Literatura

“As Meninas”: O fluxo de consciência de Lygia Fagundes Telles

“As Meninas” é um clássico contemporâneo brasileiro, relevante como tantos outros romances canônicos da nossa literatura. Com uma narrativa ousada e com personagens tão bem desenvolvidas, aprendemos um pouco sobre manter a irmandade em tempos sombrios.

Ao lado de Clarice Lispector e Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles integra a tríade das escritoras brasileiras mais influentes de sua época.

Sendo mais conhecida por seus contos, que foram compilados em uma lindíssima edição da Companhia das Letras (“Os Contos”, 2018), a escritora também publicou romances memoráveis, entre eles “A Ciranda de Pedra” e “As Meninas”, este último vindo a se tornar seu livro de mais fôlego e renome.

Nele, Lygia vai nos surpreender com uma experimentação narrativa que, particularmente, só vi em Virgínia Woolf. Diferentemente do fluxo de consciência hermético de Clarice, com “As Meninas” teremos algo que se aproxima muito mais a dinâmica do nosso próprio pensamento. Ao longo da trama, a autora mesclará devaneios, preocupações do presente e, por vezes, entrelaçará passado e futuro, ao ponto que nos faz questionar se memórias são reais ou inventadas.

Podemos classificar o romance como um estudo de personagem. A estória não se desenvolve para além dos corriqueiros cômodos nos quais as personagens habitam, pois passamos a maior parte do livro dentro da mente delas, tentando entender as aflições pelas quais têm vivido e, a partir disso, passando a conhecer suas personalidades de forma mais profunda e simpatizando com seus anseios.

As meninas

A maior parte do livro se passa dentro de um pensionato de freiras. A primeira personagem com a qual temos contato chama-se Lorena, uma jovem virgem que sonha com um amor impossível, pois “M.N” — seu objeto de desejo — é um homem casado e com filhos. Lorena tem origem abastada e suas preocupações não vão muito além de suas necessidades particulares. Enquanto sonha com seu amado, Lorena se preocupa com a aparência, toma banho com sais, preocupa-se com sua vestimenta e com qual música tocar em sua vitrola. Nem por isso é a personagem menos interessante do romance, pois seu ciclo familiar é envolto em problemas e complicações: Lorena supostamente perdeu seu irmão, Rômulo, que foi acidentalmente baleado pelo irmão mais velho, Remo, enquanto brincavam na casa da família.

A mãe de Lorena é divorciada e vive em conflitos amorosos com Miex, seu namorado mais jovem, além de também, próximo ao final do romance, ter se relacionado com seu psicanalista; já seu pai enlouqueceu e provavelmente se suicidou, algo que não fica explícito durante o livro, mas sugerido de forma fragmentada entre memórias e sentimentos que Lorena nutria por ele.

Por conta de sua origem, Lorena acaba sendo a personagem central do romance, servindo de ponto de refúgio para as outras duas personagens (Lia e Ana Clara), que recorrem a ela quando necessitam de dinheiro (“oriehnid”, como costumam dizer) ou itens de beleza.

A segunda personagem apresentada é Lia de Melo Schultz (ou “Lião” para os mais íntimos), que curiosamente é filha de mãe baiana com um alemão “ex-nazista” que se refugiou no Brasil após a derrocada do regime hitlerista. Lia é guerrilheira comunista e se opõe à ditadura militar de forma mais contundente que suas duas colegas. A militante também sonha com seu amado, Miguel, que, na época em que o livro se passa — próximo ao sequestro do embaixador americano em 1969 —, está preso e prestes a ser solto em uma negociação que envolve a libertação do embaixador sequestrado pela ALN.

Já Ana Clara (apelidada de “Ana Turva” por suas colegas) é a mais complexa entre as três personagens. Ana passou por uma infância difícil, marcada especialmente pela pobreza e pela desestruturação familiar. Vítima de abuso sexual com a conivência da própria mãe — que, por sua vez, também é uma mulher instável, associada à prostituição e a relações amorosas abusivas —, Ana Clara cresce em um ambiente hostil e toda sua experiência definitivamente impactou sua formação.

Conhecemos Ana em um dos episódios entorpecidos – os quais são difíceis de acompanhar por conta de sua confusão mental. Sua linha de raciocínio é a mais complexa em relação às outras duas. Entre seus pensamentos, nos deparamos com uma personagem altamente instável e perturbada, nós a acompanhamos sonhar em ascender socialmente e a pensar em casamento com um de seus amantes, chamado por ela de “escamoso”, visando apenas o dinheiro, para que assim consiga viver de forma efetiva com seu verdadeiro amor e também parceiro de “brisa”, o jovem Max.

O curioso do livro é que as três personagens possuem personalidades totalmente opostas, fazendo-nos questionar em qual momento pessoas tão diferentes se aproximaram, mas eventualmente o contexto nos faz descobrir que as três estão fragilizadas no âmbito familiar e amoroso, o que naturalmente faz emergir pontos de identificação entre elas.

A Narrativa

Lygia escreveu o livro em primeira pessoa, na perspectiva de suas personagens, mas, por vezes, nos deparamos com a voz intrusa de um narrador, que serve como recurso narrativo que interliga raros trechos e acontecimentos.

O fluxo de consciência utilizado no romance se assemelha bastante ao de “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, pois, em alguns momentos, a autora alterna entre as personagens sem aviso; quando percebemos, estamos na pele de outra personagem, que compartilha a mesma cena que a anterior, mas em uma perspectiva distinta.

O aspecto de “memória fragmentada” proposto pela autora permeará o livro em diversas situações, fazendo com que o leitor questione o que de fato ocorreu. Pensamentos e memórias são apresentados de forma confusa e fracionada, sem nunca nos revelar nada de forma clara e definitiva, deixando certas interpretações ao próprio leitor.

O livro é ousado ao nos propor esse estilo de narrativa, que mais afasta do que aproxima o leitor de primeiro momento, exigindo que sejamos resilientes, até que nos encontremos de fato dentro da história e simpatizemos com as personagens.

O tema também é ousado para a época: o livro foi publicado em plena ditadura militar e passou despercebido pelos sensores, tendo sua publicação oficial em 1973 – vencendo o prêmio Jabuti em 1974. O livro detém o primeiro relato explícito de tortura publicado: o contexto do trecho consiste em uma passagem em que Lia lê a Madre Alix – a Madre Superiora do convento – um pedaço de jornal contendo o relato de um preso torturado.

“As Meninas” é um clássico contemporâneo brasileiro, relevante como tantos outros romances canônicos da nossa literatura. Com uma narrativa ousada e com personagens tão bem desenvolvidas, aprendemos um pouco sobre manter a irmandade em tempos sombrios.

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