Literatura

“O fim de Eddy”, a primeira peça do quebra-cabeça para entender Édouard Louis

“O Fim de Eddy” – Édouard Louis

Publicado na França em 2014, “O fim de Eddy” foi o primeiro livro escrito pelo autor francês Édouard Louis. No Brasil, a edição pioneira foi traduzida por Francesca Angiolillo da Editora Tusquets em 2018. A versão brasileira lida para esta resenha foi a da Editora Todavia de 2025, traduzida por Marilia Scalzo.

A obra começa com uma dedicatória ao escritor, filósofo e sociólogo francês Didier Eribon, que também é um amigo e uma grande influência na escrita de Louis. Em seguida, há uma epígrafe com uma citação de outra compatriota – a autora Marguerite Duras em O arrebatamento de Lol v. Stein: “Pela primeira vez meu nome pronunciado não nomeia“. Esta frase, que carrega ambiguidade, poesia e força, resume bem a experiência que aguarda o leitor de “O Fim de Eddy”.

Eddy Bellegueule foi o nome que o pai de Édouard escolheu para seu primeiro filho. Um nome de “macho”, como ele mesmo diz, que lembra até um protagonista de algum filme de ação norte-americano. Todo o processo narrado é o de Louis lidando com essa bagagem familiar. Desde o começo, Eddy era diferente e se sentia assim. Seus pais e os outros sempre o recriminaram por isso: sua voz, seus trejeitos, sua inaptidão para esportes. Ele sempre tentou lutar contra isso. O título do livro é apropriado para narrar esta experiência que mistura estranhamento e revolta por parte do seu narrador-protagonista.

O trabalho começa com o seguinte parágrafo: “Não tenho nenhuma lembrança feliz da minha infância. Não quero dizer que nunca, durante aqueles anos, eu tenha experimentado um sentimento de felicidade ou de alegria. Mas o sofrimento é absoluto: tudo que não entra em seu sistema, ele faz desaparecer.” Este início marcante dá o tom da prosa que caracteriza o estilo de escrita de Louis. Ele é conciso com sua construção de frases e vai sempre direto ao ponto.

O escritor francês Édouard Louis (Foto: Divulgação)
O escritor francês Édouard Louis (Foto: Divulgação)

Todos os escritos do autor dialogam entre si, mas “O fim de Eddy” é um ótimo contraponto a outro grande livro do escritor, “Mudar: Método”, minha primeira leitura dele. O “Mudar: Método” (publicado pela Todavia em 2024) é, de fato, a história da construção da persona de Édouard Louis. Seria interessante ler os dois em sequência para pensar nas semelhanças e dessemelhanças de ambos.

Este foi o sexto livro de Louis que eu li. É curioso como isso pode mudar completamente a experiência da leitura. Cada obra do escritor é dedicada a um capítulo ou a um personagem específico da sua vida. Idealmente, esta seria uma boa porta de entrada para conhecer mais sobre o francês, mas não há nenhum prejuízo para o leitor em começar por outros. Ele sempre costuma recapitular fatos de sua infância em todos e ajuda o leitor a se contextualizar de uma forma bem sucinta.


Seu estilo se assemelha a uma literatura de testemunho, de denúncia. Édouard Louis reflete sobre a violência da identidade que lhe foi imposta pela sociedade quando ele ainda se chamava Eddy Bellegueule. A homofobia, o classismo, o machismo, o racismo, a xenofobia, a pobreza: tudo isto moldou o mundo ao seu redor – que na sua infância se resumia à pequena cidade em que ele morava, que quase ninguém que conhecia conseguia deixar.

Nós carregamos não só nossa história, mas a dos nossos pais, dos nossos amigos, do nosso bairro, da nossa escola, da nossa cidade, do país em que nascemos. Para se libertar disto, ele precisava fugir e se tornar outra pessoa. Cada livro de Louis é como uma peça de um quebra-cabeça que compõe a sua autobiografia. O “Fim de Eddy” é o ponto de partida em uma viagem de autoanálise transformada em um processo de autotransformação, que convida o leitor a embarcar junto nesta experiência mediada pela linguagem própria de um escritor também em busca do pleno domínio de seu meio de expressão.

Torne-se um apoiador da Pista no apoia.se clicando aqui. Você também pode apoiar o nosso trabalho e o jornalismo cultural independente com qualquer valor via Pix para apistajornal@gmail.com.

Siga A Pista em todas as redes sociais (InstagramTwitter e Facebook) e não perca nenhuma das nossas matérias sobre cinema, literatura, séries e música!

Leia também:

Deixe uma resposta