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Todo MC é um poeta da periferia!

Saiba mais sobre o 5º elemento do Hip-Hop e onde é disseminada a cultura de rua

Alessandro Buzo em sua Livraria Suburbano Convicto (Foto: Blog/Reprodução)

O rap tem uma forte relação com a literatura no geral, principalmente quando se trata de poesia. Desde sua formação como estilo musical, o rap (rhythm and poetry, nome já sugestivo) apresenta em sua essência a poesia, basicamente considerada sua espinha dorsal. Porém, raramente se é referido como sendo algum tipo de poesia.

Basta pegar qualquer letra do gênero, tirar a batida ou recitar a letra, assim como fez Seu Jorge, para notar que qualquer rap inicialmente parte de uma poesia, assim podemos até observar detalhes nas letras que não percebíamos devido a sua intensa batida que muitas vezes nos envolve.

O rap e a poesia são tão interligados que alguns rappers acabam transitando para o meio das publicações, como no caso do rapper Renan do grupo Inquérito. Renan escreveu alguns livros de poesia, um deles fez muito sucesso no meio literário, o Poucas Palavras. O livro contém muitos de seus versos. Segundo ele, o rap teve um importante papel para levá-lo a publicar o livro:

“Depois que eu me dei conta de que o que eu escrevia era poesia, eu comecei a estudá-la, mas eu nunca tinha a pretensão de lançar um livro, mas quando me dei conta, resolvi juntar tudo e lançar, foi daí que saiu o Poucas Palavras. Então podemos dizer que foi o rap que acabou me levando para a literatura e consequentemente a conhecer outros trabalhos como o do Buzo, Sergio Vaz, Sacolinha, Férrez, entre outros escritores”, explica.

Quando perguntam sobre seu livro, ele simplesmente diz: “É rap no papel, eu peguei as letras que eu gravei e trouxe da volta para onde elas nasceram”. Hoje, Renan é considerado tanto no ramo da música quanto no ramo literário, participando de diversos eventos e palestras. Isso mostra que a poesia faz parte do cerne do rap e, mais do que muitas pessoas pensam, ela é responsável por um estilo.

Literatura Marginal: O 5° elemento do hip-hop

Parte interna da Livraria Suburbano Convicto (Foto: Blog/Reprodução)

Não podemos falar sobre rap e literatura sem mencionar alguma vez a literatura marginal, afinal todos os escritores citados por Renan anteriormente pertencem ao gênero.

Esse estilo de literatura foi bastante influenciado pelo rap, como explica um dos pioneiros do gênero, o escritor Alessandro Buzo:

“O rap foi a grande inspiração para a literatura marginal, porque a maioria dos escritores ouvem rap. E isso direcionou muito as nossas causas e os nossos textos, então eu acho que o rap é praticamente um irmão, é um movimento que caminha junto com a literatura marginal e que eu considero o 5° elemento do hip-hop”, afirma.

Esse gênero literário emergiu em meados dos anos 70 e procurava retratar a realidade periférica brasileira na literatura em uma época em que o ramo era bastante restrito e elitizado.

Assim como o rap surgiu como uma ferramenta para dar voz aos que não têm, a literatura marginal veio com o mesmo intuito, retratando moradores da periferia e a realidade da favela. Muitos se identificaram com o cenário e a linguagem utilizada tanto nos contos quanto nos romances, algo que levou principalmente os jovens a adquirir o hábito da leitura.

Por esse motivo, Buzo justifica que trabalhar esses livros em escolas públicas poderia influenciar a leitura:

“Os jovens das escolas da periferia hoje estão a milhão, eles têm internet, tem tudo para desviar a atenção deles. Se o professor empurrar um Dom Casmurro, ele provavelmente vai pegar um trauma de literatura, agora se ele começa com uma linguagem que ele compreende, uma linguagem que se comunique diretamente com ele, provavelmente pegará gosto pela leitura. Depois disso, pode largar, ele vai chegar nos clássicos por conta própria, por isso eu acho que tinha que ter algo fácil antes. A escola, na intenção de incentivar, acaba afastando um pouco o jovem da literatura”, defende.

Sarau

Sérgio Vaz: fundador da Cooperifa (sarau literário que acontece há mais de 20 anos)

O sarau é o local onde ocorre a propagação de todo esse conteúdo, abrindo espaço para os moradores e pessoas comuns compartilharem seus versos ou recitarem suas poesias.

A maioria é organizada pelas próprias pessoas do bairro ao qual pertencem. Lá não existe distinção ou qualquer tipo de descriminação, basta chegar e registrar seu nome caso queira participar:

“Não existe nada mais democrático do que isso, o sarau se popularizou, aumentou o interesse e isso faz os livros circularem e as pessoas se verem. O sarau é um ótimo veículo para propagar a literatura nos quatro cantos”, afirma Buzo, também organizador do Sarau Suburbano Convicto.

O sarau funciona como um evento totalmente independente de qualquer apoio governamental, em que os frequentadores promovem a própria cultura e “fazem acontecer”, em contraste com a violência e a criminalidade que há anos predominam nos bairros.

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