Gostaria de começar esse texto falando o quanto o filme de Daniel Lieff amplia em forma e conteúdo o livro que se tornou bestseller no Brasil, em grande parte graças ao boca a boca de uma comunidade engajada e sedenta por histórias que os representasse. O filme, aguardadíssimo por toda uma geração de fãs, consolida Vitor Martins como uma voz importante de uma comunidade que sabe que amar demanda trabalho e que, infelizmente ou felizmente, dependendo de como podemos abordar a questão, chega em um período bastante complicado.

A parada LGBT a ser realizada neste 7/06 é uma das edições recentes com o menor investimento privado da história e, após um projeto absurdo que tramita no legislativo paulista, que visa cercear o direito de festejar, protestar e se orgulhar em lugares públicos e de livre circulação, dezenas de páginas ligadas ao público LGBTQIAPN+ e a eventos que acontecem em decorrência deste final de semana, tão importante para a causa, saíram do ar por meio de diversos tipos de boicotes, e, mesmo que algumas já tenham sido retomadas, é necessário estar atento aos acontecimentos.
Vitor, que participou de forma ativa e direta no desenvolvimento do filme, já estava abordando em seu livro, talvez de uma forma mais discreta, é verdade, a ideia de que, dadas as circunstâncias, amar parece ser uma tarefa um tanto ingrata para quem se identifica com a comunidade e que, apesar de termos avançado em diversas perspectivas, ainda somos recheados com visões de uma indústria que tenta vender o amor hétero e o conto do “viveram felizes para sempre”, como a ideia de um amor real e perfeito.
Diante de uma sociedade com uma guinada política bastante tendenciosa para o conservadorismo nos costumes, também acaba se tornando mais fácil para as próprias pessoas LGBT’s internalizarem a busca pelo par perfeito, que será resposta de um certo ideal inatingível e utópico para um relacionamento, mas que acabam vendo como uma possibilidade de, quem sabe, reencenarem uma família.
Trailer do filme “Quinze Dias”
Sendo fiel à obra em que se baseia, mas também ciente do contexto que emerge e é lançado, “Quinze Dias” é muito mais que um filme infanto-juvenil. Daniel Lieff, que tem uma direção marcante e provocativa com a polêmica minissérie criminal “Tremembé”, amplia aqui a forma subjetiva como os pais de Caio e a mãe de Felipe enxergam seus filhos e, se de forma geral a proposta parece partir de uma premissa simples, em que adolescentes precisam lidar com inseguranças, frustrações, ansiedades e amores, é na montagem e edição do filme, com cores, fotografia, enquadramento, trilha sonora, que a química do elenco funciona e então temos acesso a camadas mais profundas no desenvolvimento destes personagens.
A mãe de Felipe, interpretada por Débora Falabella de uma forma muito segura e madura, é doce e extremamente fã de seu filho, mas até nessa relação a idealização de uma mãe perfeita está sendo desfeita, para mostrar uma mulher que está chegando na meia-idade desacreditada no amor. Por meio de horas de conversas sinceras e profundas e horas descontraídas e bastante carinhosas, Rita aparece como uma mãe possível, que ainda busca investir em si mesma, sem deixar de lado o amor que sente pelo filho, sabendo que ele provavelmente está passando por muita coisa e que, aos poucos, ambos estarão lá para conversar e se apoiar. É graças a esta escuta que Felipe busca amadurecer os sentimentos que aprendeu a cultivar desde a infância por Caio, mas antes passando por uma própria jornada de autoaceitação e amor próprio. São quinze dias de férias que poderiam ser um inferno para quem simplesmente gostaria de ficar sozinho no quarto, mas que acabam sendo de um encontro consigo mesmo em uma jornada de pertencimento e reconhecimento.
É também graças a esta escuta que Rita percebe que não precisa ficar indo atrás de homens ricos, bem-sucedidos e bonitos que teriam tudo para ocupar este posto de ideal do amor; é quando ela percebe a possibilidade de ser amada de uma maneira mais genuína que o amor de Felipe e Caio também se concretiza.

Felipe (Miguel Lallo) e Caio (Diego Lira), imagem de divulgação dos protagonistas de “Quinze Dias”
E não pense que é simplesmente por Caio ser o padrão e garoto descolado que está tudo bem com ele. É ficando quinze dias na casa de Felipe, graças à viagem de seus pais, que não confiam nenhum pouco em Caio para o deixarem sozinho, que toda sua confiança e camada de proteção vão desmoronando. Miguel, que inclusive está estreando em alto nível no cinema, tem, junto com Diego, o fio condutor dos temas desse filme. Ambos os atores têm uma sincronia que transcende a tela de cinema e parecem já se conhecerem por toda uma vida, e que, no final das contas, acaba sendo o contexto dos seus personagens. Não se trata de um amor rápido, adolescente, utópico e idealizado, como o título pode indicar para algumas pessoas; foi um amor construído desde a infância, um amor possível graças à amizade e ao companheirismo, e que foi podado pela mãe de Caio.
É um amor que nasce a partir das possibilidades criadas principalmente por Rita e por esses dois jovens que entendem que amar dá trabalho e leva tempo; é necessária principalmente uma grande quantidade de energia psíquica para fazer dar certo. No caso de Caio, um direcionamento de si para o outro, e, no caso de Felipe, toda a projeção e palavras boas que ele faz para com o outro, agora direcionada para si. “Quinze Dias” é uma amostra de que investir em um amor possível não é o que nos sobrou, é, na verdade, uma aposta em você mesmo.
Que tenhamos mais possibilidades de amores leves e coloridos, mas conscientes de que, para chegar lá, talvez seja necessário uma porção de conversas complicadas e difíceis, e, além disso, nenhum recuo pelo nosso direito de amar e ser amado, e que o filme que estreia nos cinemas de todo o Brasil, já na semana que vem, dia 18/06, seja uma narrativa cada vez mais recorrente na sociedade.
Torne-se um apoiador da Pista no apoia.se clicando aqui. Você também pode apoiar o nosso trabalho e o jornalismo cultural independente com qualquer valor via Pix para apistajornal@gmail.com.
Siga A Pista em todas as redes sociais (Instagram, Twitter e Facebook) e não perca nenhuma das nossas matérias sobre cinema, literatura, séries e música!
Leia também: “O Diabo Veste Prada 2”: nostalgia, consumo e excesso – A Pista Jornal.


sensacional!