Literatura

Pernoite pago com paciência: “Noitada”, de Reinaldo Moraes, e a experimentação incompleta

O livro: noite única de domingo, dentro de um táxi, saídos de um bar, vão os três. Une-se a isso São Paulo, ironia e erotismo. Uma proposta mais que interessante.

Lançado pela Todavia, “Noitada“, de Reinaldo Moraes, chegou às livrarias em 2026. Uma única noite, três pessoas, São Paulo, ironia e erotismo. A proposta é mais que interessante. Seguiria, assim sendo, a dada medida (inversamente proporcional) entre a quantidade de artefatos que uma obra literária mobiliza e sua factual qualidade estética. Entretanto, não é assim que acontece. Com folga, seu “Pornopopeia” aceita um lugar muito mais louvável na literatura brasileira contemporânea. Páginas que, se não escritas com maestria, mostram a que vieram; o caso é diferente nesse lançamento: personagens já conhecidas, ritmo por demais batido (é São Paulo!, dirão os defensores mais inafiançáveis da obra) e — para piorar — o espaço diminuto de um carro e depois de um apartamento, constrangendo a picardia das personagens que não tem para onde crescer.

Mina e Kabeto são uma variação daquelas outras Zeca e Sossô de “Pornopopeia”; se aquele é Ulisses, esse talvez se tente Marcel (“Recherche”), romance citado nas primeiras páginas de “Noitada”, rememorando, com a ajuda da amiga quase ex-namorada e do taxista, fenômenos passageiros e passados em sua vida. Piadas de tio e brincadeiras sem coragem com o malufismo-nordestino do motorista que os guia pelo centro de São Paulo tecem a cama sobre a qual o romance se deita; romance sobre romance sobre romance: mise em abyme infinito que, se colocado de alguma outra forma, talvez desse bom fundo à criação literária que aqui se propõe.

Dentro do possível brilhantismo estético formulado pelo livro, pouco completo a meu ver (uma fagulha de inovação que falha em acender qualquer fogueira), talvez valha destacar o trabalho binocular feito com as vozes narrativas: ora Kabeto é narrado na terceira pessoa, ora fala de si mesmo na primeira, aproximando-se, principalmente, quando quer dar lugar a alguma característica física de Mina…, porque seus olhos ainda são seus olhos e ninguém sentirá tanto quanto esse narrador personagem tão afoito às mulheres. Entretanto, isso ainda é muito embrionário. Mais válido ainda seria apropriar-se de uma forma narrativa e descer até seu abismo de fato, destroçando-a por dentro, já que, como indica Schwarz (“A sereia e o desconfiado“, 2026), o romance de acontecimentos não existe mais.

Por outro lado, a criação tosca de vocábulos e entidades semânticas, que encontrara certo equilíbrio em “Pornopopeia”, aqui se perde de vez. As figuras de linguagem — ótimas, quando não repetidas à exaustão — não conseguem galgar espaço frente aos diálogos sempre em busca de um tensionamento teatral. Para escrever pouco mais de 500 páginas sobre uma única noite de domingo (madrugada de segunda) — entre carro e apartamento em Higienópolis (locus amoenus, ao que me parece, do autor) — deve-se levar em conta, imagino, os não acontecimentos que compõem, mais do que nunca, a narrativa.

É paradoxal o que Moraes tenta empreender: se por um lado, na narrativa, não há acontecimento nenhum e tudo corre como uma noite de domingo, sem nenhuma explosão, por outro, as conversas estão a todo momento tentando fazer acontecer, tensionar, multiplicar focos e pontos de vista; seria muito bonito, se fosse possível. Melhor ainda, se o autor o conseguisse fazer. Para uma noite que se propõe tão longa, está ausente o silêncio daqueles que dormem.

Escrever sobre drogas ou sexo já não é, há tempos, novidade. Diferencia-se o livro que sabe usar de seu espaço poético de forma sensível e diferente, como bem o sabia Moraes. Aqui, o tema é repisado sem a força da profundidade estética de outrora; mais do mesmo, pior que o mesmo de sempre. Mina, a prototípica mulher-drogada-de-fim-de-semana se envolve com Kabeto, o ex-drogado-de-todos-os-dias, que tem um prazo a cumprir para seu trabalho: dessa vez, seu segundo livro (o autor dentro do romance), transcrição completa e inalterada, como ele se refere, de um caderno achado em uma caçamba de lixo, que toma como seu. A distância dentro da qual os personagens se embarreiram, falando do jeito tosco que ninguém mais fala e tentando, a todo custo, se afastar do “neopuritanismo” dos tempos atuais, faz com que essa noitada se torne um ótimo passatempo: divertida, mas passageira.

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