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Silvestre: Natureza e Solidão como Personagens

Em seu mais recente trabalho, Wagner Willian mescla lirismo, misticismo e efemeridade
Silvestre (Darkside Books)

O escritor e artista visual brasileiro Wagner Willian, autor de Bulldogma e Martírio de Joana Dark Side — obras pelas quais foi vencedor do Troféu HQMIX em 2016 e 2018 — aposta em uma história epopeica permeada de símbolos e reflexões em seu mais novo grande trabalho lançado pela editora Darkside Books.

Em “Silvestre”, Wagner nos apresenta um personagem sem nome, já velho e assombrado pelo luto de sua falecida esposa. Nosso protagonista reside em uma pequena cabana isolada no meio da natureza, onde vivenciará uma estranha viagem onírica que o fará discutir assuntos a respeito da natureza humana, a passagem do tempo e a efemeridade da vida.

Em entrevista para A Pista, sondamos Wagner sobre a essência de sua obra, logo o autor afirmou:

“Um dos temas principais em Silvestre é a decadência física e solidão na velhice. O corpo pedindo trégua. Nada há mais humano do que compreender seus limites e se adaptar a eles. Fazer o velho tendo de se virar sozinho no meio do nada, foi uma forma de ressaltar a maior de todas as batalhas, quando tudo se resume a lutar contra você mesmo.”

Uma das páginas de Silvestre (Darkside Books)

Assim como dito pelo artista, nas primeiras páginas somos diretamente apresentados a este cenário de desolação e abandono sugeridos pela idade do personagem central. Nós o vemos em uma caçada infrutífera, sufocante e selvagem, que alude ao seu estado mental e físico: sua incapacidade é evidente, ela representa o homem tendo que resistir ao tempo e lutando internamente contra si e contrariando seu derradeiro fim.

Wagner nos apresenta a história inicial de uma forma magistral, que remete a ideia de um sketchbook: os quadros propositalmente assimétricos e soltos pelas páginas — característica já bastante conhecida do desenhista em obras anteriores — e os traços inacabados com rápidas e despretensiosas pinceladas.

Toda essa estética, mesclada ao lirismo que compõe cada passagem, nos auxilia a imergir na obra de uma forma impressionantemente catártica, captando toda condição proposta e fazendo a solidão do personagem se tornar cada vez mais palpável, opressiva e sufocante ao virar de cada página.

A essência e as inspirações

Arte para promoção de Silvestre.

Silvestre é uma obra que nasceu de uma ideia e que se desenvolveu de uma forma totalmente inesperada:

“Acredite se quiser, nasceu de um livro infantil de terror. A coisa foi se desenvolvendo, ganhando forma, extrapolando limites, e acabou virando aquela selvageria toda.”, afirma o artista.

Ao decorrer da leitura é notável ver a história ganhando corpo e um teor existencial, florescendo e tomando rumos próprios, dando espaço a símbolos e alusões envolvendo o folclore brasileiro e criaturas místicas.

“Acredito que a emoção é capaz de reescrever a realidade. Há em Silvestre diversos momentos simbólicos que estão ali para agir sobre a leitura de maneira mais subjetiva, movendo dispositivos emocionais, influenciando a forma como o leitor absorve a narrativa. Ou pelo menos tentando. Alguém disse uma vez que uma boa trilha sonora em um filme é aquela que não se ouve, tamanha a imersão do expectador. Tento buscar isso nos quadrinhos.”, explica o autor.

As inspirações visuais e criativas que Wagner utilizou para compor a obra são diversas e vão do cinema à literatura. Já de cara é inevitável não notar semelhanças com os filmes “Anticristo” (2009) de Lars Von Trier devido às representações; e “O Cavalo de Turim” (2011) de Belá Tarr devido ao conceito da velhice e do isolamento na obra — o filme húngaro tem como propósito a reconstrução da máxima do eterno retorno defendida pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Na literatura, o autor foi influenciado declaradamente porDersu Uzalade Vladimir Arseniev, pelos cadernos de anotações do pintor francês Eugène Delacroix e pelo livro “Walden ou A vida nos bosques” do filósofo americano Henry David Thoreau — o também poeta se auto impôs a uma espécie de isolamento devido ao seu descontentamento com a sociedade americana da época.

Ao ser questionado sobre seus próximos trabalhos, o desenhista nos deu alguns spoilers:

“Onça-me (HQ infantil sobre relacionamento abusivo), Todas as Pedras do Fundo do Rio (ganhou o ProAc Lab Expresso deste ano e em breve começo a mover as engrenagens), e mais dois quadrinhos em que participo apenas como desenhista com roteiros de dois grandes autores internacionais.”

Wagner Willian sempre tenta inovar e trazer uma singularidade em cada obra sua, é um dos autores nacionais de maior destaque, a profundidade e a complexidade presentes em suas obras só tendem a crescer com o tempo, então ainda temos muito que esperar pelo que vem pela frente.

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