Música

Conheça o rock instrumental da banda sEVORANE – Entrevista

Power trio paulistano afirma o vigor do rock instrumental autoral

Conheça a banda sEVORANE

A banda sEVORANE foi criada em 2025 por músicos veteranos da cena de São Paulo-SP. O grupo formado por três pessoas é composto por André Vilela (guitarra/lap steel), Carlos Pellegrini (baixo) e Alcides Ribeiro (bateria). O foco do projeto é na música instrumental autoral e orgânica, e um exemplo disto é o primeiro lançamento do power trio: o disco autoral “ANAMNESE” (2025).

Com uma formação de power trio (guitarra, baixo e bateria), o grupo explora sonoridades densas e introspectivas. A performance é marcada por texturas processadas via pedais de efeito e intervenções pontuais de lap steel guitar, criando uma atmosfera cinematográfica que transita entre o peso e o etéreo.

Os membros são ex-integrantes da banda Numismata. Eles lançaram dois discos pela gravadora Tratore. Os projetos contaram com participações de grandes nomes da música brasileira, como Luiz Melodia,  Jards Macalé, Maria Alcina, entre outros.

A banda sEVORANE
Os integrantes da banda sEVORANE

No palco, o trio utiliza a formação clássica somada a um vasto vocabulário de efeitos, em que a guitarra conduz a narrativa principal e o lap steel surge para adicionar camadas sombrias e espaciais. O SEVORANE propõe uma experiência sensorial imersiva, reafirmando a força do rock instrumental autoral paulistano por meio de composições que prezam pelo clima e pela densidade.

O sEVORANE tem dois shows marcados em maio: um no Palco Arteculando (festival de artes integradas com entrada gratuita) no primeiro dia do mês na Casa de Cultura Hip-Hop Sul (localizada na zona sul de São Paulo) a partir das 14h e outro no TonTon Jazz Club no dia 5 às 20h30.

A Pista conversou com os integrantes da banda sEVORANE sobre o nome do grupo, suas referências musicais e o seu processo criativo. Leia a entrevista completa abaixo.

Entrevista com a banda sEVORANE

A PISTA JORNAL: Como surgiu a banda sEVORANE?

Tito (Alcides Ribeiro): O Carlão H, baixista, já tinha tocado com o André e comigo. A vontade de fazer um projeto novo, autoral, o fez unir os parceiros das antigas bandas. Logo no primeiro ensaio, sem nenhuma pretensão, o entrosamento musical do trio ficou evidente. Foram 2 músicas criadas nesse dia. E não parou mais.

Carlos H.: Nós já nos conhecíamos de projetos anteriores e estávamos meio parados; eu procurando algo que fosse realmente um modo de expressão artística, sem ser algo que fizesse parte de alguma cena específica, ou pré-rotulada. O power trio instrumental autoral nos deu essa liberdade. O nome vem de um anestésico o qual minha esposa é alérgica. Achamos que combinaria com a proposta, algo que te anestesia e causa reação. Além de ter uma sonoridade atraente e sombria ao mesmo tempo, que casa com o estilo da banda.

A PISTA JORNAL: Qual é a história por trás do nome da banda e por que vocês escrevem a letra inicial em minúscula?

Tito (Alcides Ribeiro): Foi uma ideia para a estética, para apresentar a banda. Foi ideia do H, sempre mais atento a esse aspecto.

Carlos H.: É um modo de representar o caos, o mundo acelerado em que vivemos, em que a urgência pela entrega e pela alta performance, nos faz viver a vida de modo acelerado e automático. Então, o “esquecer” o CapsLock ativo representa esse mundo moderno. E acaba sendo o modo errado de escrever, fora da convenção.

A PISTA JORNAL: Quais são as principais referências musicais da banda e de cada integrante individualmente?

Tito (Alcides Ribeiro): Inúmeras. Acho que a ideia sempre foi trazer elementos diferentes para as músicas. O H e André são enciclopédias! Eu sou mais focado nos clássicos do Rock e Jazz.

André: Depois de quarenta anos tocando e ouvindo música, essa é uma resposta difícil de dar. Eu acho que ouço de quase tudo… erudito, samba, jazz, eletrônico, rock… Mas acho que atualmente o que mais me influencia como instrumentista são músicos que buscam desenvolver sua marca, sua própria linguagem no instrumento, como Robert Fripp, Miles Davis, mas não no sentido de querer tocar como eles, mas também achar a minha assinatura.

Carlos H.: As influências são diversas. Eu, por exemplo, toquei em bandas de punk, eletrônico, samba… Tinha um projeto de karaokê ao vivo com um cardápio de 120 músicas. Muitas vezes as referências não são necessariamente bandas, músicos, estilos. Vêm de vivências, traumas, viagens. Muitas vezes, criamos um tema, e a música acaba ficando completamente diferente da ideia original, porque percebemos que, às vezes, não somos nós que tocamos a música, e sim ela que pede para ser tocada de tal jeito.

A PISTA JORNAL: Lançado em 2025, “aNAMNESE” foi o primeiro álbum do grupo. Qual foi o conceito por trás deste disco e como foi o processo de gravação dele?

