Cinema

“A Única Saída”: Com tom tragicômico, Park Chan-wook retrata a desumanização cotidiana do capitalismo

Novo filme do diretor de "Oldboy" usa toque autoral para mergulhar no mal-estar contemporâneo

“A Única Saída”, o novo filme de Park Chan-wook


O começo de “A Única Saída” (2025), novo filme do diretor sul-coreano Park Chan-wook, mostra o que parece ser uma celebração de uma família coreana privilegiada. Eles estão fazendo um churrasco no quintal de sua luxuosa casa, que é povoada por imensas e coloridas árvores. As cores da fotografia são quentes, tudo é chamativo e explicitamente artificial, principalmente a tonalidade do céu. Sem querer entregar muita coisa do final, é interessante prestar atenção na diferença do céu e da vegetação no encerramento do longa.

Depois dessa cena inicial de uma felicidade maquiada que lembra algo onírico, Man-su (o personagem principal vivido por Lee Byung-hun, mais conhecido por seu papel em “Round 6“) é informado de sua demissão de uma empresa norte-americana de fabricação de papel. Ele dedicou grande parte da sua vida àquele serviço, mas isso não lhe valeu nada quando a companhia precisou fazer cortes no orçamento.


A partir daí, o filme flerta com aquele terreno conhecido de realismo e crítica social tradicional, simplesmente mostrando a degradação da condição material e mental a que o trabalhador é submetido quando perde seu emprego. O longa segue neste ritmo por um tempo, mas se torna algo diferente e marcante pela mão e a sensibilidade de seu diretor. O uso de seu senso de humor peculiar e de tom absurdo para explorar dramaticamente a situação do protagonista de uma forma criativa entra em cena. Com este fim em mente, o cineasta utiliza a montagem e a trilha sonora para tirar o espectador de seu lugar-comum e cria uma atmosfera única com lógicas próprias – como um sonho ou um pesadelo. A obra se torna então um exercício autoral do cineasta para expor o mal-estar contemporâneo do trabalhador sobre o capitalismo, usando a comédia e as ferramentas do cinema para isto.


O personagem interpretado por Lee quer voltar a trabalhar na sua área, mas não consegue reencontrar seu espaço. Sua família precisa fazer ajustes no seu estilo de vida: a esposa precisa voltar a trabalhar, eles precisam cancelar o Netflix – para desespero dos filhos e o riso das pessoas presentes na minha sessão. A solução do protagonista para sair deste buraco é encarnar como lema a máxima capitalista de eliminar a concorrência. Para encontrar o seu emprego dos “sonhos”, ele decide rastrear todos os outros candidatos concorrentes ao seu trabalho para assassiná-los a sangue frio. É curioso como todos também estão sofrendo por não trabalharem naquilo que passaram grande parte da sua vida. A atmosfera da narrativa mostra que não é apenas uma crise material que estas figuras estão vivendo. Esses ex-funcionários da indústria do papel não estão passando necessidade ou fome, mas vivem uma miséria existencial e um esvaziamento de sentido em relação às suas vidas.

Foto promocional do filme "A Única Saída" (Foto: Divulgação/NEON)
Foto promocional do filme “A Única Saída” (Foto: Divulgação/NEON)


Inicialmente, este plano diabólico tem um aspecto cômico. Man-su stalkeia e estuda os movimentos de suas vítimas antes de pensar em agir. Neste processo, ele observa os próprios dilemas nos outros. Todos também estão com problemas no casamento, com baixa autoestima, mal-adaptados à sua situação. É como se suas potenciais vítimas fossem seus duplos/doppelgangers. Ele os confronta, dá conselhos, se apropria de suas desculpas para lidar com sua própria situação. Já que ele não consegue mudar sua condição atual e não quer recriminar a si mesmo, recrimina o outro. Não quer ou não pode perceber a projeção involuntária. Esta parte do filme é um terreno fértil para pensar sobre aspectos mais filosóficos, e até psicanalíticos, da obra e da condição humana. Essas sequências também são algumas das mais engraçadas da história.

Em grande parte da filmografia de Chan-wook (“Oldboy”, “A Criada”, “Lady Vingança”), a violência costuma ser bem estilizada e exagerada, mas ela adquire outros tons neste novo longa – tanto pelo absurdo do contexto criado, quanto pelo ritmo da montagem nestas cenas. Quando a violência irrompe na tela, ela tem um tom tragicômico, mas depois ela começa a descambar para algo mais mórbido, digno de um filme de terror moderno. Apesar de clichê, também é inevitável não pensar em “Parasita” de Bong Joon-ho, há possíveis paralelos entre os dois: a competição incessante por sobrevivência e a violência necessária para a manutenção do status quo são elementos em comum. Tem algo diferente no cinema coreano que vale a pena ser melhor observado por nós.


A única saída” é uma sátira mordaz e nada sutil de uma sociedade em decomposição – que precisa desumanizar o trabalhador para continuar existindo. A única saída contemplada para alguns – como o protagonista do longa – é se tornar parte da engrenagem. Muitas pessoas já chegaram a essa conclusão sem auxílio do cineasta coreano. Seu grande mérito é usar o exagero para expor a situação a que todos estamos submetidos. O diretor utiliza o tragicômico para retratar a condição absurda da existência moderna, o nosso mal-estar contemporâneo. Será que existe algo mais absurdo que a realidade que vivemos atualmente? O humor potencializa o drama da história e não nos anestesia para ele. Muitas vezes nos pegamos rindo de nervoso com o que a câmera filma e talvez seja essa saída a que o título do longa se refere.

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