Literatura

A arte de desmascarar o mundo: como Machado de Assis e Tchekhov usaram a ironia contra a hipocrisia social

A literatura clássica tem uma capacidade quase mística de funcionar como espelho e bússola. Ela nos devolve o reflexo das nossas próprias misérias e, ao mesmo tempo, nos orienta a não aceitar o mundo como ele se apresenta. Mas o que acontece quando os escritores decidem não nos dar respostas prontas, e sim semear dúvidas? […]

A literatura clássica tem uma capacidade quase mística de funcionar como espelho e bússola. Ela nos devolve o reflexo das nossas próprias misérias e, ao mesmo tempo, nos orienta a não aceitar o mundo como ele se apresenta. Mas o que acontece quando os escritores decidem não nos dar respostas prontas, e sim semear dúvidas? É nesse terreno fértil e perigoso que operam dois dos maiores mestres do conto universal: o brasileiro Machado de Assis e o russo Anton Tchekhov.

Escrevendo a partir de periferias distintas do capitalismo no século XIX, o Brasil imperial sob a égide da escravidão e a Rússia czarista pré-revolucionária, ambos os autores partilhavam de um mesmo desafio. Como denunciar as injustiças e as falhas morais de suas épocas quando o discurso direto e panfletário era censurado ou ineficaz? A resposta que encontraram não foi o grito, mas o sorriso amargo: a ironia através do narrador ambíguo.

A Dupla Visão da Realidade

O crítico Anatol Rosenfeld defendia que a verdadeira ironia literária concede ao leitor uma “dupla visão da realidade”. De um lado, vemos a contingência, a fachada polida da civilidade; do outro, enxergamos a essência, a podridão moral que se esconde sob as aparências. Machado e Tchekhov constroem narradores que não julgam explicitamente seus personagens. Eles simplesmente registram suas ações com um distanciamento calculado, forçando-nos, os leitores, a assumirmos o papel de juízes.

Machado de Assis e a Crueldade da Ação

No célebre conto “O caso da vara”, Machado de Assis cirurgicamente disseca o Brasil oitocentista por meio do jovem Damião, um fugitivo do seminário que busca proteção na casa de Sinhá Rita, dona de escravizados. O nó ético da narrativa se aperta quando Lucrécia, uma escravinha, é ameaçada de castigo por Sinhá Rita. Damião sente compaixão pela menina, mas percebe que sua própria liberdade depende do favor daquela senhora. No ápice da tensão, para garantir sua conveniência egoísta, Damião cede: ele mesmo pega a vara de marmelo e a entrega à carrasca.

Machado de Assis
Machado de Assis (Foto: Wikimedia Commons)

O interesse e a ascensão social na elite colonial sempre se sobrepõem à humanidade e à justiça.

O narrador machadiano descreve a cena com uma frieza implacável. Ele não aponta o dedo para Damião. A ironia reside justamente no silêncio do narrador, que expõe como o sistema do favor e a manutenção do status quo exigem o sacrifício da fibra moral individual. Damião escolhe ativamente ser cruel para se salvar.

Anton Tchekhov e a Crueldade da Inércia

Se em Machado a falência moral se dá pela escolha, em Tchekhov ela acontece pela apatia. No conto “Ionych”, acompanhamos a trajetória do Dr. Startsev, um médico inicialmente idealista e romântico, que chega a uma monótona província russa. Ele se apaixona por Katia, membro da família Túrkin, tida como a mais culta e talentosa da região.

Porém, a “dupla visão” tchekhoviana logo revela a farsa: o talento da família é puramente mecânico e repetitivo. Rejeitado por Katia e engolido pela estagnação provinciana, Startsev desiste de seus ideais. Ele troca o amor e a vocação pelo acúmulo financeiro, pelo conforto físico e pela mediocridade burguesa.

Com o tempo, o médico passa a caminhar pesado e mal consegue respirar. Sua transformação física é o espelho exato de sua falência espiritual. Ele não comete um crime chocante como Damião; ele simplesmente se deixa sufocar pela inércia. O narrador, em tom melancólico, registra a morte de uma alma por covardia existencial.

Um Farol Para o Presente

Por que ler Machado de Assis e Tchekhov sob essa ótica hoje? Porque a ironia ambígua desses autores deixa de ser um mero recurso literário e se consolida como uma autêntica ferramenta política de consciência.

Em uma era contemporânea saturada de discursos fugazes, conteúdos superficiais e interpretações mastigadas pelas redes sociais, o jornalismo cultural e a crítica independente precisam recuperar essa sensibilidade ao “não-dito”. Eles nos ensinam a desconfiar das versões oficiais e a buscar as verdades que se movem nas margens do visível.

A ironia dos mestres é, afinal, uma vacina contra a cegueira social. Ela nos adverte que as grandes tragédias e as profundas corrupções morais raramente se manifestam em eventos grandiosos; elas persistem e se normalizam no declínio silencioso do nosso caráter ou nos nossos pequenos gestos cotidianos de conveniência. Independentemente da latitude geográfica, desvelar a máscara do mundo continua sendo uma responsabilidade inteiramente nossa.

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