O underground paulista está recheado de boas casas e referências para se visitar e conhecer, mas diante de um cenário musical que já se mostra bastante saturado está sendo raro encontrar quem ainda aposta no novo, ou no clássico que deu as bases para o que hoje faz a pista ser o que é. Talvez temendo apostar de forma excessiva no novo, ou no antigo, as casas temem ficar limitadas a uma certa bolha, mas como vimos com Madonna é justamente apostando na junção das duas coisas que a pista se mostra mais viva do que nunca.
O Dr Banana Club, projeto idealizado em conjunto por Maria Carolina Junqueira Azevedo e Ralnir Jandreiche Nóbrega, parece ir nessa mesma linha nesses primeiros meses de funcionamento. Inaugurado em 12/06 a casa já conseguiu trazer nomes de peso da cena eletrônica brasileira como From House to Disco, Vermelho e Valentina Luz, além da inédita no Brasil Lola Palmer — dj holandesa que vem crescendo no cenário internacional e que flerta muito com o Deep House, Minimal Techno e Synth-pop, subgêneros que ficaram bastante associados ao grupo alemão Kraftwerk.
Bases do chamado Techno de Detroit, o grupo é considerado um dos artistas mais influentes da história da música. Formado em 1970 dentro de um contexto de ebulição social e política no mundo todo, Kraftwerk foi e ainda é, pois continua atuante, um chamamento para a conexão com o corpo por meio da música. Com um som rítmico, grooves bastante suaves e instrumentalização “básica”, a música funciona de forma minimalista, onde você é levado a um estado de quase hipnose — mesmo estando sóbrio, o que foi meu caso na pista do Dr Banana.
Fazia tempo que eu não me divertia tanto em um pista, fã da cena eletrônica paulista, já me sentia desencantado com a música. São Paulo é um tanto desafiador para quem chega aqui sem pouco conhecer a dinâmica de uma cidade grande, e assim que cheguei em 2018, vindo de uma pequena cidade no litoral do Paraná, lembro da sensação de minha primeira pista, de ser tomado por aquele barulho retorcido, metalizado, repetitivo e sentir como se uma onda do mar reverberasse meu corpo, de deixar ancorado qualquer pensamento que eu tivesse e simplesmente levantar os braços para não se afogar em um maremoto que me tomava o corpo e que invariavelmente era necessário dar um pulo para buscar um pouco de ar e depois ficar horas ali em um front que dizia muito mais sobre minha necessidade de escape e retorno ao mar, do que qualquer outra coisa.
E que o Dr Banana parece ter recuperado com a Prescrição #0021. Apostando justamente nessa junção do clássico com o novo a festa contou com discotecagem de TRAJANO e SUBTEXTO — projeto eletrônico de Rafael Minari que está voltando as noites paulistanas depois de anos trabalhando com composições de trilhas e desenho de som para o cinema. Na junção do clássico e moderno, a festa conseguiu fluir em sons fortes, mas que pedem para desacelerar, sons com metais que lembram o básico da música eletrônica de Chicago e Berlim, mas que ao mesmo tempo remete ao conhecido paulista — que têm ditado tendências — Ame Club, casa de eletrônica localizada em Valinhos, que mostra ser um respiro natural e mais sintonizado a natureza do que as casas da cidade grande, mas que agora, o Dr Banana se mostra ser uma interessante alternativa e convenhamos, bem mais em conta.

Com preços de primeiro lote acessível para clubes desse tipo, partindo de R$35.00 pelo aplicativo Shotgun, uma carteira de drinks autorais idealizada por Carolina, em que experimentei o GIN FRUTAS VERMELHAS, por R$36,90 e que se mostrou uma interessante ambivalência entre o amargo do Gin e o doce das frutas, curadoria de djs mais do que especial realizada por Ralnir e um espaço bastante aconchegante, dinâmico e com lugares de respiro e descanso pensados por ambos, a nova casa merece entrar no radar para ser visitada.
A decoração pensada principalmente por Carolina também merece destaque, um dos banheiros conta com boa parte do acabamento de pelúcia, o que mostra um certo grau de coragem, mas que eu gosto, e que dá uma sensação de cuidado e prazer estético, é claro se bem cuidado e preservado.
O nome da casa é uma clara brincadeira e alusão à capa do álbum “The Banana Album” feita por Andy Warhol para The Velvet Underground, clássica banca de rock americana dos anos 60 que ficou bastante marcada pelo seu estilo alternativo e experimental e por ser a base do chamado New wave, uma expansão mais leve e melódica da cultura punk.
Eleito pela Pitchfork como o melhor álbum da década de 60 e pelo The Observer em primeiro lugar em uma lista de 5O álbuns que mudaram a história da música, essa é também uma das grandes influências da casa, que inclusive conta como boa parte da identidade visual dos funcionários.
Durante a noite conversei com a atenciosa Raquel, senhora de meia idade que funciona como uma espécie de maître no estabelecimento, amiga dos anfitriões da casa, ela diz que até começar a trabalhar no local ela desconhecia a cena da música eletrônica, e brinca que o som é bastante repetitivo e prefere quando aparece djs que a música também tem letra, mas que com o tempo tem aprendido a gostar, talvez ela esteja se referindo sem saber justamente a essa influência dos anos 60, que hoje é a base de tantos house-pop que vemos por aí nos ouvidos da Geração Z e que também influenciaram grandes nomes da música na passagem do século, como por exemplo, a já citada Madonna.
Na pista conversei com algumas pessoas também, tinha gente que estava conhecendo uma pista de eletrônica pela primeira vez, como eu lá em 2018 — e que bom que eles estavam agora nesta festa, pois as chances de ganharmos novos clubbers é grande, dado a empolgação com que dançavam — e tinha gente, que também assim como eu agora, está cansado das festas de São Paulo, e que já passaram por Mamba Negra, ODD, Carlos Caplosck, EDG e a novata, nem tanto, Novo Affair, e que agora buscam novos espaços para conhecer experimentações e novos nomes, estes também parece que estavam no lugar certo e na hora certa.
O Dr no nome é também uma brincadeira, em que cada festa é pensada como uma receita, idealizada por Ralnir prezando pela liberdade estética e te dando declarações de horas suficientes para esquecer o mundo lá fora, enquanto você estiver na pista dançando.
Para os não fumantes vale o aviso, o lugar conta com um espaço externo para tal, mas ainda assim é comum pessoas fumarem na pista, o ambiente conta com exaustores de alta capacidade, no entanto pode ser que isso incomode algumas pessoas. O ambiente no momento não possui um cardápio físico, o que pode ser um pouco chato para quem quer curtir a música sem ficar pegando no celular a cada ida ao bar e para quem vai de algum compromisso para lá, o ambiente até o momento também não conta com chapelaria e para quem está acostumado a festas bastante escuras pode estranhar a meia luz vermelha, mas que para mim funcionou muito.
Localizado na Rua Vergueiro, 6712, bem próximo ao metrô Alto do Ipiranga, Linha-verde, e com próxima festa a ser realizada dia 21/06 com o projeto TESSUTO CONVIDA, A Pista super indica essa nova casa se você gosta de música eletrônica e assim como eu quer conhecer novas tendências, sem deixar de lado as referências que fizeram você ser clubber, como também super indica para você que ainda pode se apaixonar por esse estilo, que ao mesmo tempo é urbano, marginal e transcendental, vale a pena se entregar a pista seja qual for o seu contexto.
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