“O Drama” (2026), filme dirigido pelo norueguês Kristoffer Borgli, apresenta o casal Emma e Charlie, interpretados por Zendaya e Robert Pattinson, vivendo a semana que antecede o dia do casamento.
A princípio, é um momento que, apesar da tensão natural, envolve a expectativa de selar o compromisso com o amor de sua vida para a eternidade…
Como o próprio título do filme diz, os acontecimentos levam a um drama que abraça o ridículo, fazendo do constrangimento uma ferramenta para rirmos de nossas próprias vulnerabilidades.
Mas a história vai muito além disso. Desde o início, somos obrigados a pensar sobre nossas escolhas morais, que, de forma simples, são decisões que tomamos baseadas no nosso senso de “certo” e “errado”.

Logo, quando somos apresentados a Emma, nada nos faz desconfiar de seu passado obscuro, revelado de forma seca em um jantar entre amigos. Nessa ocasião, ela e Charlie são desafiados, por um casal de amigos, a contar a pior coisa que já fizeram na vida. Em um movimento espelhado, acabamos refletindo sobre nós mesmos: qual foi a pior coisa que você já fez?
Quando Emma revela o seu segredo, um misto de emoções surge em Charlie, mas o que mais martela em sua mente é o questionamento: por quê? Por que ela faria algo do tipo? Na realidade, embora Emma não tenha executado o plano macabro planejado em seus tempos de ensino médio, ela o arquitetou de forma minuciosa — uma situação que poderia facilmente ter se tornado uma tragédia noticiada em jornais, somando-se às tristes e crescentes estatísticas de violência que assombram as escolas, especialmente as americanas.
Os motivos de Emma são destrinchados ao longo da história, mas, para Charlie, as explicações não parecem suficientes. Ele passa a questionar quem ela é de fato, pois, sob sua ótica, todas as crenças que sustentavam a imagem dela foram desacreditadas. Surge, então, o dilema: como confiar em alguém capaz de arquitetar ideias tão sórdidas, mesmo que tenham sido fruto de uma mente adolescente, há mais de uma década?
Além disso, somos levados — junto com Charlie — a questionar se o simples ato de conceber uma violência já é o suficiente para corromper o caráter de alguém. Afinal, o que de fato nos define como ‘pessoas ruins’? Seria a execução do mal ou a capacidade de arquitetá-lo? E, indo mais além: existe um prazo de validade para um erro moral, ou estamos condenados a ser, para sempre, a pior versão do nosso passado?
Emma tenta esclarecer a Charlie que atravessava um período sombrio na escola, marcado pelo bullying e por uma angústia que acabou por transbordar em pensamentos violentos. Para ela, o plano era o contato necessário com a materialidade de toda aquela raiva, já que não encontrava outro meio de direcioná-la. Embora hoje ela reconheça que tais pensamentos eram patológicos e absurdos, o fato de ter amadurecido e mudado de perspectiva parece não ser suficiente para Charlie. Para ele, a lucidez do presente não anula a gravidade daquela intenção do passado.
O ápice do drama é alcançado no dia do casamento, quando paira no ar a questão que assombra o casal: casar ou não? Mais do que isso, resta o desafio de fingir naturalidade diante de tantas camadas: a fachada do casal perfeito diante dos convidados, o peso do segredo compartilhado no jantar e a dúvida sufocante sobre quem é, de fato, a pessoa que está ao seu lado no altar.
Dessa forma, “O Drama” vai muito além de uma comédia romântica tradicional. Embora apresente momentos cômicos e gire em torno dos dilemas de um casal jovem e, aparentemente, comum, a obra atravessa a questão da moralidade de forma seca, chocante e, por vezes, hostil. Ao final, eu mesma me vi imersa em questionamentos: será que eu teria a mesma reação de Charlie? O que eu faria se estivesse na pele de Emma?
Resta, por fim, o questionamento sobre a postura de Charlie: por que ele não consegue seguir em frente e por que insiste em tornar as coisas ainda mais difíceis? Seria o peso do segredo de Emma o verdadeiro problema, ou será que Charlie está apenas buscando um pretexto moral para fugir do compromisso do casamento?
O filme, que foi produzido pela A24, ainda não tem previsão para estreia em streamings, mas está disponível nos cinemas.
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