A programação da distribuidora brasileira Filmicca é uma das mais instigantes do streaming. O catálogo deles, cuidadosamente selecionado com o melhor do clássico e do contemporâneo, possui filmes de escolas e países muito diferentes entre si, como República Tcheca, Hungria, Palestina, Cuba, França e Espanha.
Pensando nisso, nós reunimos três dicas de filmes que fogem do tradicional e que você deveria conferir se tem curiosidade sobre outros tipos de cinema. Todos eles são documentários com uma pegada diferente do que é comumente associado ao gênero.
Confira abaixo a lista, que faz parte do nosso quadro tradicional #APistaIndica:
Eu Não Sou Tudo O Que Eu Quero Ser (2024) – Klára Tasovská
A história de uma mulher tentando descobrir quem ela é de verdade. A diretora Klára Tasovská construiu o filme apenas usando as fotografias feitas por Libuše Jarcovjáková e a narração de suas memórias escritas no diário. A montagem e a trilha sonora também auxiliam a contar essa narrativa, que tem um tom bem melancólico e original, mas muito bonito ao mesmo tempo.
O longa é um retrato de uma personalidade, uma sensibilidade e um olhar por meio de vários registros de épocas e países diferentes (o bloco socialista x o bloco capitalista é um dos panos de fundo, mas não é só isso). A adolescência da fotógrafa Libuše foi marcada pela invasão soviética no seu país, a antiga Tchecoslováquia. O filme é uma grande busca da narradora sobre si mesma e, nas suas palavras, a câmera é uma ferramenta de navegação. A máquina fotográfica a acompanhou por toda sua vida e é indissociável da sua identidade.
Na Outra Ilha (1968) – Sara Gómez
É um documentário icônico para a história do cinema cubano. O filme é relativamente curto, como de praxe na filmografia curta, mas profícua, de Sara Gómez, e possui 40 minutos de duração.
A obra funciona como uma compilação de crônicas da Revolução Cubana. Ela é como um projeto de utopia — tanto política quanto cinematográfica — em andamento na forma de documentário. A diretora Sara Gomez, com sua presença doce e convidativa, intermedia o diálogo deste novo homem que está para nascer e que foi anunciado pelo próprio Che Guevara — uma das cabeças do processo revolucionário.
A cineasta reúne uma coleção muito rica de vozes de diversos setores da juventude cubana. Uma sociedade em ebulição e ávida por mudanças nasce em frente à sua câmera. Grande parte da filmografia da Sara Gómez está disponível na Filmica. Outro grande filme dela que vale a pena ser assistido é “De Certa Maneira” (1977).

Uma Juventude Alemã (2015) – Jean-Gabriel Périot
O documentário “Uma juventude alemã” retrata um período específico de agitação política — o final dos anos 60 — na [agora unificada] Alemanha Ocidental. Protestos estudantis e passeatas eram comuns em toda a Europa, e um exemplo notável foram os protestos de Maio de 68 na França. O diretor, que é francês, usa cenas de filmes, trechos de entrevistas de personalidades e recortes de jornais televisivos para reconstruir aquela época e constrói um mosaico do pensamento de toda uma geração e seus antagonistas.
O mais valioso do filme é o registro de vários discursos, tanto os considerados radicais quanto os conservadores. O poder dos meios audiovisuais na construção de uma narrativa é exposto. O discurso costuma ser convencional quando vem da TV (exceto quando alguém como Ulrike Meinhof, jornalista e posteriormente guerrilheira da RAF, é convidada), enquanto o discurso revolucionário está presente no cinema (com aspectos formais inovadores nos filmes mostrados) e na rua (nos protestos).
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