Moema, com intervenções sonoras e a aparição de areia por todo o palco durante o segundo ato.
A organização cenográfica, por sua vez, se aproveita enormemente do espaço proporcionado pelo Teatro Oficina; de forma pouco convencional, como é natural para um teatro com arquitetura tão brilhante, Marília Piraju (arquiteta cênica) desenvolve um plano cíclico onde a entrada do teatro é também o corredor, aproximando o ator do espectador e permitindo que a ação se desenrole nessa esteira; os assentos (inseridos dentro de andaimes), deliberadamente duros e desconfortáveis, se tornam essenciais para a proposta da peça — os olhos e os corpos dos espectadores devem estar atentos aos movimentos e ambientes sensoriais provocados por temas como luto, incesto, desejo e culpa dentro de uma família dilacerada pela força da tradição.
Os atores, todos parceiros de produção do ex-diretor do Oficina, Zé Celso, formaram o elenco proposto para a peça original, trazendo uma forma livre de teatro e dança para a sua performance física, sem a rigidez típica do palco italiano convencional. Essa solidez e facilidade de performance é demonstrada nas interações conhecidas e únicas do teatro. A certa altura, mais comum no segundo ato, Eduarda Drummond, a mãe, pergunta ao público: “Vocês também já cometeram más ações?”, alegrando-se caso a resposta fosse positiva. O coro duplo — de vizinhas (Cristina Mutarelli, Giulia Gam, Michele Matalon e Lígia Cortêz) e prostitutas — se move entre o público, reverberando ora a pressão social, ora lamentações brilhantemente musicalizadas. Para Zé Celso, essas canções reforçam a atmosfera onírica e alucinatória da narrativa; não poderia concordar mais: o poder encantador do texto misturado com os elementos cênicos bem trabalhados gera uma espécie de catarse pós-dionisíaca no público.
A dramatização da peça consegue ser ainda mais extrema do que o seu texto. A direção e todos os membros da coreografia cenográfica aproveitam ao máximo o texto bem elaborado de Rodrigues e, inspirados pela possibilidade de inovação dentro de um teatro como o Oficina, montam um espetáculo próprio, com elogios a cada elemento que surge nesse cenário de criação múltipla e respeitosa.
Os ingressos podem ser comprados aqui, com meia-entrada para estudantes, professores e moradores do bairro do Bixiga.
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