O filme chileno “Os Colonos” estreou oficialmente em 2023 em Cannes e venceu o prêmio Un Certain Regard FIPRESCI do tradicional festival francês, além de ter sido o candidato chileno ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2024. A obra chegou aos cinemas brasileiros em 1º de fevereiro e posteriormente estará disponível no catálogo da Mubi.
“Os Colonos” é o primeiro filme do diretor chileno Felipe Gálvez, que também escreveu o roteiro em parceria com Antonia Girardi e Mariano Llinás. O longa é um faroeste revisionista, no sentido de que usa o gênero tradicional do faroeste – um dos primeiros gêneros cinematográficos da história e um dos mais importantes para o cinema norte-americano hegemônico – para contar a história do Chile, que também se assemelha a outros países da América Latina e a qualquer região com povos originários, como os próprios EUA.

Índios são dizimados mais uma vez como costuma acontecer em faroestes norte-americanos, mas dessa vez não há uma glorificação desses cowboys, eles são os verdadeiros selvagens desta história. A trama principal segue Alexander MacLennan (soldado inglês e líder do bando), Segundo Molina (chileno com sangue indígena e branco) e Bill (um cowboy norte-americano experiente) em sua missão para matar todos os índios que encontrarem pelo caminho. Um poderoso senhor de terras – um personagem que não conhecemos exatamente, mas conhecemos o tipo pois somos latino-americanos – os contrata para esse trabalho porque diz que os indígenas atrapalham o seu negócio. Esses contratados cumprem a missão à risca e sem remorso, com exceção de Segundo, o nativo chileno, que pouco fala durante a viagem e parece representar esse olhar impassivo e impotente do próprio espectador e dos chilenos pobres que tinham poucas opções de sobrevivência e trabalho em relação ao destino de seus semelhantes. Ele é chamado de “mestiço” pelos outros, é metade branco e metade indígena. Sua condição sempre é lembrada pelos estrangeiros que o acompanham.
Segundo fala pouco durante todo o longa, é recriminado pelos outros quando decide falar sem ser perguntado. Não sabemos muita coisa sobre seu passado. Ele era um trabalhador comum, mas foi recrutado para aquele trabalho por sua habilidade em atirar. Assim como a história oficial do Chile, ele parece ser deixado de lado pela direção. A escolha do diretor de não dar voz ao seu personagem remete à história oficial do Chile, que deixou de lado essas pessoas. É uma escolha estratégica e estilística do diretor estreante Felipe Gálvez que diminui o impacto que esta história poderia ter, pois ela acaba reproduzindo uma visão tradicional que não tem muito a dizer sobre esse outro modo de vida dos povos originários chilenos. Conhecemos mais do mesmo na narrativa, passamos muito tempo com cowboys assassinos brancos, suas mesquinharias, sua pequenez e seu sadismo. Os protagonistas brancos fazem a história enquanto os indígenas a sofrem. Por vezes isto parece até um silenciamento duplo – já que o saber indígena costuma ser transmitido por via oral mais do que tudo – e os indígenas na história não têm voz para se exprimir em quase nenhuma oportunidade – com exceção ao momento perto do final do longa. Há um silenciamento pela história oficial do Chile e um silenciamento via direção e roteiro em não confiar no potencial da história que tem nas mãos.
A violência em “Os Colonos” é incômoda como deveria ser. Se o faroeste norte-americano trata da mitologia da formação dos EUA, esse filme é uma desmistificação da história do Chile – e da América Latina em geral também, por isso pode ressoar forte no Brasil e nos nossos vizinhos mais do que em outros países. A proposta do longa dialoga também com outro faroeste revisionista recente, “Assassinos da Lua das Flores“, filme mais recente de Martin Scorsese, que retrata o genocídio do Povo Osage. Scorsese é um diretor muito mais experiente e não há comparação possível em relação ao impacto de cada obra, mas tematicamente parece haver um alinhamento. Ambos os filmes são obras de denúncia que dialogam com a história do cinema mundial e as imagens que ele criou no imaginário popular.
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