Cinema

“O Olhar Misterioso do Flamingo”: a metáfora do olhar que julga e acolhe

Melodrama chileno aborda estigma de conviver com HIV no início dos anos 80



A pandemia da AIDS nos anos 80 e 90 é um marco histórico, um trauma coletivo ainda em aberto na comunidade queer. Na época, jornais noticiaram a doença como “o câncer gay”, estigmatizando todo um grupo e politizando uma questão de saúde pública, enquanto milhares de pessoas morriam com algo que até então era uma sentença de morte. Ainda hoje o cinema queer retrata essa época na tentativa de elaborar a perda de toda uma geração de pessoas LGBT, que ainda lidam com o estigma da doença, dificuldades de acesso a serviços de saúde, incertezas, medo e ansiedade sobre o próprio corpo e a sexualidade.

Vencedor do prêmio Un Certain Regard, no Festival de Cannes, “O Olhar Misterioso do Flamingo” (2025), de Diego Céspedes, aborda de maneira quase surreal o ano de 1982, antes mesmo de os primeiros casos de HIV serem notificados no Chile.

Numa cidade de mineradores isolada no deserto, e habitada em sua maioria por homens, circula um rumor sobre uma peste transmitida ao se olhar para pessoas dissidentes de gênero, em clara referência à AIDS, mesmo que ela nunca seja mencionada no filme. O principal alvo dessa superstição é a casa Alaska, cantina onde mora uma família de pessoas trans e travestis, entre elas Flamingo, mãe adotiva de Lydia, criança que acompanhamos por toda a história. 

Flamingo já está adoecendo, e o avanço da epidemia é iminente, provocando um temor geral, mas a rotina da família mantém uma certa normalidade, até o momento da chegada de um ex-parceiro de Flamingo.

O filme é uma mistura de realismo fantástico, faroeste e coming of age, abordando Lydia ainda jovem, tentando entender a violência dos homens com as travestis e por que eles têm tanto medo de olhar para elas e se apaixonar, e como elas, após tantas agressões, conciliam o desejo de ser amadas com a necessidade de se proteger para sobreviver. A impunidade total de crimes transfóbicos e a busca por justiça integram uma parte essencial do desenvolvimento da história.

Mesmo que o amor seja visto na cidade como algo perigoso, vemos o outro lado desse sentimento: o olhar de afeto que existe entre elas, o amor pela comunidade que mantém pessoas marginalizadas vivas e abre possibilidades para viverem experiências que até então pareciam impossíveis.

Mesmo trabalhando temas difíceis, o filme não é pesado e consegue arrancar risadas em muitos momentos, sem comprometer em nada a seriedade da trama, trazendo momentos de respiro e conforto entre cenas mais densas.

O longa me remeteu à série Pose, que também acompanha uma família queer nos anos 80 e 90, no auge da pandemia do HIV. Outra referência que sinto são os filmes de Almodóvar no uso das cores em várias cenas, em especial nas que se passam dentro da cantina. Independentemente disso, “O Olhar Misterioso do Flamingoé muito único e já tem cara de filme clássico.

O filme tem direção de fotografia e arte tão exuberantes quanto a atuação do elenco. A estética western aparece nos movimentos de câmera bruscos, nos enquadramentos contemplativos e nas cenas de ação, como as brigas na cantina que nos evocam duelos em saloons, ou nas cenas da Lydia na estrada ou em pequenas missões solitárias e cheias de suspense. 

Tudo isso misturado com elementos melodramáticos, que complementam e subvertem um pouco o estilo, como a escolha do formato 3:4, muito usado em novelas, e que força as personagens a ficarem mais próximas em quadro, reforçando o intimismo.

Uma escolha visual interessante são os grãos que dão uma vibe de filme em película; tudo parece áspero, seco e hostil como a história retratada no deserto. A luz é dura, quase estoura, tudo é dessaturado, exceto o céu vibrante que as personagens quase nunca tocam, separadas dele pelas montanhas, mostrando que estão isoladas e presas àquela realidade. Já o interior da casa Alaska é onde os grãos se amenizam, a luz é suave, nostálgica, acolhedora, como casa de vó, e as cores se tornam mais saturadas conforme a vida parece mais possível para as moradoras. 

Achei ótimo como o roteiro decide não reforçar estigmas sobre ser soropositivo. As personagens têm uma leveza que mostra que é possível ter uma vida plena e significativa, se relacionar e sonhar, mesmo convivendo com HIV. Mesmo com um final agridoce pelo contexto da época, quando não havia tratamento, a última cena não mostra um desfecho trágico para essas personagens, mas sim celebra a vida das que ficam e a memória das que se foram

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