O C6 é um banco digital que vem se consolidando como uma forte marca do mercado financeiro brasileiro. Apostando nas novas tecnologias e em jornada do cliente, ele entrou em uma área ainda pouco explorada no Brasil pelos bancos digitais, o setor de alta renda. Buscando criar experiências completas e mirando na memória afetiva, alinhadas com campanhas de marketing bastante assertivas, nasceu o C6 Fest.

Desde da primeira edição de 2023, o festival aposta em uma interessante e poderosa mescla entre o novo e o tradicional e assim como a própria identidade do banco, o C6 Fest busca reinterpretar a música para criar uma base de fãs e se colocar como um dos principais festivais de música do Brasil, e se por um lado outros festivais brasileiros parecem ter uma identidade de curadoria musical por gênero bem definida, essa não parece ser muito a preocupação aqui.
O trio de principais nomes do festival desse ano, não deixa dúvidas sobre isso, The XX que não vem ao Brasil desde da sua última passagem no Lolla de 2017 e que é um dos principais nomes da cena alternativa, mirando em gêneros como o pop e o rock, mas sem deixar de criar sua própria atmosférica imersiva e minimalista com muita experimentação, vem mostrando na atual turnê que acabou de começar que sabe se reinventar, após um show muito elogiado no Coachella, o trio formados por Romy Anna Madley Croft, Oliver David Sim e Jamie Smith, estão prestes a lançar um novo álbum e querem mostrar para as novas gerações que é sim possível se apaixonar por bandas que estão a anos na estrada.

Já a genialidade de Zach Condon e o Indie Folk existencialista de sua banda Beirut desembarca aqui no Brasil depois de 17 anos, era para a banda ter aparecido aqui outras vezes, é verdade, mas houveram cancelamentos de última hora. Zach que nasceu em Santa Fé, uma cidade pequena do Novo México, é um cidadão do mundo, mas também parece bastante avesso a grandes multidões ou sucesso midiático, ele já cancelou duas turnês que estavam com datas esgotadas na Europa e no Brasil alegando questões de saúde mental. Citando referências que passavam pelo Jazz, pela música dos Bálcãs, pelos filmes de Federico Fellini, a música dos funerais da Sicília, as fanfarras de rua, a música de circo, ou ainda a cena eletrônica e lírica da Europa, o artista parecia disposto a tudo para mostrar aos seus conterrâneos o mundo, e que era possível ultrapassar tanto suas barreiras simbólicas, como físicas,
Em 2006, lançou seu álbum de estreia, Gulag Orkestar. Uma viagem sonora que proporciona ao ouvinte uma sensação de passear vendado em uma máquina do tempo. Não se sabe se está pisando no México, no Oriente Médio ou em ruelas da França. Cada música fala sobre um lugar diferente, como Brandemburg, Bratislava, The Bunker ou Postcards From Italy. Inclusive o artista sabe Português, tá?! Bastante influenciado por David Byrne, referência absoluta de novos artistas da cena underground e outro artista sem fronteiras, que apostava na globalização da cultura e na troca de experiências para discos e músicas cada vez mais ricos de significados, Zach está lançando um novo álbum: “A Study of Losses” (2025), projeto que parece o mais ambicioso até agora e que quer mostrar por meio da música parte do que perdeu durante a vida, vale a pena escutar cada canção com a atenção e a imersão que o lirismo e a engenharia de som tão meticulosamente trabalhada merecem.
Fechando o trio de principais nomes desse impactante line-up ainda temos o lendário Robert Plant, depois da intensidade de ser a voz de uma das maiores bandas da história do rock: Led Zeppelin, o artista encontrou no projeto Saving Grace um espaço para respirar e para se reinventar. Ao lado de Suzi Dian, Robert faz um encontro de gerações quase hipnótico, revistando as raízes da música que o formou, o folk britânico, o gospel, o blues e o misticismo celta aparecem com uma profundidade emocional em que grandes clássicos e inéditas são interpretadas pela voz de quem sabe que marcou gerações e deixou seu nome escrito na história da música. A partir da simplicidade e da sonoridade de vozes que se completam, o projeto parece buscar um distanciamento da psicodelia e do rock rebelde e progressivo que fez Robert entrar para o hall da fama, no entanto sem deixar de lado o experimental e as referências a natureza e ao questionamento subjetivo que sempre esteve presente em sua trajetória musical.
Mirando atingir diferentes públicos, gostos e faixas etárias, a curadoria defende a ideia de uma grande diversidade, em que o jazz, o rock, o pop, o indie, dialogam e coexistem em diversos palcos com propostas experimentais variadas, isso reflete tanto na escolha de artistas da cena contemporânea, como em nomes consagrados da música, o que acaba por ocasionar um encontro de gerações tanto no palco, como na plateia, movimento este que parece muito benéfico para a música como um todo.
Se entre esses três headlines o festival já surpreende em conseguir trazer tanta diversidade cultural, a história não fica diferente entre outros nomes da curadoria como, por exemplo, Matt Berninger, vocalista do The National, que apresenta seu segundo disco solo, em que inquietações íntimas e confessionais de uma juventude que também sabe ser bastante irônica e esconde uma enorme vulnerabilidade se identifica facilmente.
Passando por Wolf Alice, em que um rock alternativo que bebe da influência de nomes da década de 70 e 80, sem se prender a nostalgias, consegue manter acessa uma mescla poderosa para atingir pessoas no mundo todo, o diálogo entre tradição e inovação é ao mesmo tempo reverente e ousado e seu mais recente álbum “The Clearing” (2025) é um atestado disso. AMAARAE por sua vez trás as raízes ancestrais de Gana junto a uma híbrida e instigante sonoridade que mistura R&B, dancehall, funk brasileiro e pop, chegando até o futurismo pop francês de Marylou Mayniel e seu projeto Oklou que cria atmosferas impressionantes em volta de estilos da música eletrônica, do R&B alternativo e de uma estética de aguçada sensibilidade experimental. Ela que depois de colaborar com nomes como A. G. Cook, Dua Lipa e Caroline Polachek, lançou em 2025 “choke enough”, seu primeiro álbum, e que foi eleito pela Stereogum o melhor disco produzido até junho de 2025.