Tito (Alcides Ribeiro): Foram as primeiras músicas criadas pela banda. A ideia central foi unir harmonias, timbres, ritmos e tempos não usuais, de forma a criar um aspecto inovador, ousado, mas sem parecer arrogante.

O processo de gravação foi desafiador. A facilidade que se tem nos dias de hoje para gravar em casa, sem depender de um estúdio profissional, proporcionou a gravação do álbum. Todos tinham algum conhecimento, em graus diferentes, sobre gravação. Mas foi a primeira vez que gravamos sem nenhum auxílio. O processo de mixagem e masterização foi conduzido pelo André.

Carlos H.: O conceito foi explorar emoções, que muitas vezes nos dias atuais são “tratadas” para que o cidadão se encaixe na padronização social do mundo moderno. Não somente no álbum, mas na banda em si, a expressão dos sentimentos diversos, que podem ser perturbadores, muitas vezes, trouxe a maior parte do que podemos chamar de conceito. O processo de gravação foi feito por nós mesmos, de modo totalmente independente, fazendo primeiramente gravações dos ensaios, ou das ideias independentes, para depois de concluir um repertório coeso, apertar o REC de verdade, alternando as gravações no home studio do Tito e as mixagens e masterização no home studio do André.

 A PISTA JORNAL: A sonoridade da banda mistura rock com música instrumental, dois gêneros distintos e que não costumam estar em alta no mercado atual. Qual é a relação de vocês com estes dois estilos e por que esta escolha?

Tito (Alcides Ribeiro): Do ponto de vista de identidade musical, rock e música instrumental são gêneros apreciados pelos três integrantes. O fato de não ter vozes nas músicas foi natural. Desde o primeiro ensaio, a proposta foi buscar a sonoridade do trio. Isso abriu espaço para que os instrumentos ficassem mais evidentes.

Quanto ao mercado tradicional, certamente não é o foco da banda. Buscamos nosso espaço com uma estética não usual. E o que seria da música sem criatividade e experimentação?

André: De minha parte, posso dizer que gosto tanto de ouvir música instrumental quanto canções e, na verdade, não tenho uma predileção pelo rock como gênero preferido… mas ultimamente tem me interessado muito mais explorar a música instrumental, como forma de crescimento mesmo, e também porque é onde me sinto mais à vontade pra desenvolver minhas ideias musicais. Quanto ao fato de ser primordialmente mais rock, essa foi a proposta da banda, acho que porque abre maiores possibilidades de misturar os elementos estranhos, principalmente as sonoridades e timbres em que estamos interessados nesse momento.

Carlos H.: Foi algo que aconteceu naturalmente. A arte pode surgir de diversas formas, e esse formato de Power Trio Instrumental Autoral deu uma liberdade de experimentar o que em outros projetos não seria possível, pensando mais na textura, ambientação, exaltação e introspecção. Algo para ser sentido, não necessariamente entendido.

A PISTA JORNAL: O que os integrantes da sEVORANE têm escutado atualmente? Recomendem discos de artistas que vocês não param de ouvir.

Tito (Alcides Ribeiro): aNAMNESE!

André: Cara, acho que vou recomendar o aNAMNESE também (risos). Mas, fora isso, uma das coisas que me chamou a atenção nos últimos anos foi o berbere rock, que a galera chama de também de blues do deserto, feito por bandas de países do norte da África e África Ocidental, misturando os ritmos e percussão de lá com umas guitarras muito, mas muito boas mesmo. Uma banda que eu gosto muito é o Tamikrest, do Mali.

Carlos H.: Eu estou numa fase que não tenho um disco ou artista que não sai da minha playlist. Na verdade, raramente ouço música por distração ou lazer. Quando pego algo para ouvir, é quase que um estudo de caso. Então varia muito conforme o que vai chegando pra mim e desperta meu interesse. Mas tem uns colegas com projetos bacanas e inusitados, como o Elephant Run, que é uma “Swedish Brazilian band”, e o duo Meta Golova, formado pelo Carlos Issa (Brasil) e Lena Kilina (Sibéria). Acho que essas fusões culturais quebram padrões e modismos, busca uma inovação.

A PISTA JORNAL: Quais são os planos da banda para o futuro? Vocês têm algum lançamento planejado para 2026?

Carlos H.: Nosso processo de criação não tem um planejamento. As coisas vão acontecendo conforme as inspirações surgem e vamos experimentando, vendo o que funciona e o que não. Como temos músicas com climas bem diferentes, optamos de lançar o álbum na íntegra do aNAMNESE no YouTube, porque pra gente faz mais sentido ouvi-lo na sequência do que as músicas separadas. Sendo assim, estamos com onze músicas novas e algumas ideias de como organizar esse material, muito provavelmente em dois EPs ou um álbum único. Queremos lançar um single, mas é muito difícil escolher apenas uma música de trabalho, pois nossa sonoridade é bem diversa. Mas há planos para um videoclipe (ou mais que um…), mas isso será surpresa.


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