Literatura em Rap
Meu primeiro contato com o projeto Literatura em Rap foi em um evento realizado na Casa de Cultura Hip-Hop Sul em 2025, localizada na zona sul de São Paulo. Como o nome indica, a principal missão deles é mostrar a conexão do Rap [rhytm and poetry em inglês] com a literatura e compartilhar conhecimento e informação por meio da arte, cultura e educação. Um dos formatos utilizados para isto é criar um espetáculo musical/show que une rap, poesia e tecnologia para ressignificar a literatura brasileira e, desta forma, criar uma experiência imersiva que promova um diálogo entre gerações. Como eles definem, é uma viagem sonora pela poesia brasileira.
Outro jeito de fazer isto é por meio de palestras, como a que presenciei no ano passado. Este formato de evento faz parte do “LER”: um mergulho na cultura HIP-HOP por meio de livros. O público, na época, foi o de uma escola local. Esses rolês sempre têm um viés pedagógico e educativo, mas divertido e interativo com os espectadores. Naquele dia [em agosto de 2025], todos conheceram mais sobre os cinco elementos da cultura hip-hop, sendo apresentados pelo MC Fino Dflow. Ele mostrou uma edição da HQ “Ghetto Brothers” [que já resenhamos por aqui] a todos os presentes e explicou o contexto que permitiu a criação do movimento hip-hop.
A Pista conversou com os fundadores do projeto Literatura em Rap, que integra o coletivo Saraund System fundado em 2014. Seus integrantes principais são FINO DFLOW (MC e idealizador), MAK O MAESTRO (MC DOBRA e beatmaker), Tabata Mendes (produtora) e DJ ARMATESE. Confira abaixo a entrevista completa com Fino Dflow e Tabata Mendes. O papo foi sobre a conexão do rap com a literatura, indicações de leituras para entender o movimento hip-hop e a obra de Manuel Bandeira – que conta com um espetáculo em sua homenagem feito pelo Literatura em Rap. Boa leitura!

Entrevista com o Saraund System sobre o projeto Literatura em Rap
A PISTA: O Projeto Literatura em Rap é parte do Saraund System? Qual é a diferença entre os dois?
R: O Saraund System é o nome do coletivo. Um neologismo das palavras “Sarau” e “Sound System”, a ideia é brincar com o termo, brincar com a PALAVRA, amplificar a palavra. O Saraund System seria o ‘guarda-chuva’, o realizador dos projetos que tem como principais membros Fino e Tabata, mas que possui pessoas que contribuem, atravessam e participam.
O LITERATURA EM RAP (L.E.R) é o principal projeto do SARAUND SYSTEM, mas dentro dele(s) há outros projetos como oficinas, palestras, workshops.
A PISTA: Como surgiu essa conexão entre o rap e a literatura para vocês?
R: [FINO] Cara, desde muito jovem sou envolvido com a leitura, cresci numa família que é Testemunha de Jeová e durante a minha infância sempre tínhamos os encontros obrigatórios e estudos/leitura da Bíblia. Desde aí me interessava por livros, palavras e histórias, apesar de ser o garotinho questionador da turma e ter me afastado da religião logo na adolescência. Mas daí eu troquei a Bíblia por livros, quadrinhos e pelo RAP. A música, a letra, a ideologia da cultura HIP-HOP, saber que RAP significa RITMO&POESIA sempre me levou a querer consumir POESIA, LITERATURA e leitura.
Já era um leitor desde a infância e, quando conheci o RAP, conheci também as batalhas de rima, batalhas em que usamos as palavras e o conhecimento para elaborar frases e pensamentos, muitas vezes complexos. E, já que são um “jogo de palavras”, me debrucei sobre os livros para melhorar minha composição e vocabulário e encontrei um vasto acervo de escritores, autores, poetas e exemplares que li, reli e [por meio deles] conheci meu poeta favorito, sobre o qual desenvolvi meu projeto em cima da obra dele [sic], o escritor Manuel Bandeira.
A PISTA: Quais leituras vocês indicam para quem quer conhecer mais sobre a história do movimento hip-hop?
R: Ah, poderia citar muitas, mas vamos citar as que estamos usando recentemente para compartilhar essa história, que foi uma história mesmo, de entendimento e de construção desse movimento.
Vou citar dois quadrinhos, que além de super maneiros de ler, têm desenhos muito legais e super fáceis de ler, são os “Ghetto Brothers”, que fala sobre as mazelas sociais e sobre essa “organização” que existia na periferia dado a esses fatores, inclusive de falta, de escassez, de estrutura, em que os moradores se organizam em tribos, ou “gangues”, para sobreviver e reagir, de alguma forma, até de maneira lúdica mesmo, uma vez que eram formadas principalmente por pessoas muito jovens e que têm um desfecho que se entende que a briga não [é] entre nós, entre as gangues do bairro. A nossa briga precisa ser contra [o] sistema, entender que eles querem nos matar e excluir, então que a gente combine entre nós de se manter vivos e atuantes.

Nessa sequência, vale ler logo depois do “Ghetto Brothers”, o livro HQ “HIP-HOP GENEALOGIA VOL I”, que se desenrola a partir do desfecho de paz que existiu ali na história do Ghetto Brothers, quando as “gangues” se tornaram “crews” e as batalhas pararam de ser entre nós, pararam de ser batalhas de violência e passaram a ser batalhas artísticas, de rima, de dança, e assim inicia o “movimento HIP-HOP”.
E, por último, um livro de fotos (iconográfico) que conta um pouco de como começou, como chegou e quem são os precursores do movimento no Brasil. Livro muito legal, com fotos, nomes, referências com recorte brasileiro, que é o “Cultura de Rua”.
A PISTA: O escritor Manuel Bandeira é sempre lembrado nas apresentações do Literatura em Rap. Como a escrita dele se relaciona com o rap?
R: [FINO] O escritor Manuel Bandeira, que viveu 82 anos, passou por algumas fases da literatura brasileira, e foi evoluindo e aceitando as diferentes gerações que vinham e propunham novos fazeres artísticos, novas escritas, novos modelos de fazer arte. Em 1922, com 36 anos (velho pra época, risos), ele foi um dos escritores que teve sua base ali no parnasianismo/lirismo que resolveu aceitar e ampliar as ideias da vanguarda artística (que sim, bebeu da Europa) mas vinham com reivindicações de nacionalismo, de falares, e saberes e produções daqui, do Brasil, principalmente nas artes plásticas e na literatura. Manuel, como professor de literatura e poeta que já publicava poemas e textos, apoiou essa produção fortemente, produzindo textos simples, com falas e gírias do cotidiano, aproximando a literatura da “rua”, do “povo”, do “banal” e usando isso como afronta e crítica a quem achava que “só podia se escrever/fazer arte de um jeito “certo” “acadêmico”.
E também, os poemas de Manuel Bandeira têm rimas, ritmo colocado, que ajuda a incorporar a métrica em um “beat”. Aí, decidi unir o útil ao agradável, melhorar minha composição e ainda cantar de fato poesia.
A PISTA: Para quem nunca foi a um rolê do Saraund System/ Literatura em Rap, vocês poderiam nos contar como funciona uma apresentação de vocês?
R: Pode esperar muito conteúdo. Informação. Incentivo. É um local de troca, de inspiração, de experimentação, de educação. O LER é um espetáculo, uma apresentação sonora-literária que une poesia e ritmo, música e informação. Não é só um “show de rap”, é um show de educação.
Confira as redes sociais do Saraund System e do Literatura em Rap neste link.
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