Cinema

“um poeta”: um poema feliz para tempos tristes

assistir “um poeta” (direção e roteiro do colombiano Simon Mesa Soto) nos faz lembrar da razão pela qual existimos. Este filme não é uma obra sobre um poeta fracassado, como muitos a divulgam, mas um retrato dos que ainda permanecem em pé. sabemos que não é fácil e que nunca foi, mas nos tempos atuais onde o conceito de sucesso e fama está atrelado a tantas camadas algorítmicas, olhar-se como poeta carrega um peso ainda maior e, sem drama, mais doloroso. e, como poeta, me refiro aqui a todos e todas que perambulam pela arte como ofício, que se olham no espelho e veem ainda a criança que sonhava existindo; aos trancos e barrancos, mas ainda viva. não é difícil nos encontrarmos com Oscar Restrepo (interpretado por Ubeimar Rios) por aí. ainda jovem escreveu dois livros de poesia que tiveram certa significância em pequenos círculos, mas que depois disso se perdeu pelos caminhos, tanto da arte como da vida. esta ideia está muito ligada à fama repentina das redes sociais, aos êxitos numéricos de seguidores e curtidas, à mudança repentina do status social, da condição financeira, aos patrocínios milionários e, voilá, a queda meteórica. mas diferente das estrelas digitais, o poeta continua sendo poeta, seus sonhos seguem existindo, sua alma impera frente ao tempo, sua luz é mais duradoura que o sol. o poeta não deixa de olhar o mundo com seus olhos de poeta, assim como um astrofísico jamais olha para o céu como antes de descobrir a imensidão. alguns poetas “vivem do passado” porque a poesia é imortal, simplesmente. ela não morre quando se publica um livro, quando se pinta um quadro,quando se assina uma escultura ou nos créditos finais de um filme. a poesia e o poeta são um só; a arte e o artista são inseparáveis. não existe o poeta antes e depois da fama; o poeta apenas existe. o que o faz viver não está condicionado a quantos o veem, o leem, o ouvem, o seguem. em alguma caverna, alguém desenhou duas pessoas se beijando porque sentiu a necessidade de fazê-lo e nada mais. nosso protagonista não é um fracassado, tampouco um herói; ele simplesmente é. justamente por ver o mundo de forma peculiar, descobre tesouros onde quase ninguém vê. a inspiração, esta tão mal compreendida amiga, pode estar em qualquer lugar. seja sacola ao vento, um som, um muro velho, um corvo ou uma pessoa. ela é o fogo aceso que o poeta sabe que vai apagar, por isso se alimenta o quanto antes, o quanto pode, se aquece o máximo possível antes do próximo inverno. ele não pode armazená-la e, portanto, a inspiração o queima muitas vezes, o fere, o faz sentir dor e alegria, pois sente e sente tudo de tal forma que não pode abandoná-la enquanto aquele fogo não deixar em sua alma a razão de ser; a vida. e Deus sabe, sim ele sabe, o que é para o poeta o prazer e regozijo de um novo poema; Ele sabe. por isso quando Oscar Restrepo reencontra a poesia em sua aluna, ele renasce para o mundo. nós, que em algum momento de nossa existência olhamos para as estrelas desejando ser astronautas, ou com os olhos brilhando nos imaginávamos escavando buracos em busca de dinossauros adormecidos no tempo, ou ainda quando queríamos ser iguais aos nossos heróis dos programas de televisão; todos nós deveríamos assistir “Um Poeta”. àqueles que vivem as amarguras e plenitudes da poesia, dedico este filme com todo meu carinho.

Cena de "Um Poeta" (Foto: Divulgação)
Cena de “Um Poeta” (Foto: Divulgação)

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