Cinema

“Kokuho”: a ambição destruidora no representante do Japão no Oscar

Kokuho

Prestes a ser lançado nos cinemas do Brasil no dia 5 de março por uma parceria inédita entre a Sato Company e a Imovision,Kokuho é o representante japonês no Oscar de 2026, e explora o custo pessoal da arte através do personagem Kikuo (interpretado por Soya Kurokawa quando criança, e por Ryo Yoshizawa quando adulto), acompanhando-o da adolescência à velhice, em um drama muitíssimo bem construído que coloca o protagonista em uma relação de constante tensão com a arte, aqueles que o cercam e ele próprio. 

O diretor Lee Sang-il é mais conhecido por seus filmes “Hula Girls” (2006) e “Unforgiven” (2013), um remake do filme de Clint Eastwood. Seu mais novo filme, “Kokuho”, tornou-se um fenômeno no Japão, arrecadando cerca de $130 milhões nos primeiros 8 meses de cartaz. Neste longa de quase três horas, Lee se aprofunda no drama existencial entre a vida que busca expressar-se e a arte que, levada às últimas circunstâncias, acaba por consumir a própria vida. O subtítulo, o “preço da perfeição”, dá o tom da narrativa. 

O campo de exploração de Lee em “Kokuho” é o papel de onnagatas, atores masculinos que interpretavam papéis femininos, devido à proibição de que mulheres atuassem nos kabukis. Com roteiro de Satoko Okudera, Kokuho é a terceira adaptação de Lee a partir de romances do autor Shuichi Yoshida (Vilão, de 2010, e Fúria, de 2016). 

Cena do filme "Kohuko" (Foto: Divulgação)
Cena do filme “Kohuko” (Foto: Divulgação)

A trama se inicia com a morte do pai de Kikuo (interpretado por Soya Kurokawa, quando criança), um líder da yakuza. O jovem presencia tudo. Tempos depois, ele se muda para Osaka, onde é acolhido por Hanjiro Hanai (Ken Watanabe), conhecido por ser o melhor ator de kabuki da cidade e um dos principais nomes do Japão.

Lá, desenvolve amizade e rivalidade com Shunsuke (Ryûsei Yokohama), herdeiro de Hanjiro Hanai, que, sendo treinado desde criança na arte do kabuki, parece se esforçar menos e não se importar tanto com o ideal de perfeição que Kikuo passa a desejar; este chega até mesmo a agradecer às punições físicas infligidas pelo mestre. O trio formado por Hanjiro, seu filho — o herdeiro — e Kikuo, o órfão adotado, sustenta o núcleo dramático do filme.

Kokuho também passa ao largo de muitos coming of age. Neste, o protagonista não é um jovem esmagado pelo mundo, mas um ser humano cada vez mais ambicioso pela perfeição, e que — por causa disso — passa a esmagar e a esmagar-se. O espectador é chamado, muitas vezes, a estar no papel de defensor e de acusador de Kikuo, e Lee Sang-il consegue impor aos seus personagens aquela grande dificuldade do bom artista: uma suprema e real humanidade, colocando no mesmo personagem atributos de anjo e de demônio, tornando Kikuo um personagem humano e honesto.

As três horas de filme cobrem 50 anos de história e se mantêm interessantes ao longo de toda a trama, especialmente por causa do caráter complexo do protagonista, numa atuação impecável de Ryo Yoshizawa. Parte da dificultosa relação entre Kikuo e o kabuki vem do fato de que esta constitui uma arte muito ligada às árvores genealógicas, e Kikuo precisa encontrar seu lugar de destaque frente à figura do herdeiro de Hanjiro Hanai, utilizando-se de talento e estratégias questionáveis. Em momento marcante, Kikuo chega até mesmo a confessar para sua filha que estava conversando com o Diabo, e não com Deus.

Há ainda a performance memorável de alguns outros personagens, como o Mangiku (Min Tanaka), um dos artistas de kabuki mais velhos do país, e que, em seu leito de morte, não havia nada a oferecer além de sua própria arte, ou a então namorada de Kikuo, Harue (Mitsuki Takahata), que em determinado momento da trama percebe, num kabuki, que não seria capaz de competir com a gana artística do ator. Também Hanjiro se mostra um personagem complexo, e que parece carregar um peso insuportável de suas decisões, como fica evidente em alguns momentos da narrativa. 

Kokuho é uma palavra japonesa que significa “tesouro nacional”, expressão repetida algumas vezes no longa e utilizada para se referir a grandes artistas do país. A tradição do kabuki é apresentada de maneira marcante pela cinematografia da película. As mudanças ocorridas no século XX alteram não só o background, como influenciam no próprio kabuki, colocando em conflito a arte do século XVII com o poderio financeiro concentrado do Japão pós-guerra, que define o presente e o futuro da arte.

Cena do filme “Kohuko” (Foto: Divulgação)

O trabalho conjunto de Sofian El Fani (cinematógrafo), Yohei Taneda (diretor de arte) e Kumiko Ogawa (diretora de vestimentas) faz com que, em muitos momentos, o espectador se encontre deslumbrado. As imagens captadas nas cenas dos teatros, durante as apresentações de kabuki, são um espetáculo à parte e valeriam a pena assistir por si só. Da beleza da maquiagem ao cenário, passando pelas roupas, as tatuagens e as falas dos atores de kabuki, tudo chama a atenção e carrega um peso imagético do filme, que coloca em contraposição o homem Kikuo, aparentemente perdido, e o artista, um mestre na sua arte, como se colocasse em tela a imprevisibilidade da vida em contraste com a precisão dos scripts.

O diretor quis que os saltos no tempo fossem acompanhados das peças do kabuki, onde um pouco do drama e da tragédia das histórias e das encenações chegam à tela e parecem se misturar, em atmosfera, com a história de Kikuo. Um aspecto que pode não agradar a todos que assistirão ao filme nas telas é a escolha por envelhecer os personagens através de maquiagem, o que na última etapa do filme pode ter parecido exagerado devido aos quase 50 anos de diferença. 

Se “Hamnet” (2025, dir. Chloé Zhao), outro indicado ao Oscar, dá ênfase sobretudo ao drama familiar perante o sacrifício que William Shakespeare fez, de si e daqueles que o cercavam, em busca da perfeição artística, Kokuho” escava a alma e as contradições do artista diante de sua própria arte, como em determinado momento em que, em meio às luzes apagadas do teatro, escuta-se uma profusão de palmas, e o espectador é como que levado a sentir um pouco do vazio daquelas congratulações da plateia — Lee parece brincar, desta forma, com o conceito de grandeza. 

Um traço importante da trama é que os caminhos de Kiuko e Shunsuke não são nada previsíveis, e as reviravoltas que acontecem, principalmente na segunda parte do longa, fazem com que, por tudo o que foi dito aqui — e por tudo que não podia ser dito — “Kokuho” não possa passar despercebido pelo público brasileiro.

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