Em Bring Your Love, parceria com Sabrina Carpenter em seu novo álbum Confessions II, Madonna já anuncia: “não comente sobre minhas ideias, eu não quero seu julgamento, nem suas expectativas”, como já antevendo as todas possíveis críticas que poderia sofrer por mais um álbum que se mostra, concomitantemente, presente, passado e futuro; e que ao mesmo tempo, se coloca em franco diálogo com Sabrina. A estrela pop que vem recebendo enxurrada de críticas por, supostamente, sexualizar demais suas performances e composições é questionada: “para quem você está fazendo isso? É por você? É por eles?” E a resposta, provavelmente, só elas sabem, mas o olhar da história nos ensinou que tomar distanciamento do objeto, muitas vezes, é o melhor caminho para entendê-lo.
Olhando para o passado, Sarah Bernhardt é um dos primeiros exemplos de uma estrela mundial. A lendária atriz francesa, que ficou conhecida como A Divina, foi uma das mulheres mais famosas na segunda metade do século XIX e início do século XX e uma das primeiras que encarna os ideais da revolução francesa. Se o lema era Liberdade, igualdade e fraternidade, entre todos os seres humanos, as mulheres no entanto eram excluídas, principalmente no sistema político com direito ao voto. Assim, Sarah e Madonna personificam, cada uma com sua voz, talento, ativismo e visão de futuro, uma amostra de que quando são ouvidas, as mulheres são esse “Outro” impossível de ser definidas em si mesmas, como afirma Simone de Beauvoir. Definição esta que está concisa em sua célebre frase: “não se nasce mulher, torna-se mulher”, pois cada mulher é uma.
A dramaturga e revolucionária Olympe de Gouges, com sua obra Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã (1791), argumentava para a questão de que a revolução havia esquecido as mulheres em seu projeto igualitário e libertador, entretanto, sua abordagem feminista para a questão revolucionária acabou levando-a a ser decapitada em praça pública; novamente uma mulher muito à frente do seu tempo.
Madonna, se estivesse no século XVIII, provavelmente também seria decapitada, ou queimada viva, pois no contexto de uma das suas turnês mais emblemáticas: Blond Ambition World Tour (1990), o papa João Paulo II protestou: “é um dos shows mais satânicos na história da humanidade”. Ela foi um dos nomes mais importantes na defesa do progressismo, no que cerne, principalmente, as questões feministas do direito ao corpo e da sexualidade, mas também em uma defesa intransigente pela comunidade LGBTQIA+ e pela luta contra a AIDS.
Sarah Bernhardt no século XIX, desafiando toda a lógica da aristocracia francesa em decadência, mostra que uma mulher na liberdade de perseguir seu desejo é capaz de grandes feitos e se, infelizmente, o novo filme A Divina Sarah Bernhardt (2024), que estreia nos cinemas brasileiros dia 16 de Julho distribuído pela Imovision, parece muito mais focado em entregar uma primorosa direção de arte do que se aproximar de verdade da importância histórica dessa personagem, ele se mostra, pelo menos, como uma importante homenagem e porta de entrada para o universo de uma das pessoas mais importantes da história do teatro e início do próprio cinema. Em um dos seus últimos trabalhos, em que a própria atriz fala que é a sua última chance de alcançar a imortalidade, ela interpreta a rainha Elizabeth I, em La Reine Élisabeth (1912), clássico do cinema mudo francês que é conhecido por ser um dos primeiros filmes com trilha sonora e também a fazer sucesso na Broadway, abrindo portas para atores do teatro, antes relutantes, começarem a aceitar atuar em filmes.

Se Bring Your Love pode ser um espelho, em que Sabrina precisa se encontrar para não cair no estereótipo de uma geração e de uma indústria cultural que apenas sexualiza as mulheres com o falso pretexto de feminismo, Confessions II é um espelho para a própria Madonna. A rainha do pop precisa ser ouvida, assim como defendeu Sigmund Freud sobre as mulheres, lá no início do século XX. Pois é o autor austríaco que, em uma completa revolução para a época, evidenciou em suas obras que as mulheres não eram apenas objeto dos desejos masculinos, mas seres com suas próprias necessidades e desejos.
Se Madame X (2019) é um dos seus álbuns mais experimentais em termos de ritmos, linguagens e estéticas e por isso, provavelmente, seu álbum mais criticado e tensionado, mas que agora vem ganhando tração, pelo menos em termos acadêmicos, Confessions II é uma flecha certeira em direção a um futuro utópico, ou distópico, dependendo da sua visão de futuro, em que as mulheres podem ser livres para dançarem ou falarem como bem entenderem. Confessions II, que também mira em muitos ritmos, linguagens e estéticas, parece uma amostra de quem encontrou o espelho e agora não sabe se é ele que te olha, ou você que o olha.
Espelho este que durante toda a vida atormentou Sarah Bernhardt. Trabalhando com grandes nomes da história do teatro como Alexandre Dumas, Oscar Wilde, Victor Hugo e Victorien Sardou, este último inclusive que acabou proporcionando uma intensa relação com o Brasil, em que a atriz visitou o país em três turnês, dão a dimensão de uma atriz que teve que lidar com a grandiosidade de uma persona pública que atravessou continentes, que tinha acesso aos mais altos graus da elite intelectual e burguesa do mundo e que tinha que lidar com a constante busca por uma autenticidade e identidade que não fossem engolidas por uma sociedade patriarcal e machista.
Assim, o que será que podemos alcançar enquanto sociedade se escutarmos mais mulheres como Sarah Bernhardt e Madonna, entre tantas outras?
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