Cinema

“COPAN” – o ainda inacessível

a primeira coisa que me vem à mente quando me preparo para assistir a um documentário é saber que estou entrando em um universo novo, até então não desbravado ou, se já explorado, que ao menos me trará novas perspectivas sobre o assunto em si. quando comecei a assistir “COPAN“, da diretora Carine Wallauer, me coloquei inteiramente à disposição, tal qual uma criança quando convidada a conhecer um lugar novo para brincar. já havia visto alguns teasers, lido pequenas observações nas redes sociais e isso ajudou com o brilho dos olhos. aos poucos, porém, o que era para ser uma experiência de deslumbre terminou em vislumbre. por mais que quisesse, não consegui atravessar a fronteira entre a névoa e a nitidez.

não consegui entender se neste lugar eu poderia andar sozinho ou não, se poderia experimentá-lo ou se apenas ficaria num banco distante, vendo, entre as frestas, as outras crianças brincando. quase sempre como fantasmas, um riso ali e outro acolá, eu sabia que não estava sozinho, mas ao mesmo tempo não consegui sair de onde estava. queria largar a mão do adulto que me guiava, mas não foi possível. e não porque não quis, mas por não me sentir convidado. a direção também não fez esforço algum neste sentido.

já no começo da obra, me causou estranhamento (não daqueles bons) um texto que me atiçou a vontade, mas que, por estar em uma língua diferente, a fez acinzentar ali mesmo. uma confissão, um curativo, um poema? não saberei. infelizmente, este não-pertencer me tocava o ombro durante o documentário. é como se quem me conduzisse fosse mostrando os brinquedos, mas nunca me deixando brincar. “estás vendo ali atrás da árvore? tem uma gangorra. olha bem ali, dá para ver a parte onde a gente se segura, viu?” e, enquanto tento dizer que sim, que gostaria de ir ali, rapidamente sou conduzido para ver outro e mais um e mais outra parte de um brinquedo, mas sem nunca poder usufruir dele.

frases como “mergulho profundo na história do edifício” ou “retrato imersivo e íntimo” são bem comuns de encontrar como referência à obra em questão, mas de forma alguma senti que estava adentrando no mundo do COPAN ou na intimidade que se propõe a condução; pelo contrário. é como se ela não quisesse me mostrar determinados segredos, certas vozes, escondendo assim histórias, testemunhos, algumas verdades, quem sabe.

Cena de "Copan" (Foto: Divulgação)
Cena de “Copan” (Foto: Divulgação)

a ideia de ter como pano de fundo as eleições de 2022 é muito boa, mas como é tudo muito longe, a tensão que deveria surgir desta ideia aparece apenas como um burburinho, uma notícia de fundo em algum rádio à pilha. para que houvesse tensão, seria necessário, penso eu, agentes que a propusessem; mas não há. não vi. não senti. uma coisa é mostrar alguns torcedores deste ou daquele lado, mas isso está bem distante de um clima de tensão.

todos os diálogos dos funcionários durante a refeição ou no heliporto parecem deslocados completamente da obra, já que, repito, a distância gigantesca entre a câmera e qualquer tipo de intimidade não propicia abertura para tal, tornando assim a discussão sobre suas preferências eleitorais algo muito caricato e teatral.

o clima da eleição, desta forma, acaba se tornando apenas mais um personagem que continua escondido, mostrando seu barulho de vez em quando, enquanto a câmera segue como um transeunte cabisbaixo e tímido.

não esperava também o formato clássico de documentário com entrevistas frente a frente, pois seria mais do mesmo, mas passei o filme inteiro sentindo falta das vozes.

por outro lado, sob o ponto de vista poético e artístico, “COPAN” é uma das obras visuais mais potentes que tenho visto nos últimos tempos. uma poesia estética visceral e corajosa, um
a experiência fotográfica sui generis, cujo resultado atravessa como lâmina as paredes possíveis do formato cinema. com pequenos acertos, creio eu, seria facilmente selecionado para qualquer grande exposição de arte, nacional ou internacional. não à toa, recebeu o prêmio de melhor direção de fotografia de longa-metragem documental 2026, da ABCINE; muito bem merecido.

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