
Em 2 de abril de 2026, Dia Mundial da Conscientização do Autismo, a Produtora Marginália realizou a 1ª Mostra de Cinema Autista do Brasil no Instituto BR Cultural, localizado em Pinheiros. Segundo Kalú Kariú (25), idealizador e produtor da Marginália, em sua fala para o público: “Tivemos um longo processo de pesquisa para encontrar onde exibir nosso filme ‘Tom’, e não encontramos nenhum lugar no Brasil, e o que a gente faz com isso? A gente cria a primeira mostra autista”.
A iniciativa surgiu de maneira independente, sem financiamento público ou privado, por meio de várias parcerias. As inscrições para a mostra tiveram forte adesão; 72 filmes de 3 países foram enviados à curadoria, 52 deles por realizadores neurodivergentes, e 40 abordavam a temática da neurodiversidade de forma total ou parcial. O evento foi um sucesso de público; os ingressos se esgotaram em poucos dias. Registros mostram o espaço e a sessão cheios, demonstrando o quanto uma mostra neurodivergente é necessária e de grande interesse público.
Em discurso, os idealizadores do evento apontaram a omissão de órgãos públicos e empresas acerca de questões de acessibilidade e empregabilidade de pessoas autistas, ou em diferentes espectros neurodivergentes, e a importância de que pessoas neurotípicas, instituições públicas e privadas se posicionem e apoiem iniciativas da comunidade com recursos e discutam políticas públicas para fomentar a equidade social e garantir o acesso a oportunidades dentro do audiovisual. Durante sua fala, o realizador Ibirá Machado, representando a Descoloniza Filmes, fez o anúncio da fundação da Associação Nacional de Neurodivergência no Audiovisual (ANNA), sendo a mostra a primeira ação da associação, que terá por objetivo a defesa do cinema e dos profissionais neurodivergentes.

O evento idealizado pela equipe Marginália contou com diversos recursos de acessibilidade: rampas, óculos escuros para fotossensibilidade, fones protetores de ouvido, entre outros, disponíveis gratuitamente na entrada do Instituto BR Cultural, além do intérprete de Libras Caê Coragem e da audiodescrição de Escuta Essa.
Todas as atividades do cronograma foram informadas com antecedência nas redes sociais, incluindo dicas e trajetos para chegar ao local. A presença do Baile 77 e do Bar Boto Elétrico, além da organização do próprio espaço, trouxe um clima amistoso, incentivando o público a socializar, algo bastante importante para que os realizadores se conheçam e criem vínculos.
A mostra trouxe uma grande diversidade de curtas, incluindo ficção, animação e documentário, com diferentes estilos, abordagens e ótimas produções, e, entre as obras, houve pausas estratégicas da equipe para tornar tudo mais confortável. Ao final da exibição, os realizadores que tiveram suas obras exibidas foram convidados a uma roda de conversa, em que interagiram com o público e discutiram temas como intersecções entre a neurodivergência, racialidade e dissidência de gênero, além de práticas para tornar os filmes mais acessíveis.
Enquanto público, sinto que os idealizadores tiveram um posicionamento muito assertivo, e o evento foi um momento muito divertido entre todos nós. Passei a maior parte da noite rindo, conversando com as pessoas, os realizadores e a equipe. Comunidade é uma das palavras que define essa experiência. Muitas vezes, quando vemos algo assim acontecendo pela primeira vez, temos um sentimento agridoce: é maravilhoso ver essas iniciativas sendo criadas por pessoas tão engajadas, mas isso sempre nos escancara que, antes disso, houve séculos e décadas de exclusão, omissão e negligência.
Essa mostra é resultado do protagonismo de pessoas neurodivergentes que fizeram isso acontecer mesmo sem recursos, e é urgente que isso mude. Que existam cada vez mais mostras e festivais feitos por e para pessoas neurodivergentes em todas as áreas, cidades e regiões do país, e que sejam cada vez mais comuns e aconteçam durante todo o ano e não apenas no dia 2 de abril.

Lista de filmes exibidos:
- Descamar (2024) – Nicolau
- Hooji (2012) – Marcello Quintelha e Boynard
- Máscaras do Espectro (2024) – Gustavo Floering
- Novo Funcionário (2025) – Milena Batalha
- Para Além dos Arco-Íris (em processo) – Be Zilberman
- Tom (2025) – Mavi Santana
- Um Olhar Atento (2025) – Bianca Mercys
- URU (2025) – Saori Novak
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