Cinema

“O Agente Secreto” se perde em um emaranhado de referências, mas dá seu jeitinho de fazer um bom filme

Kleber Mendonça Filho faz o mesmo que Melville — uma das pedras fundadoras da Nouvelle Vague — que tinha uma capacidade imensa de capturar o cotidiano, mesmo em meio a um thriller de perseguição policial

Existe um Brasil antes e depois da ditadura, assim como existiu um Brasil antes e depois da colonização, que nesse caso nem sequer chamava Brasil ainda, mas negar essas duas premissas bases é como destituir a memória de toda uma nação. Talvez nos últimos anos tenha surgido tantas obras que dialogam com o golpe militar de 1964 justamente porque parte de nós quer esquecer que isto foi uma ruptura sistemática de um país que começava a acreditar no bem-estar social.

Sobre o atual momento que o cinema brasileiro vive e as leis de incentivos que buscam dar subsídios para distribuição, produção e tempo de tela para filmes nacionais, Wagner Moura, ator principal de “O Agente Secreto“, em entrevistas recentes lembrou de uma comparação que um amigo comentou com ele: “não dá para explicar Lei Rouanet para quem ainda não assimilou a Lei Áurea, esta assinada em 1888, seguida logo depois pela Proclamação da República em 1889, cria paralelos interessantes, que o filme de Kleber Mendonça Filho também parece querer explorar. A Lei Rouanet é um, entre vários outros dispositivos públicos, que busca dar apoio financeiro para que a arte e a cultura brasileira possa permanecer e criar raízes independentes de outros agentes que sempre roubaram a nossa história e a nossa personalidade para soar um Brasil artificial e estereotipado.

Se a Lei Áurea deu independência e liberdade aos escravizados — que bem sabemos também estava envolvida uma série de fatores para que isto pudesse acontecer, como a pressão inglesa, que precisava de mais mão de obra assalariada para fazer girar a roda do capital —, as leis de incentivo à cultura no Brasil são uma busca de identidade, liberdade e independência, nem que para isso seja necessário recorrermos ao que Mário de Andrade chamou de antropofagia, em seu “manifesto antropofágico“, e que o diretor faz muito bem aqui ao comer das fontes do francês Jean-Pierre Melville, para depois regurgitar uma obra verdadeiramente nacional.

Trailer de O Agente Secreto

De Jean-Pierre Melville, Kleber Mendonça Filho parece comer as influências repaginadas do cinema noir e seus consequentes thriller de perseguição policial, e em meio de uma Recife que não para no carnaval nem para enterrar seus mortos, filma o cotidiano de uma cidade vibrante, colorida e quente, em que o frevo aparece muito como plano de fundo em meio a cenas de perseguição, suspense, e mistério, em que pessoas mudam de nome e buscam com ajuda de Sebastiana reproduzir o que Christian Dunker, psicanalista brasileiro, chamou de lógica de condomínio — de acordo com ele essa lógica é caracterizada por muros que servem como uma estrutura de defesa, criando uma realidade, em que o outro não existe, e que permite ali a passividade harmônica — só que com a chegada de Marcelo, que na verdade se chama Armando, toda a estrutura de defesa montada por Sebastiana e seus aliados (refugiados), começa ruir.

Armando, que é diretor de departamento de pesquisas de uma universidade federal, vai para Pernambuco tentando escapar de uma confusão e acaba se envolvendo em uma trama de espionagem e perseguição muito mais ampla, que escalona nos tempos de choque da ditadura militar brasileira, já na década de 70.

Recife se torna então o plano de fundo narrativo de uma cidade personificada que está constantemente vigiando, prendendo, punindo, matando, seja por meio da metáfora da “perna cabeluda“, — recurso alegórico que faz referência ao cinema trash e soa desproporcional para a trama e o peso simbólico e violento que ela faz alusão, de quando jornalistas precisavam usar de outros recursos, para driblar a censura e poder falar da violência sistêmica — seja por meio dos matadores de aluguel que são escórias para o próprio exército brasileiro, e enxerga os outros como bicho, ou ainda pela própria figura do delegado da Polícia Civil de Recife, Euclides que personifica também em si a própria lei dos tempos de chumbo e corrupção da ditadura.

Wagner moura chupando laranja
Foto de divulgação O Agente Secreto

Uma trama de thriller de assassino que age por pirraça e que tem contatos com o alto escalão do governo militar acaba sendo levada para um condomínio em que a filha de um importante político está colhendo gravações e depoimentos que possam servir de material para alguma posterior investigação ou julgamento das ações praticadas pelos militares, o que, anos depois, ainda se mostra frágil e difícil de acontecer, mesmo com iniciativas como a Comissão da Verdade trazendo à tona dezenas de documentos, arquivos e provas dos atos hediondos praticados pelo regime.

Assim, o filme acerta muito ao compor uma trilha sonora (Tomaz Alves Souza e Mateus Alves) que busca retratar uma cidade que, apesar da ruptura institucional, ainda festeja, ainda dança, ainda vive, mas que ao mesmo tempo parece mirar em muita coisa. No emaranhado de referências e subtramas que vão se enrolando em outras maiores, “O Agente Secreto” se perde, e até pode ter gente que saia do cinema sem realmente entender quem era o tal agente.

Sebastiana, que vislumbra e tem esperança de um Brasil com menos pirraça para sua neta viver; Hans, um judeu que finge ser um ex-soldado que serviu na guerra pelo exército alemão; Elza, que é quem colhe os depoimentos; Alexandre, que trabalha no cinema, no qual o filho de Armando quer ver “Tubarão” de Steven Spielberg; alguns dos funcionários do instituto de identificação, que acaba se tornando uma delegacia, são personagens que podem dar pistas de quem pode vir a ser esse “agente”.

Spoilers adiante na leitura.

Wagner Moura segurando um jornal com olhar desconfiado
Cena do filme O Agente Secreto

A fotografia, que é composta por Evgenia Alexandrova e tem tom granulado, como um registro de memória em boa parte do filme, para no final fazer uma ponte de passagem para o presente, dá a pista que faltava para o quebra-cabeça ser montado, e, com recortes abruptos, que até chegou a ter um vislumbre durante o filme, somos transportados para o presente.

No entanto parece que Kleber Mendonça Filho improvisa o final com o famoso jeitinho brasileiro, e o verdadeiro protagonista como vemos a partir da fotografia parece ser mesmo a memória, esta que resiste ao tempo graças a pesquisadores como Flávia, que teve acesso a todas as fitas e arquivos que décadas antes Elza gravava.

O filme funciona muito bem em muitos aspectos, mas se queremos discutir o esquecimento coletivo do nosso país mediante a barbárie, “Eu Ainda Estou Aqui” funciona muito melhor.

Filme visto durante a 49* Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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