Cinema

“Akira”: um clássico atemporal sobre luz, violência e progresso

Akira

Lançado em 1988 nos cinemas japoneses, “Akira” é um anime longa-metragem adaptado do mangá de nome homônimo (1982-1990), ambos criados pelo diretor Katsuhiro Otomo. Quase quarenta anos após seu lançamento, a animação segue atualíssima e nos fornece uma boa bússola para a contemporaneidade.

“Akira” foi um dos últimos filmes animados frame a frame de modo manual. Para que possamos entender a grandiosidade dessa empreitada, estamos falando de um longa-metragem com seus 140 minutos, em que todos os segundos do filme foram desenhados e animados à mão. Sendo que, para cada segundo de filme, são necessários 24 frames e, ainda que o filme tenha utilizado 8 ou 12 frames em algumas cenas, ao todo foram necessários mais ou menos 160 mil células ilustradas.

Para que isso fosse possível, “Akira” contou com 60 ilustradores que, ao longo de apenas três anos, realizaram a ilustração e coloração dos 160 mil frames. Nessa mesma linha dos aspectos técnicos, para dar vida ao mundo de “Akira”, foram utilizadas 327 cores diferentes, sendo o maior desafio a ilustração de cenas noturnas, em que a preocupação era manter os detalhes visíveis e transmitir o brilho de New Tokyo. Uma civilização embriagada pela luz.


Ilustração digital de cenas de Akira (1988), de Katsuhiro Otomo.

A luz parece guiar o filme em diversos aspectos, mas, no que tange à técnica, era imprescindível para o diretor transmitir o brilho da noite de New Tokyo. Isso se deve ao momento que o Japão estava vivendo: um período de profunda iluminação, com avanço tecnológico, crescimento econômico, estética futurista, sendo que as luzes neon em muito representavam isso. E, para que a ilustração do neon transmitisse a sensação de “acesa”, “brilhante”, foi utilizada uma técnica de sobreposição de células, na qual um frame tinha, em cima de si, algumas células sobrepostas, ilustradas e recoloridas em diferentes lugares, fazendo com que parte da imagem passasse o aspecto de “noite suja”, enquanto outra parecia brilhar.

Essa preocupação demasiada com a técnica empregada nessa animação tem tudo a ver com o que quero trabalhar nesse texto. Estamos falando de uma obra artística meticulosamente pensada desde os detalhes, mas que tem o cyberpunk como ponto de sustentação de sua narrativa.

O termo cyberpunk nasce no início dos anos 1980, sendo resultado da junção entre o cyber, oriundo da computação e tecnologia, em junção com punk, relativo à rebeldia e disrupção. Curiosamente, o termo apresenta-se muito relacionado ao conceito de distopia, termo resultante da junção de topos = lugar e dys = ruim. Sendo assim, “Akira” se passa em um “mau lugar”, que é amplo em tecnologia e marginal em organização.

“Akira” foi produzido durante um período de grande avanço tecnológico e econômico no Japão. Mas tais progressos não vieram sem custos. Nesse período, o país lidava com uma onda de gangues de jovens motoqueiros, majoritariamente formados pelos jovens que, seja pela exploração de seus corpos ou pela perda de parentes na Segunda Guerra, se encontravam sem amparo social, às margens do capitalismo e tomados por uma rebeldia notável.

No filme, acompanhamos Kaneda e seus jovens amigos punks (rebeldes) em uma trama de segredos e violência por parte do governo e militares de New Tokyo. Essas crianças ainda se encontram em período escolar e representam a proposta de ruptura com o passado. Na história, não é representado nenhum adulto de modo propositivo; todos são absolutamente autoritários, violentos e/ou negligentes. Do sistema escolar e policial, que não se privam de bater nos jovens, assim como a ausência do Estado enquanto proteção.

Kaneda representa os efeitos dessa violência e negligência de um governo e sociedade que não olharam por eles. Um jovem que, desprovido de família, fica à mercê do Estado, que não se responsabiliza por seu encaminhamento na vida, é mais um dos tantos jovens que, seja pela ausência real ou simbólica, não encontrou uma parentalidade possível. Isso aparece em outro personagem importante, Tetsuo, que, desde a mão do Estado, se torna um experimento científico, tendo seu corpo violado de inúmeros modos.

Nesse ponto, a ciência do filme parece levar ao radical do termo cyberpunk. Pois, em nome dos avanços científicos, toda e qualquer violência a alguém se torna justificável. Uma sociedade cega pela luz de um suposto grande futuro, enquanto aqueles que experienciam a época em si acabam se tornando apenas peças que movimentam o modelo exploratório. O que somente é possível com a junção do poder militar, mão amiga do Estado, pois, como nos ensinou Foucault, não apenas de leis se governa; é preciso que haja a força em momentos eventuais.

