Cinema

O que ver nos cinemas de São Paulo em novembro: #APistaIndica

Com indicações que desafiam o desejo e a norma, que chegam forte para a temporada de premiação, ou ainda para os fãs geek e de animação, veja nossa lista de filmes para novembro

São Paulo é atualmente cidade criativa do cinema e em meio a tantos festivais, mostras e estreias que muitas vezes acontece só aqui, vamos começar fazer uma lista mensal de filmes que nossa redação indica para você ver em tela grande e que certamente vale o preço do ingresso do cinema em menor ou maior grau. Inclusive interaja com nosso conteúdo, pode comentar, compartilhar e dizer se você gostou ou não dos filmes que indicamos.

Entre eles, alguns nossa redação poderá fazer textos críticos e mais longos que você poderá ter um aprofundamento maior sobre o título em questão, pois as vezes escolher um título é difícil, mas é mais difícil ainda querer conversar sobre uma obra e não ter com quem falar né? Bora criar comunidade, veja abaixo nossa lista de indicação para o mês de novembro e boa sessão, depois volta aqui e conta para nós o que achou.

I Want Your Sex

Após 12 anos sem lançar um longa-metragem Gregg Araki voltou aos cinemas no mês de outubro com “I Want Your Sex“. Agora nessa primeira metade do mês de novembro o filme continua em cartaz em cinemas selecionados e mantendo seu olhar provocador para a sexualidade e as relações, o consagrado diretor consegue entregar um thriller bastante erótico e desafiador para o tempos de hoje, onde o humor, o sarcasmo e a ironia aparecem em meio a uma perigosa, conflituosa e psicológica relação de trabalho.

Buscando ir na onda de “O convite“, a O2 Play, distribuidora de ambos os dois longas no Brasil, apresentou essa nova narrativa nos mesmos moldes de o quanto é necessário falarmos sobre sexo, relacionamentos amorosos e novas formas de desejar e se descobrir dentro da contemporaneidade, sem deixar de lado o humor, para isso a distribuidora apostou na participação de Olivia Wilde que no universo desse novo filme interpreta a renomada artista contemporânea Erika Tracy. Uma mulher que não conhece limites éticos e profissionais em nome da arte e de bancar o seu prestígio artístico; entre a sinceridade, o descompromisso e um certo ar narcísico e egoico, temos em cena uma Olivia menos deslumbrante, mas igualmente sedutora e provocativa.

Gregg que ficou amplamente conhecido como um dos principais difusores do chamado New Queer Cinema está aqui explorando os limites do sexo e das fantasias, buscando formas de romper com a norma e do que seria aceitável, o que torna toda a dinâmica e o roteiro bastante imprevisível. De acordo com o diretor ele queria explorar porque a geração Z, principalmente a que está fora da comunidade queer, tem tanto medo de se entregar para experiências sexuais e de explorar novas formas de se relacionar, se você não tem medo de se chocar com um filme colorido e fetichista, em que quase tudo vale, certamente a ida ao cinema também valerá.

Godzilla Minus Zero

O monstro Godzilla está intrinsicamente conectado com a cultura popular e folclórica do Japão, principalmente no pós-guerra. Esse novo filme amplia o universo de “Godzilla Minus One (2024)” que foi um sucesso estrondoso de crítica e público naquele ano, rendendo inclusive o Oscar de melhores efeitos especiais para a franquia. A nova história começa dois anos após o fim da primeira batalha que dizimou Tokyo e é o primeiro longa japonês filmado inteiramente em Imax, essa tecnologia permite ampliar a dimensão aterrorizante e as batalhas titânicas que ameaçam a vida cotidiana e comum que os japoneses pretendiam recuperar após a primeira aparição da criatura e é de se impressionar em como os efeitos especiais de computação são novamente trabalhados e rendenrizados.

A narrativa acompanha novamente a família Shikishima e seus traumas com relação a guerra, no entanto fica mais forte agora, trabalhado em um plano de fundo e metaforicamente, o contexto geopolítico da segunda guerra mundial, onde um cientista que teve sua família e cidade dizimada pela bomba atômica dos EUA pretende de alguma forma buscar vingança. Os fãs do gênero e da franquia também ficarão felizes e surpresos com um reencontro que é muito esperado e que faz parte da origem de tudo.

O contexto entre guerra, terror e trauma sempre apareceu na franquia e no audiovisual japonês de forma geral, mas Takashi Yamazaki, consegue entregar aqui um novo respiro para essa criatura que faz parte do imaginário Japonês. O filme tá em cartaz em diversas salas no cinema brasileiro, com um amplo circuito comercial que vale a pena dar uma olhada, porque tem possibilidade de sobra para encaixar na agenda, principalmente para quem é fã desse ícone da cultura pop. O filme também conta com algumas sessões em Imax, mas que serão disputadas por outros grandes títulos que aparecerão em breve, então corre.