Já entre os nomes do Jazz aparece o tunisiano Anouar Bhahem, que se apresenta como um dos nomes mais inventivos e interecessantes do gênero no nosso tempo ao estabelecer uma ponte entre a música árabe clássica, o jazz moderno e a tradição erudita ocidental. Já a dupla Knower leva o gênero ao limite com uma fusão explosiva de funk, jazz, eletrônica e metal, ainda neste espaço dedicado ao gênero terá uma linda homenagem ao genial e brasileiro Hemerto Pascoal, que faleceu em setembro do ano passado, sob a regência de André Marques a apresentação visa celebrar o legado de um dos maiores artistas da música brasileira.
Outro nome brasileiro que merece destaque é o Baianasystem, o grupo que é uma das maiores potências criativas da cena brasileira contemporânea quer levar o público por uma viagem sonora por ritmos que fazem a fusão de beats eletrônicos, dub e afro-brasileiros, com a participação do duo tanzaniano Makaveli & Kadilida.
E por último apresentando dois possíveis futuros nomes fortes da música internacional e nacional temos Cameron Winter, que graças ao seu estilo multifacetado, letras impressionantes e produções extremamente refinadas, vem sendo apontado por muitos especialistas da cena cultural como o novo Bob Dylan; Samuel de Saboia que apresenta o show de seu elogiado álbum de estreia, “As Noites Estão Cada Dia Mais Claras”, em cena, o pernambucano mistura MPB, R&B e eletrônica, criando uma experiência sensorial e afetiva que traduz sua visão de mundo marcada por liberdade, espiritualidade e identidade.
Como podemos observar a curadoria buscou mesclar diferentes estilos, gêneros e gerações, e ano após ano vem se mostrando como um grande acerto, com esse ano inclusive faltando um mês já conta com três dias dos quatro, esgotados, vale a pena ficar de olho nesses artistas e nesse evento.
Pois o festival além de apresentar música boa nesses quatro anos no Parque Ibirapuera, também buscou se alinhar a uma visão sustentável e confortável, em que a infraestrutura de palcos e locais de shows oferece uma sensação de aproveitar grandes espetáculos, sem perrengues ou filas intermináveis.
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