Os militares aqui são representados no extremo do que Freud pontuou em seu texto “Psicologia das massas e análise do eu”: pessoas convictas que se desresponsabilizam de seus atos ao passo que dizem estar cumprindo ordens. Mas que, como no modelo nazista, em determinado momento passam a intensificar sua violência em detrimento do “devido” cumprimento das regras, que, assim como os cientistas, é movido pelo ideário de um novo mundo brilhante.

Esse novo mundo brilhante é representado no filme desde um lugar muito conturbado, uma vez que as representações dos adultos são feitas desde esse lugar de extrema violência e uma crônica incapacidade de escutar, mesmo que minimamente, aquilo que os jovens estão protestando. Assim sendo, a construção deste novo mundo, advindo da luz, se constituiria sem a possibilidade de um passado desde onde esses jovens poderiam, então, se suportar e sustentar como base criativa e fundamental.

Outro eixo narrativo explorado pelo filme e igualmente abordado por Freud em seu texto “O futuro de uma ilusão” é o aspecto religioso e messiânico que advém, sobretudo, em momentos de grave instabilidade civilizatória. Durante o filme, nos é apresentado um grupo religioso que, com o retorno do grande Akira, se organiza a partir da figura de um líder espiritual, que podemos pensar como um profeta, aquele que anunciaria o retorno de “Cristo”.

Novamente, isso não está no filme por acaso; é a representação visual do que o diretor passava da própria sociedade daquele momento. Como dito antes, o Japão passava por um momento de grande efervescência econômica e profundo otimismo tecnológico, mas se encontrava com uma massa significativa de pessoas em crise social. Não por menos, inúmeros grupos religiosos e receitas se multiplicavam ao longo das décadas de 80 e 90. Talvez o mais famoso seja a seita de fim do mundo denominada Verdade Suprema (Aum Shinrikyo), que, em 1995, soltou gás sarin no metrô de Tóquio e feriu milhares de pessoas.

Até o momento, já vimos a saída da ciência, a saída do Estado e a saída da religião, mas o copo do vinho é justamente a impossibilidade de inscrição daqueles que não se identificam com nenhuma dessas três saídas. Uma temática bastante abordada em diversas obras contemporâneas é o desenvolvimento da masculinidade, ou de uma masculinidade possível e não ideal. Isso parece estar diretamente relacionado com a decisão de qual das três saídas cada um suportará e/ou como realizará o movimento punk enquanto uma ruptura disruptiva do sistema vigente.

Kaneda e Tetsuo mostram os diferentes tipos de masculinidade, enquanto Kaneda está, a todo momento, tentando proteger alguém, mesmo que eventualmente isso leve a alguma violência; Tetsuo tem a violência como sua principal saída e, quanto mais forte se torna, mais a destruição vai o tomando. De certo modo, essa também é uma história sobre a mudança da adolescência para a vida adulta, representada não apenas por quais caminhos seguir, mas pela própria mudança corporal. Tirando a camada fantástica, Tetsuo está em fase de mudança, está se tornando mais forte e menos vulnerável, um pouco do que se entende com o crescimento. Mas o que fazer com tanta nova potência?

Na trama, quanto mais Tetsuo vai mudando, mais busca por Akira, como se sua própria potência ainda não fosse o bastante. E talvez um dos grandes plots do filme seja quando esse encontra Akira dividido em pedaços, após passar por inúmeros experimentos na mão do exército. Mesmo o mais poderoso de todos padeceu diante do sistema vigente e foi reduzido aos seus restos, que não podem nem descansar em paz. Nisso, o filme encontra seu clímax: a partir da busca de poder de Tetsuo, parte da cidade novamente colapsa em pura luz.

Retomamos a temática das luzes, pois esta parece ser o eixo narrativo central. A primeira cena do filme é a explosão de uma bomba atômica que dá luz e faz uma cidade — uma nova Tóquio. A mesma luz aparece durante os experimentos científicos, as armas de campo, as armas do espaço, a noite neon, a fogueira que cuida dos jovens sem rumo ou mesmo o nascimento de Akira.

Akira é um personagem e a própria luz cósmica, que, em cada um de nós, pode ser tanto fonte de mudança quanto de completa destruição. “Akira” é um filme muito bom para que possamos pensar a atualidade do extremismo, da violência, das construções de muros, dos avanços tecnológicos, do desmantelamento das institucionalizações e do colapso climático. Afinal, em kanji, Akira significa luz.


Colagem digital de cenas de Akira (1988), de Katsuhiro Otomo. Imagens reunidas de diferentes fontes online.

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