Queremos o Oscar

Na nossa lista claro não poderia faltar os filmes que chegam agora no mês de novembro aos cinemas brasileiros e prometem fazer um certo barulho na temporada de premiação, mesmo que alguns deles não tenha força de chegar forte até o final da temporada que culmina no Oscar em março de 2027, são escolhas para vermos sua trajetória no circuito de festivais internacionais e sessões de apresentação para os membros votantes.

Feito Pipa

O representante brasileiro na corrida do Oscar de melhor filme internacional vem acumulando diversos prêmios pelos festivais internacionais que têm passado, incluindo o festival de Berlim, um dos quatro maiores festivais de cinema do mundo, onde ganhou dois prêmios. Em um ano em que o cinema com narrativas queer vem ganhando destaque é bastante interessante ver até onde a história de Gugu, um menino apaixonado por futebol, mas que ama também dançar, usar maquiagem, jóias e se expressar de maneira mais livre, pode chegar.

Com grandes atuações de Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos a obra surpreende pelo olhar delicado e afetivo sobre memória, luto e formas de amar, sejam elas amorosas ou não. Em tela a narrativa de um Brasil interiorano, em que uma comunidade vive em rede aparece em meio a subtramas que enriquecem ainda mais a narrativa principal.

Ali aparece o trauma causado pela construção de uma barragem, a relação de um pai que ama muito o seu filho, mas não necessariamente consegue entender sua sexualidade, o avanço de uma doença degenerativa em uma vó que parece ter ficado presa a memória de uma filha ausente, mesmo que ainda busque amar e se conectar com a vida, junto com a narrativa de um menino que quer ganhar o mundo, mas enfrenta bullying, homofobia e responsabilidades de lidar com tudo isso cedo de mais. É novamente a narrativa de uma criança que acredita no futuro e busca uma terceira saída em meio as binaridades arbitrárias do mundo.

Um filme queer em sua essência estética e narrativa, que vale muito a pena ser visto em tela grande pela sua ótima edição de som, trilha sonora, fotografia e efeitos de coloração final que dão um ar mais mágico e nostálgico ao filme. Aqui o dentro e o fora do enquadramento, da paisagem, da câmera, estão a serviço da narrativa e depois de dois anos como o nosso cinema sendo indicado certamente as expectativas são altas, mas este é um ano fortíssimo e as chances são poucas, vale a torcida, viva o cinema de Allan Deberton.

Eu sou o Rocky

Quem no mundo não conhece Sylvester Stallone? As histórias de superação e cinebiografias sempre conquistaram Hollywood e as expectativas estão altas para o filme que vai contar a origem de tudo. Em “Eu sou o Rocky” teremos acesso a como surgiu o maior lutador de boxe da história do cinema, o que fez Rocky Balboa se tornar um ícone pop e responsável por grandes feitos em um cinema que era bastante fechado para histórias vindas de fora do meio criativo do audiovisual. Uma narrativa bastante pessoal e ficcionalizada, mas que conversa diretamente com o período que Stallone lutou para que fosse o escolhido para interpretar o papel que ele mesmo escreveu.

Em entrevistas o autor afirmou que o roteiro partiu de sua vida pessoal e busca por redenção, onde a a solidão e a invisibilidade do mundo para consigo eram o motor em busca de uma nova possibilidade de amar a vida. Dirigido por Peter Farrelly, ganhador do Oscar por “Green Book (2018)”, o filme é sobre a persistência de quem acredita nos seus sonhos apesar de todas as adversidades que se possa encontrar no caminho. O longa chega aos cinemas do Brasil dia 19 de novembro e é cotado em diversas categorias em diferentes premiações da temporada.

Depois do sucesso de público e crítica no festival de Toronto, onde fez sua estreia mundial no mês passado, vale a pena a ficar de olho como ele vai reverberar mundo a fora, apesar de tentarem se manter isentos, os membros votantes da academia são altamente influenciados pela recepção do público, principalmente quando este é unânime e grita na mesma sintonia, dentro da luta de boxe que é ter um espaço entre os indicados, certamente Rocky Balboa saberá dar alguns bons golpes.

Animação leve, só que não

“Iron Boy“, “Toy Story 5“, “O Bosque Selvagem” certamente são três das animações que devem estar garantidas na categoria de melhor animação do Oscar de 2027. Mas se engana quem acredita que encontrará narrativas leves ao ir ao cinema com crianças e jovens para ver esses títulos. “Toy Story 5” que já teve um amplo lançamento comercial no meio do ano e é um sucesso de público e crítica estrondoso, mesmo sendo o quinto filme de uma franquia que já apresentava claros desgastes, ele consegue se atualizar e mostrar para uma nova geração de crianças a importância de brincar, onde a imaginação e a criatividade devem ser constantemente colocadas em prática. Um filme bastante necessário para tempos de tela e hiper-tecnologias no mundo infato-juvenil.

