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Benjamín Labatut e “Dia D” de Steven Spielberg são a urgência de uma realidade que não sabe viver sem a ficção

Gênios da ficção contemporânea, Benjamín e Spielberg, usam de metáforas para falar sobre um mundo que cada vez mais caminha para o caos do indizível

É um tanto irônico que cheguei a este autor contemporâneo da literatura chilena justamente depois de assistir a um filme de um dos maiores diretores de ficção científica. Assisti a “Dia D” (2026), novo filme de Steven Spielberg, e mergulhei de cabeça em pesquisas sobre quando nos falta a palavra, o que resta para explicarmos ou entendermos do mundo? Se um dos grandes temas da vida de Spielberg parece ser o embate entre a fé e a ciência, já que ele mesmo fora criado em um lar judaico e seu pai era engenheiro, a bibliografia e obra de Benjamín parece dialogar com a fé cega e obsessiva que certos gênios da história tiveram na ciência e com os próprios limites da concretude de um mundo, em que a própria literatura é uma demonstração que o real é sempre subjetivo e inalcançável.

Benjamín Labatut, escritor chileno, em seu estúdio

E se diversos gênios da humanidade tentaram capturá-lo de diferentes formas, seja por meio das palavras, imagens ou números, ele parece estar muito além do que conseguimos significá-lo. A literatura de Benjamín nos mostra que todos aqueles que tentaram de alguma forma se distanciar da representação objetiva que temos do mundo e buscou o seu âmago, se perdeu no caos e na insuportabilidade de uma completa ausência de sentido.

Benjamín nos mostra que a literatura serve sim para muita coisa, ao contrário do que toda uma corrente da crítica literária que surgiu sob a influência de Immanuel Kant e Théophile Gautier defendeu. O esteticismo, muito bem aproveitado por Oscar Wilde como parte do seu programa artístico, está circunscrito justamente no contexto das maiores revoluções científicas estudadas e descritas por Benjamín.

E se em linhas gerais essa corrente teórica defende a ideia de uma arte pela arte, falando que esta deveria existir como um fim em si mesma, o autor chileno vai na contramão do que ela defende, para ele é graças às metáforas, é graças às abstrações, à imaginação e à criatividade do ser humano que é possível lidar com a incompreensão do real.

Bastante influenciado pelo seu tempo, Kant inaugura uma distinção decisiva entre aquilo que conhecemos e aquilo que permanece inacessível ao conhecimento. Para o filósofo, é graças à razão que conseguimos moldar e entender o mundo, pois ele é moldado pela nossa mente, mas na radicalidade do seu pensamento habita a ideia de que a arte, assim como a literatura, ao prezar pela estética/forma, se abriria para a capacidade máxima da expressão profunda de liberdade e criação humana que tanto buscamos. Assim, ela deveria buscar o que ele chamava de prazer desinteressado, uma tentativa de alcançar o belo ou o sublime, a pequena e rápida experiência da grandiosidade de tocar o poder da natureza e das ideias e que sempre está inacessível para a razão.

Daniel Richardson de Carvalho Sena, Victor Leandro Silva

Lendo o escritor chileno, fica fácil entender como Kant chegou nessa conclusão no século XVIII. Por meio de um cientificismo maníaco que inundou todas as áreas do conhecimento, a humanidade buscava ter uma compreensão total do mundo e como tal, a arte tinha que se afastar da razão pura que buscava dar sentido ao mundo. No entanto Benjamín Labatut nos mostra ao alinhar forma e conteúdo, realidade e ficção, nos seus três mais recentes trabalhos: “Quando deixamos de entender o mundo” (2021), “Pedra da Loucura” (2022) e “Maniac” (2023) que é justamente quando deixamos a razão totalmente de lado e caímos completamente no abstracionismo do real bruto da matéria ou da mente humana que sucumbimos à loucura, é quando partimos obsessivamente atrás de respostas que criamos as maiores teorias da conspiração e paranoias, pessoais ou universais — é também neste ponto que o novo filme de Spielberg tem o seu maior acerto.

