Lançado na França em 2016, “História da violência” foi o segundo livro escrito pelo francês Édouard Louis. A Pista recebeu uma cópia da edição brasileira de 2026, publicada pela Editora Todavia, que foi traduzida por Marília Scalzo.
O primeiro romance do escritor nascido em 1992 foi “O Fim de Eddy“, resenhado recentemente no site. Na história, que se passa majoritariamente durante a sua infância, ele ainda se chamava “Eddy Bellegueule” e procurava escapar da realidade materialmente e subjetivamente sufocante em que nasceu.
De certa forma, “O fim de Eddy” também poderia ser chamado de “História da violência”. O nome Eddy, que Édouard mudou depois, foi como uma violência simbólica imposta a ele. Além disso, ele sofreu com a violência física durante grande parte da sua infância. Era comum ele apanhar dos seus colegas de escola apenas por seu jeito diferente de ser. Tudo isso foi documentado pelo próprio Louis, mas a violência no livro que acaba de chegar ao Brasil é de uma proporção bem distinta e incomparável em todos os sentidos.
Como todos os livros de Édouard, “A História da violência” é mais um capítulo da autobiografia que compõe a sua obra literária. Louis reconstrói um episódio marcante de sua vida: o estupro e a tentativa de homicídio que sofreu na sua casa em uma noite de Natal em 2012.

Após uma noite de celebrações com seus melhores amigos Geoffroy de Lagasnerie (para quem o livro é dedicado) e Didier Eribon — ambos escritores —, Édouard é abordado por um homem chamado Reda enquanto se dirige a sua residência. Conversa vai, conversa vem, o flerte avança e eles vão juntos para a casa de Édouard. O que parecia uma história de amor vira uma noite de terror após Louis descobrir que Reda roubou seu celular (e mais coisas que ele vai descobrir posteriormente). O choque de mundos distintos se torna mais evidente a partir daí. Na verdade, desde a primeira interação na rua, dava para perceber como cada um era diferente. De fato, a origem do autor é a classe operária, mas, por meio dos seus estudos e seu trabalho, ele se tornou um “trânsfuga de classe” — expressão usada pela sua compatriota Annie Ernaux e que ele também já usou em entrevistas.
O livro perde um pouco de força quando vai falar desse embate de classes. Louis também praticou pequenos furtos quando era menor e, por isso, diz não condenar a ação do homem de roubar alguém com mais posses que ele. Esta parte tem um tom bem condescendente e um viés “sociologizante”, bem raso e pobre esteticamente. A sociologia é um campo de estudo recorrente na escrita de Louis; várias referências suas são desta área — como seu amigo Didier Eribon, a quem ele dedicou o primeiro livro. Apesar disto, ele ainda patina quando tenta argumentar por esses caminhos.
Reda é filho de um imigrante, uma pessoa de origem cabília, região da Argélia. Ele contou quase toda sua história de vida para Louis, enquanto eles estavam juntos na cama, bem antes da tragédia do fim da noite. Essa parte é uma das melhores do livro. Louis é melhor quando fala dos outros do que quando fala de si mesmo. Seus livros seguintes também falam sempre dos mesmos personagens (a maioria são seus familiares), então é interessante conhecer alguém diferente no seu universo literário. Uma parte da história do pai de Reda é contada pelo filho, mas outra é simplesmente imaginada pelo próprio Édouard.
Diferentemente de livros posteriores do autor, grande parte da narrativa em “História da violência” é conduzida por outro personagem — que não é Louis. O escritor reconstrói a fala de sua irmã Clara para contar este episódio. Ele conta a versão do acontecimento narrada por sua irmã para o marido. Louis contou o que aconteceu com ele para a irmã e ela está contando para o marido. Ele está passando um tempo na casa dela e acaba escutando a história enquanto está escondido atrás de uma porta.
“História da violência“, além de colocar um holofote na violência em si e suas ramificações, no ciclo eterno que a acompanha, do ramo individual ao sistêmico, também é uma investigação sobre a construção de identidades — seja a de Reda como agressor ou a de Louis como vítima. O fato de o livro ser narrado a partir de relatos de terceiros empreende um tipo de desconstrução da própria linguagem que não vi em outros livros posteriores do escritor francês. A violência que Édouard sofreu foi tão grande que ele buscou outra forma de lidar com a linguagem e a memória e, para isso, construiu algo diferente do que estamos acostumados com sua escrita.
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