Música

Shaboozey une rap, country e faroeste em “The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales”

“The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales” – Shaboozey

Lançado em 31 de julho de 2026, “The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales” é o quarto disco do cantor e rapper Shaboozey. Seu trabalho anterior foi “Where I’ve Been, Isn’t Where I’m Going: The Complete Edition” (2025), que continha hits como “A Bar Song (Tipsy)” e “Let It Burn”.

O artista conquistou a atenção do público mainstream após sua participação na faixa “SPAGHETTII” de “Cowboy Carter” (2024), disco da Beyoncé, e o prestígio de sua carreira segue aumentando desde então. “Good News”, uma de suas músicas mais conhecidas, toca cotidianamente até nas rádios brasileiras. Shaboozey já foi indicado 8 vezes para o Grammy e, em fevereiro de 2026, venceu o prêmio Best Country Duo/Group Performance pela música “Amen”.

O novo disco do cantor norte-americano tem 20 músicas no total e participações de artistas como Gunna, Kehlani, Leon Bridges e Orville Peck.

Shaboozey (Foto: Charley Gallay/Getty Images)
Shaboozey (Foto: Charley Gallay/Getty Images)

The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales” é um projeto autoral por definição. Ele é uma construção de um universo próprio de seu autor — suas referências e seus gostos.

A primeira faixa é um interlúdio narrado pelo ator Jamie Foxx (que já trabalhou com grandes nomes do rap, como Kanye West e Twista). Ele parece estar em cima de um cavalo, como o seu personagem em “Django Livre” (2012), e dá uma pista do teor da história contada neste projeto: uma narrativa de vingança — um plot comum a filmes de faroeste.

Todo o disco, como o título diz, é como uma compilação de histórias de um bom longa-metragem de western. A presença de atores consagrados, como o próprio Fox e outros como Sam Elliot (veterano sempre associado a produções de faroeste, como o filme “Tombstone” de 92 e mais recentemente a série “1883” de Taylor Sheridan, mesmo criador de Yellowstone) e Teyana Taylor, também ajuda a reforçar a estética cinematográfica do projeto.

A imagética do universo do faroeste sempre esteve presente no trabalho de Shaboozey — tanto nas capas dos seus discos anteriores (um exemplo claro é “Cowboys Live Forever, Outlaws Never Die“, álbum de 2022) como nos seus videoclipes mais recentes, que integram este projeto: “Lone Survivor”, “Cowgirl” e “High Noon”.

Após esta introdução na voz de Jamie Foxx, Shaboozey entrega duas faixas que parecem hinos ao personagem que ele encarna em todo o projeto e também funcionam como singles para a rádio: “Til Sunday” e “High Noon”.

A capa de "The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales", quarto disco de Shaboozey
A capa de “The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales”, quarto disco de Shaboozey

Antes da voz de Shaboozey surgir, “Til Sunday” começa com o grito de alguém alertando contra a chegada de outlaws [fora da lei, bandidos]. A música é como uma celebração desse estilo de vida, do confronto com a lei e as consequências: “Caught me red-handed, can’t go to Kansas/ Face on a wanted poster, ladies say he’s handsome“. Em mais um aceno ao cinema, rola até uma referência ao John Wayne, provavelmente o cowboy mais famoso de Hollywood, que interpretou desde mocinhos até vilões em sua longa carreira: “I feel like I’m John Wayne/ I’ma have to rob a bank to recoup the advances”.

“High Noon”, a faixa seguinte, é uma grande mistura de rap e country. A voz e o flow do Shaboozey têm uma pegada diferente aqui, e a participação do rapper Gunna também traz esse elemento a mais. A influência do hip-hop é uma constante na carreira de Shaboozey, mas parece um pouco escanteada nesse projeto, com exceção desta faixa. O título da música é o mesmo de um clássico do cinema americano, um faroeste de 1952 que foi traduzido para “Matar ou Morrer“, dirigido por Fred Zinnemann e estrelado pelo gigante Gary Cooper. Nada é por acaso neste projeto.

Em sequência, várias músicas sensacionais em sequência: “Sweet Revenge”, “If I Was An Outlaw”, “Cowgirl”. Todas são nomeadas como filmes de faroeste e soam como uma trilha sonora deste gênero cinematográfico tão importante para o cinema norte-americano e mundial. “Sweet Revenge” e “Cowgirl” são duas histórias contadas sob a perspectiva de uma mulher, a Cherie Lee do título do projeto, que está em busca de uma vingança pessoal — tropos recorrentes em filmes de western spaghetti (corrente revisionista do faroeste feita por cineastas italianos). Vale a pena assistir ao clipe dessa música, que é bem cinematográfico. O vídeo é dirigido pelo próprio Shaboozey e a personagem de Cherie Lee é interpretada por Ciara Miller.

Depois delas, vem um respiro, com uma baladinha mais pop com participação de Leon Bridges: “Burn It Down”, um single mais palatável para as estações de rádio, que parece destoar um pouco em relação à identidade e à sonoridade do disco, mas uma música ok, que podia fazer sentido na setlist de uma versão “deluxe” do disco.

Da metade para a frente do projeto há uma queda de qualidade, mas ele volta a crescer a partir da faixa 14 e embala três grandes músicas em seguida, mais uma vez: “Lone Survivor”, “Bounty On My Head” e “Born To Die”. “Lone Survivor” é como uma grande homenagem à figura do cowboy, esse lobo solitário, lutando contra a lei e as adversidades. O refrão é um dos melhores do projeto. “Born To Die” é a música mais animada do disco e tem potencial para ser o single com mais sucesso deste trabalho. Ela tem um tom de celebração e um refrão bem viciante, que é acompanhado do som marcante do violino. O clipe é outro deleite visual.

Apesar de a última faixa do disco ser intitulada “The Epilogue“, a faixa “Coyote Point“, a penúltima, se assemelha mais a um epílogo, um encerramento do arco de um personagem principal. Há uma melancolia no seu instrumental e no tom de voz do refrão de Shaboozey, que imita o uivo de um coiote, animal com o qual ele se compara na letra.

Tanto a música country como o faroeste historicamente estão associados a um público norte-americano caucasiano, mas Shaboozey subverte totalmente essa ideia com seu projeto. Por meio de sua arte, ele mostra um profundo respeito pela tradição do western e da música country e elabora uma releitura em forma de homenagem a esses dois polos culturais tradicionais norte-americanos. O novo disco não é uma repetição formulaica do projeto anterior, como um artista genérico faria. “The Outlaw Cherie Lee & Other Western Tales” tira sua força da sua coesão e não apenas dos seus singles. A experiência de ouvir o disco inteiro é recompensadora e ele funciona melhor na íntegra do que de forma isolada.

Torne-se um apoiador da Pista no apoia.se clicando aqui. Você também pode apoiar o nosso trabalho e o jornalismo cultural independente com qualquer valor via Pix para apistajornal@gmail.com.

Apoiadores:  Veridiana Almeida, Alex Vitor e Karen Marujo.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre A Pista Jornal

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo