Cinema

“Eles Vão Te Matar” e a Estética da Revolta

De tempos em tempos, a inovação se manifesta em obras que não temem abraçar o ridículo e valer-se do passado como referência criativa. Esse é o caso do filme “Eles Vão Te Matar” (2026).

O longa do diretor russo Kirill Sokolov, produção da Warner Bros, tem uma premissa e trama bastante simples. Acompanhamos Asia Reaves (vivida pela excelente Zazie Beetz, mais conhecida pela série “Atlanta“), uma mulher negra recém-saída do presídio após dez anos de confinamento, que vai trabalhar no exclusivo e misterioso Hotel Virgil, mas em sua primeira noite descobre que seus moradores guardam segredos para uma eternidade.

Em grande parte, o filme é marcado por uma descoberta: a entrada em um novo mundo, de geografia e regras próprias. Essa travessia é vivida com um senso de raiva, urgência e perplexidade pela protagonista Asia Reaves, emulando os mesmos sentimentos que o espectador sente ao embarcar no absurdo da trama. O hotel funciona como um grande videogame: assim que Ásia entra, uma grande porta se lacra, indicando que dali a única saída é avançar. Aspecto que será trabalhado em rima visual com números de níveis, à medida que a heroína avança no enredo e no hotel.

Esse aspecto de videogame não é nada aleatório, estando associado à estilística do filme, que se utiliza de inúmeras referências da cultura pop. Dentro disso, temos a estética supersaturada, que emula histórias em quadrinhos de super-heróis dos anos 70, tanto no uso de enquadramentos dinâmicos quanto na composição dos quadros.

Cena de “Eles Vão Te Matar” (Foto: Divulgação)

A própria Asia é uma construção de inúmeras obras da cultura pop: “Kill Bill”, Grace Le Domas de “Ready or Not”, Erin de “You’re Next”, Michonne de “The Walking Dead” e tantas outras mulheres-arquétipo de heroína/final girl, além do bem e do mal, que, dispostas a cuidar de si e proteger os seus, atravessam qualquer linha moral.

A estilística conceitual do filme vai além de obras individuais da cultura pop para valer-se do subgênero americano Blaxploitationmovimento dos anos 60 e 70 que fez nascer uma série de obras com protagonistas negros no que hoje seria chamado de “empoderados”. Esse subgênero dialogava diretamente com os movimentos de direitos civis e negros nos Estados Unidos daquele período.

Quanto a esse recorte, podemos destacar o movimento Panteras Negras, movimento urbano de revolta e luta por direitos nos anos 60. Assim como o embate entre Martin Luther King Jr. e Malcolm X: lutar pela igualdade de forma pacífica ou fazer cessar a violência do colonizador a partir de mais violência. Esse conflito e esses dois líderes estão presentes na construção estética e moral de Asia Reaves: sem misericórdia com aqueles que querem o mal, ao mesmo tempo em que sustenta seu imponente cabelo afro por toda a trama.

A atriz Zazie Beetz em uma cena de “Eles Vão Te Matar” (Foto: Divulgação)

Não menos importante, a trama tem em suas entrelinhas uma crítica social radical ao capitalismo enquanto modelo de exploração de corpos historicamente marginalizados. Nos primeiros minutos do filme, ficamos sabendo que inúmeras trabalhadoras do Hotel Virgil sumiram, e todas têm em comum serem pretas, latinas ou pobres.

Quanto a esse modelo exploratório e moedor de corpos, temos a própria estrutura de trabalho do hotel. Caso a funcionária dê sorte, pode entrar para a “família”, usufruir dos benefícios do hotel, mas sempre lembrando que pode ser descartada a qualquer momento. Nisso, podemos resgatar Lélia Gonzalez e o conceito de escravidão doméstica: o processo de dominação de alguns corpos que farão semblante de “família” sem que nunca a ela pertençam, e tampouco tenham garantias financeiras tal quais os membros reais.

Por fim, mas não menos importante, a personagem ser construída visualmente como é e ter procurado uma vaga de trabalho que a mataria parece ser mais uma metáfora do processo de trabalho capitalista, no qual o sujeito tem sua existência moída pelo labor até ser substituído. O que importa é a engrenagem continuar favorecendo quem já se favorece e seguir girando.

Se Karl Marx fala de um sujeito que precisa estar alienado de sua produção para seguir produzindo, até que possa dar-se conta do que produz e então revelar-se ao sistema, o filme nos apresenta Ray Woodhouse (Paterson Joseph), marido da gerente do hotel Lily Woodhouse (Patricia Arquette), que após cem anos cansa de trabalhar para o sistema e de ser mais uma mão que mói pessoas. Não parece irrelevante ou aleatório que o personagem que vai se rebelar após anos de servidão seja negro, enquanto sua esposa branca, gerente do hotel, queira seguir tudo como está e sacrificá-lo.

“Eles Vão Te Matar” é uma obra fantástica, que não se leva a sério ao mesmo tempo em que claramente é resultado de muita pesquisa e articulação de inúmeras referências para montar um filme divertido, que não se leva a sério e, ao mesmo tempo, bastante crítico.

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