Cinema

“Judas e o Messias Negro”: o racismo institucional nos EUA

Os renomados atores Lakeith Stanfield e Daniel Kaluuya são os destaques do novo filme dirigido por Shaka King

Pôster americano de “Judas e o Messias Negro”

Inspirado em fatos reais, “Judas e o Messias Negro” (2021) é o novo filme do cineasta norte-americano Shaka King. O longa-metragem chegou nesta quinta-feira (25/02) nas salas de cinemas do Brasil. O roteiro foi escrito pelo próprio King em parceria com Will Berson. A trama contrasta a história de dois homens em polos opostos na luta do movimento negro no final dos anos 60: Fred Hampton, líder do Partido dos Panteras Negras de Chicago, e William O’Neal, informante do FBI infiltrado na organização.

O título do trabalho faz referência a um relatório da COINTELPRO, programa de contra inteligência do FBI, escrito por seu chefe J. Edgar Hoover. No documento, é detalhado o objetivo de se neutralizar o possível surgimento de um Messias Negro, como os líderes Martin Luther King e Malcolm X poderiam ter sido, que uniria a população afro-americana e supostamente seria a maior ameaça ao establishment americano.

Apesar da linguagem bíblica do nome, a obra não pretende meramente divinizar Hampton e demonizar O’Neal. Há uma preocupação genuína do diretor em contextualizar estas figuras históricas para tentar entendê-las, não apenas reverenciá-las ou odiá-las cegamente.

Hampton, vivido pelo ator britânico Daniel Kaluuya (Corra!’, ‘Pantera Negra’, ‘Queen & Slim), exerce um fascínio sobre o público desde sua primeira cena. Ele aparece dando um discurso em uma faculdade com um público majoritariamente negro que, por sua pertinência e conteúdo, poderia se passar tranquilamente nos dias de hoje. O episódio ilustra como alguns aspectos da sociedade norte-americana não mudaram tanto assim.

O’Neal, interpretado por Lakeith Stanfield (Atlanta’, ‘Corra!’, ‘Jóias Brutas), oferece uma contrapartida à figura heroica de Fred. Sua atuação carrega diversas camadas de ambiguidade moral e contradições internas que forçam o espectador a se engajar de uma forma mais profunda com as escolhas do co-protagonista. William O’Neal aceitou espionar os Panteras em troca de não cumprir pena pela acusação de se passar por um agente do FBI.

Lakeith Stanfield (na frente) e Daniel Kaluuya (ao fundo) em cena de “Judas e o Messias Negro”

Judas e o Messias Negro” é um thriller político e dramático que hipnotiza a audiência do começo ao fim. O ritmo da montagem transmite um senso de urgência característico do ativismo da época. A trilha sonora também é crucial para ambientar o público naquele cenário de intensa efervescência cultural e política. A seleção de músicas foge das escolhas convencionais à um filme que se passa no período em questão.

Algumas das escolhas de Shaka King, porém, têm seu lado negativo. A mesma abordagem que faz o longa ser uma experiência intensa, também limita as potencialidades dramáticas de se explorar mais a fundo as histórias de seus personagens, principalmente a de Fred Hampton.

Hampton foi assassinado em sua própria casa aos 21 anos de idade. O crime foi testemunhado por Deborah Johnson , sua companheira de partido que também o auxiliava na redação de seus discursos. Ela estava prestes a dar a luz ao primeiro e único filho do casal, o futuro ativista político Fred Hampton Jr.

A execução de um dos principais líderes negros dos EUA foi levada a cabo pela polícia de Chicago em conluio com o próprio FBI e estreita colaboração do infiltrado William O’Neal. O maior inimigo desta história não é um indivíduo em particular, mas o racismo institucional que permeia o Estado americano e ainda deixa seus rastros na realidade atual.


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