Cinema

“Barba Ensopada de Sangue”: Gabriel Leone personifica trauma familiar em novo filme de Aly Muritiba

“Barba Ensopada de Sangue” — Aly Muritiba

Barba Ensopada de Sangue“, novo filme do diretor Aly Muritiba (“Cangaço Novo”, “Deserto Particular” e “O Homem que Matou a Minha Amada Morta“), é uma adaptação do livro homônimo de 2012 escrito por Daniel Galera. A obra chega aos cinemas em 2 de abril, com distribuição da O2 Play — que nos convidou para a cabine de imprensa do evento.

O protagonista é Gabriel (Gabriel Leone), um homem que está em busca de respostas sobre si mesmo e seu passado. A maior parte do longa acompanha a estada deste personagem, que é gaúcho (identidade reforçada repetidamente), em uma casa de praia que pertencia ao seu falecido avô e que está localizada em Armação (Florianópolis, Santa Catarina).

A primeira cena apresenta o pai de Gabriel. Ele está sentado na sua casa, ao lado de uma garrafa de uma bebida cara, uma arma carregada e sua cachorra Beta — que ele pede para seu filho sacrificar, por conta da idade avançada, no veterinário. Ele parece um homem em crise, que se entregou completamente e precisa compartilhar sua última confissão antes de ir para o outro mundo. De fato, ele está prestes a se matar (é o que anuncia ao seu filho), mas antes precisa compartilhar uma história sobre o avô do rapaz. A câmera de Muritiba treme durante quase toda essa sequência. Seu avô, supostamente, foi assassinado, sob condições misteriosas, mas ninguém nunca achou o corpo.

Após o suicídio do pai, Gabriel viaja para Armação e começa a passar os dias na casa do seu avô enquanto tenta vender o imóvel. Desde que chega ao local, o personagem de Leone é visto com desconfiança por todos os habitantes da região. Ele não é apenas um “forasteiro” de quem ninguém sabe o passado, mas é o homem que vai ocupar a casa do “louco de pedra” — apelido do seu avô naquela região. Cada pessoa tem uma versão diferente para contar sobre seu avô. Até a versão que seu pai conta do avô é uma versão que alguém contou pra ele.

Gabriel Leone em cena do filme "Barba Ensopada de Sangue" (Foto: Aline Onawale/Divulgação)
Gabriel Leone em cena do filme “Barba Ensopada de Sangue” (Foto: Aline Onawale/Divulgação)

Gabriel tem um arco interessante. Não sabemos muita coisa dele, mas vamos descobrindo por etapas. Ele não tem a melhor das relações com o pai, com o irmão, com a ex-namorada. Suas falas são mínimas, o que facilita a encarnação do personagem que não tem “respostas” para dar sobre as coisas.

Toda a produção da obra é muito bem construída. A cinematografia foi feita sob medida para ser apreciada na tela do cinema, mas parece faltar algo que sugue de fato o espectador para dentro da experiência. A trilha sonora também parece querer compensar isso e, por vezes, é carregada e tenta ser grandiosa demais, mesmo quando o contexto não casa muito com aquilo. Parece haver um descompasso entre a forma e o conteúdo do filme como um todo.

Barba Ensopada de Sangue” é um filme sobre traumas e sobre linhagem familiar. O filho Gabriel, o pai e o avô não compartilham apenas o mesmo sangue, mas algo misterioso e mais ambíguo — que se revela aos poucos ao espectador. O longa se assemelha a um thriller de suspense por esse aspecto de investigação empreendido pelo protagonista, mas ele funciona melhor quando foca no drama e na relação entre os personagens — como a de Gabriel e a guia turística Jasmin (Thainá Duarte). Essa parte, que parece uma história de amor entre duas pessoas “perdidas”, é uma das mais singelas da narrativa e um dos destaques do filme.

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