Literatura

Toda a destruição será punida: “Solenoide”, de Mircea Cărtărescu

Em "Solenóide", Cărtărescu trabalha o antirromance à luz da implosão do gênero narrativo como se conhece. Mesclando inventividade aos lugares-comuns e quase ecfrásticos da Romênia, o autor transgride todas as normas — da literatura e fora dela.

Solenoide” (Editora Mundaréu, primeira edição de 2024), de Mircea Cărtărescu, autor romeno traduzido no Brasil por Fernando Klabin, é descrito, em primeiro plano, como a destruição da literatura como se conhece; em vez de transitar pelas portas fechadas da ficção, que se aproximam da ideia de um museu — estático e impossível —, a obra busca amalgamar à vida cotidiana o (des)prazer da escrita. 

Dividido em quatro partes e 51 capítulos, acompanha-se a história do professor não nomeado do ensino público romeno. À narrativa mesclam-se elementos fantásticos fundados, principalmente, na mística científica. O solenóide, que dá nome ao livro, é uma criação que, dentro da poética do autor, seria responsável pelas estranhas movimentações que acontecem na sua casa. Em meio ao sexo com a esposa, volteado de lembranças da sua infância e solitária adolescência, ambos se veriam embalados no ar — justamente pelo poder do solenóide. 

O esoterismo de Cărtărescu tem suas bases ainda anteriores à presença do espaço físico. Toda a narrativa e seu fio condutor são baseados nos sonhos e nos acontecimentos cotidianos, enclausurados dentro de diários e papéis avulsos que fornecem à obra o seu esqueleto. Devorar sonhos e dias, transcrevendo-os copiosamente, é o motivo-guia desse livro que destaca alguns episódios vividos, como em uma autobiografia fantástica, para defender o mote da não literatura. 

Mircea Cărtărescu, autor de “Solenóide” e “Nostalgia”, ambas publicadas no Brasil pela Mundaréu

A presença da cidade ecoa pelas páginas, que se negam a deixar transparecer mais do que aquilo que se vê e se escuta. Tudo, em um primeiro momento, é exatamente o que se sente — como se, para impedir que as portas se fechassem, Mircea houvesse se esquecido de construir batentes e guarnições; melhor: como se houvesse esquecido de colocar as portas dentro desse cubo inacessível dentro do qual habita. O leitor — externo a tudo isso — é jogado de um lado para o outro, à espera de uma atmosfera, que, por sorte ou primazia literária, rapidamente se constrói.  

Não há, realmente, o que se diga literatura; o -anti que prefixa todos os seus trabalhos é sinônimo de uma abertura para a impossibilidade narrativa: é essencialmente difícil de se seguir, nessa obra, uma lógica argumentativa ou narrativa. Os eventos vêm, vão e se evanescem no ar — como a vida. 

Cărtărescu, em um dos episódios mais marcantes do livro, traz às páginas um trecho de seu poema “A queda”, lido em um sarau literário em outubro de 77. A recepção do poema de mais de trinta páginas lido em uma hora de silêncio aberrante foi, para o duplo do autor, arrebatadora: as críticas e pior, o enfado dos ouvintes, fez com que ele imaginasse não ter futuro na carreira literária. Exatamente por isso, imagino, se constroem as ideias ao redor da anti-literatura e da destruição desse museu de portas fechadas. Caso tivesse, como ele mesmo imagina, livros com seu nome na capa (e não fosse professor do ensino público romeno), talvez sua história fosse diferente.  

Fosse diferente, no entanto, a história, teríamos perdido essa que é uma grande inspiração às perigosas incursões pela literatura; principalmente porque elas, antevê Mircea aos que ainda não o sabem, podem não dar em nada. 

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