Conforme entrevistas recentes, foi acompanhando audiências do congresso americano que Spielberg voltou a se interessar pelo tema que ele ficou mais conhecido, a ficção científica. Nos últimos anos ele acompanhou diversos depoimentos de ex-militares e ufólogos, em que para ele a natureza humana, diante do desconhecido, busca negar, classificar, reduzir o inexplicável a categorias conhecidas, em que a jornada do protagonista Daniel (Josh O’Connor) é justamente sobre a disposição de tolerar o que não tem resposta e que talvez sua jornada seja justamente sobre a possibilidade de escutar a alteridade e aceitar o desconhecido e o diferente, para que então possamos acreditar em um futuro possível e mais empático. O diretor americano parece querer nos mostrar de forma metafórica o que os aliens sempre foram: espelhos do que os humanos projetam neles.

Assim, tanto Spielberg como Benjamín são um atestado de que a arte é o lugar por excelência em que podemos levar ao limite nossa razão e, quando essa não dá mais conta de explicar o mundo, então recorremos às metáforas e ao poder da criação imaginativa da mente humana, pois é graças a isso que podemos “brincar” de Deus, dando o sentido que quisermos ao mundo. Tanto um como o outro, ao alinharem forma e conteúdo em suas obras, conseguem criar um estilo próprio em que suas interpretações de mundo são uma amostra daqueles que, em alguma medida, já flertaram com a loucura e foram capazes de retornar, são os que mais entendem da realidade aparente, pois já sabem que esta é impossível de ser entendida sem uma boa dose de ficção.

Se Spielberg recorre à metáfora da empatia para resolvermos o problema da alteridade, Benjamín vale-se da loucura de uma busca excessiva de sentido no mundo como uma metáfora para o entendimento interno da nossa própria subjetividade em que parece sugerir que o conhecimento e a destruição compartilham uma origem comum.

Suas obras possuem um forte caráter documental como um recurso literário, misturando fatos reais, história e ficção, para debater questões filosóficas e éticas profundamente intricadas no avanço científico e tecnológico da humanidade.

O auto evidencia, por exemplo, que o mesmo homem que desenvolveu o maior avanço da agricultura na história e é responsável pelo salto populacional no século XX, ao descobrir uma forma de sintetizar amônia a partir do nitrogênio atmosférico para a produção em larga escala de fertilizantes, acabou proporcionando o avanço científico que acabou contribuindo, décadas depois, para o desenvolvimento da indústria química que produziria o Zyklon B, gás esse usado pela Alemanha Nazista praticar o Holocausto, por meio de campos de concentração com câmaras de gás; ou que John von Neumann, o cientista que desenvolveu a computação moderna, é um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da bomba atômica e da bomba de hidrogênio.

Ambas as histórias fazem parte das narrativas de “Quando deixamos de entender o mundo” (2021) e “Maniac” (2023). O primeiro foi finalista do prestigiado prêmio “Booker Prize” de 2021; o segundo se tornou um best-seller mundial que dá as primeiras amostras das possíveis preocupações com o desenvolvimento da Inteligência Artificial e que o autor promete discutir em um terceiro livro com esse estilo que o deixou famoso e que ainda vai ser lançado, mas que ele considera como o fechamento de uma trilogia.

Em “Pedra da Loucura“, o autor fala de uma famosa obra de arte da Idade Média, “A extração da pedra da loucura – Hieronymus Bosch“, para enfim nos lembrar de que, às vezes, enlouquecer pode ser uma resposta adequada à realidade, e que o preço que pagamos pelo conhecimento é a perda da compreensão. Vindo ele mesmo de recuperação mental após flertar com a loucura, o que é descrito muito bem no ainda inédito no Brasil: “Depois da Luz” (2016), é como se quisesse alertar com suas obras que a realidade precisa se reinventada e reinterpretada o tempo todo.

Sendo este seu livro mais pessoal e que narra a história de um sujeito lidando com o vazio, no contexto de uma profunda crise em um mundo saturado de informação e desprovido de sentido, e que agora, olhando para este famoso quadro, é como se o autor quisesse nos questionar: quem está mais louco? O sujeito que possui a pedra da loucura, o médico que acha que a loucura está contida na pedra, ou nós que observamos tudo sem intervir, como o padre e a freira?

Talvez a graça esteja em imaginar a possibilidade de pensar a realidade junto com a ficção, de que, nos três níveis, todos precisamos estar um pouco loucos, senão a vida já não é mais possível.

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