“Iron Boy” sem data de estreia prevista ainda no Brasil, chegará aos cinemas estadunidense em janeiro de 2027, tendo sessões qualificativas para o Oscar em dezembro. O filme ganhou dois prêmios importantes em Cannes este ano, na mostra um certo olhar, além de prêmios importantes no festival de Cinema de Animação de Annecy, um dos mais prestigiados do gênero no mundo, no Brasil ele passou pela 50 Edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde teve sessões esgotadas e bastante comentadas.

A narrativa se passa no interior da França, onde Christophe, de apenas 10 anos, cresce tentando conquistar a aprovação do pai. Entre desafios do amadurecimento, questões médicas e medos inerentes a uma criança, acompanhamos uma amizade transformadora se formar por meio da arte e da cultura. Uma animação sensível e delicada, que vale a pena ser vista assim que sair nos cinemas ou streamings brasileiros.

O Bosque Selvagem

Grandioso e espetacular é pouco enquanto adjetivo para falar sobre o novo filme do estúdio Laika. A animação é um marco histórico desse estúdio que é amado e admirado no mundo todo pelo seu trabalho e dedicação a preservação do legado da arte manual de Stop Motion, técnica conhecida pelo amplo trabalho artesão minucioso e delicado de seus artistas que buscam dar vida às suas criações de forma bastante pessoal e instigante e ainda que algumas pessoas possam achar que a narrativa infanto-juvenil possa soar um pouco sem alma, lembremos que toda uma nova geração de pessoas podem estar tendo contato com esses temas e formas de arte pela primeira vez na vida e a alma desse projeto está muito mais na forma e não no conteúdo.

Hoje é inconcebível para grande parte das pessoas dedicar 16 longos anos da sua vida para o desenvolvimento de um projeto, mas é o que Travis Knight fez a frente da direção de “O Bosque Selvagem“. Em entrevistas ele afirmou que foi apresentado ao livro original, em que se baseia o seu filme, em 2010 e desde então vinha trabalhando na produção do longa mantendo contatos frequentes com o escritor Colin Meloy e com a ilustradora Carson Ellis.

Esse trabalho coletivo mostra a dimensão artística da obra. Para uma animação como “O Bosque Selvagem” funcionar, foi necessário diversas criações, invenções e adaptações, sendo o projeto mais desafiador já empreendido pela Laika, onde cada pessoa da equipe era fundamental para manter o bom andamento do projeto que passou pelo meio de uma pandemia e diversos atrasos de tecnologia, mas que o resultado final emociona. O projeto começou a entrar em prática de forma mais concreta, com finalização do roteiro e montagem dos primeiros cenários, no fim de 2021, 11 anos depois do diretor ser apresentado e ter comprado os direitos de adaptação da obra.

Talvez seja justamente esse amor ao universo de “O Bosque Selvagem” e a arte stop-motion que fez esse essa animação funcionar tão bem, principalmente em sua qualidade técnica. A história acompanha Prue McKeel e Curtis Mehlberg em uma jornada de resgate, luto e amor, por um bosque encantado a dentro, onde diferentes reinados, facções de animais falantes e povos estão em guerra após uma tragédia que interfere em todo o ecossistema local. Lembrando as histórias de RPG e os contos de fada somos apresentados então a um mundo mágico, onde a verdadeira força vem da natureza dos afetos e da ecologia.

Em uma entrevista Travis Knight comentou: “o artesanato nunca é o ponto. O sentimento é o ponto. A técnica é apenas o modo como comunicamos algo íntimo e vivo. Não fazemos esses filmes para que as pessoas vejam o trabalho por trás deles. Fazemos para que, por um tempo, elas esqueçam completamente o trabalho e acreditem na vida diante delas.”

Pelo trailer da para ver que o que o diretor alcançou o que pretendia. Conseguimos por um momento esquecer que tem pessoas interagindo com todos esses bonecos, se questionando como tais cenas, cenários, interações, ou emoções no rosto dos personagens foram possíveis. Quando o filme acaba e os créditos sobe você se dá conta do peso emocional de uma obra que apresenta um universo todo novo para a nossa própria criança interior, e isso por si só já é bastante revolucionário. Que a Laika siga fazendo esses filmes, pois a cada novo lançamento vem se superando e acho que nessa altura não tem ninguém que consiga duvidar do que ela é capaz. Falta o Oscar de melhor animação, que seja o de 2027, no qual é ampla favorita.

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