Cinema

“O Diabo Veste Prada 2”: nostalgia, consumo e excesso

O Diabo Veste Prada 2” (2026), longa-metragem do diretor David Frankel (“Marley & Eu”), traz de volta um dos filmes mais marcantes do mundo da moda e se vale de seu status como cult movie para entregar fashion e crítica social, como a informação excessiva, interesse jornalístico e a complexidade da moral humana. 

Resguardadas as devidas proporções, o longa tem uma premissa bastante simples e revela sua potência na execução primorosa e divertida com que cada ator dá vida aos personagens. Vinte anos após os eventos do primeiro filme, reencontramos Andy Sachs (Anne Hathaway), agora muito mais confiante e crítica, como uma brilhante jornalista investigativa que, por conta de intercorrências no mundo jornalístico, retornará a trabalhar na Runway, revista ainda dirigida pela implacável e afiada Miranda Priestly (Meryl Streep).

A sequência também traz de volta e aprofunda as narrativas de Nigel Kipling (Stanley Tucci) e Emily Charlton (Emily Blunt). Ambos retornam muito mais complexos, mais multifacetados, aspectos positivos que podemos notar também na Miranda e Andy, um filme que se propõe a ir além do maniqueísmo do bem e do mal, apontando não somente para os limites da moral humana, como estabelece uma ética de separação entre os ideais do trabalho e da vida pessoal. 

Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt e Stanley Tucci, em NY na gravação de o “O Diabo Veste Prada 2”

Enquanto sociedade, estamos narrando histórias muito mais maniqueístas, mais preguiçosas, nas quais conclamamos, assim como as crianças fazem, personagens enrijecidos moralmente, máscaras que não se permitem fazer como Nietzsche e suportar uma vida além do bem e do mal. Em uma sociedade na qual tudo precisa se adequar para caber em um vídeo curto do TikTok, existe pouca disponibilidade para o complexo e não pornográfico da vida real. 

O conceito de pornografia, como proposto pelo filósofo Byung-Chul Han, versa sobre a não utilização da metáfora, do véu que recobre o assunto, que permite o não acesso direto à coisa, mas que ela seja comunicada/mostrada do modo mais indeterminado. O uso desse termo “pornografia” tem relação com aquilo que é explícito; inclusive, se analisarmos os filmes pornográficos de grandes produtoras, poderemos notar a ausência de sombras, ou mesmo a mostração do modo mais explícito e industrial possível, uma ausência de indeterminação, uma menor amplitude entre o iluminado e o sombreado. 

Os personagens de “O Diabo Veste Prada 2” parecem ser o oposto do conceito de pornográfico. Miranda se encontra muito mais enigmática do que no primeiro filme; se antes ela tinha e por vezes era o poder, agora se torna mais difícil entender seus movimentos, uma vez que não mais nota. Se Emily era o esforço em pessoa, agora nos perdemos em sua própria questão sobre a lealdade a Runway, Miranda ou a si própria. Mesmo Andy, que era 100% retratada como boazinha no primeiro filme, agora aparece com dúvidas diante de caminhos que a favoreçam e ao mesmo tempo prejudiquem outra pessoa.  Entre aquilo que eu tenho e quero, existe a relação com o outro.

Anne Hathaway, Meryl Streep e Emily Blunt em “O Diabo Veste Prada 2” (Foto: 20th Century Studios)

Nessa mesma linha entre o que move o sujeito e sua relação com o outro, o filme aborda o interesse jornalístico. Em determinado momento, Andy comenta: “sempre escrevi o que as pessoas precisam saber, agora o que elas querem saber?”. Ademais, ela é confrontada por inúmeros personagens sobre o não efeito social de seus textos. Nesse sentido, o longa não se resguarda a fazer apontamentos sobre questões do mundo jornalístico atual. Embora Andy tenha se tornado uma premiada jornalista investigativa, seus textos não terão função social se não forem lidos, e é importante traduzi-los (ainda que com prejuízo) para a lógica mais imediatista das redes sociais. 

No livro “Infocracia”, o já citado filósofo Byung-Chul Han estabelece como o período atual é marcado pelo excesso de informações e como esse consumo de informações gera um desinteresse e uma não afetação sobre os temas expostos. E é nessa linha que o filme nos mostra uma repórter investigativa (uma narradora de histórias socialmente ocultas), que necessita fazer sua linha editorial a partir de um ponto entre seu interesse e o interesse público; entre o que os outros teoricamente devem saber e o que querem saber; entre o complexo de textos com mais de quatro páginas e o explícito de redes sociais. Qual seria o ponto que desaceleraria o público a querer ler suas matérias? E qual a relevância de suas matérias, se não forem lidas? De certo modo, isso é uma metalinguagem da própria relevância do mundo da moda, aspecto que é trabalhado desde o primeiro filme. 

A relevância da moda foi nos apresentada em “O Diabo Veste Prada” (2006), no qual, em uma das cenas mais icônicas da Miranda, ela debocha da Andy após essa desconhecer que diferentes cores azuis de um cinto podem influenciar toda uma população e um expressivo recorte econômico. 

Boa parte do poder de Miranda no primeiro filme está associado ao seu poder econômico-social, influenciando modelos, fotografia, grifes renomadas, o que representaria um recorte financeiro substancial do mundo da moda e da cadeia de produção mundial. — A moda aqui nos é apresentada como poder real, potência que dita não só estilo, mas redefine economias. Entretanto, em “O Diabo Veste Prada 2”, Miranda já não detém todo esse poder, e talvez nem mesmo a moda. 

Os vinte anos que separam os filmes foram marcados por um avanço do digital e uma decadência do impresso. Em sociedade para o consumo (como propõe o sociólogo Zygmunt Bauman), cada vez existem menos tempo para a reflexão, para apreciação estética que não esteja associada à apreensão enquanto objetivo de consumo. O digital possibilita uma circulação maior e vai na contramão do que Miranda define como “tradicional” e “artístico”; os tecidos reais, ensaios complexos, diárias exuberantes são trocados por aplicativos de vida virtual e fast fashion a um clique de distância. A decadência da imprensa de moda enquanto formadora de opinião e consumo parece estar atrelada a essa passagem ao digital de uma sociedade para o consumo. 

O psicanalista francês Jacques Lacan também abordou o tema do consumo em diferentes momentos de sua obra; aqui dou destaque à elaboração da teoria dos discursos, na qual coloca que o discurso capitalista é uma modalidade de inscrição no mundo que não detém ponto de basta e estaria estruturalmente organizado para busca de mais-valia sem qualquer limite. Em outras palavras, os sujeitos consumiriam até si mesmos. Aspecto esse que parece estar ligado a essa passagem do impresso ao digital, do artístico ao pornográfico, do tradicional ao digital e à perda de poder de uma Miranda aparentemente unstoppable do primeiro filme, para uma não toda no segundo. 

Sendo um filme que se propõe a lançar luz sobre diferentes mudanças da trama social e suas implicações na moda e no jornalismo, parece vir acompanhado de um certo aspecto nostálgico ou mesmo melancólico. Ao final, o filme é divertido, entrega uma farofa que atualiza o conceito de 2006 e levanta pautas sociais para nosso tempo

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