Tudo começou quando, no ano de 2024, a cantora inglesa Charli XCX teve a sua conta do Letterboxd vazada.
Para os pouco familiarizados, o Letterboxd é uma “rede social” na qual podemos postar, avaliar e escrever sobre os filmes que assistimos, enquanto vemos também as atualizações dos nossos seguidores/amigos.
De repente, todo o histórico de filmes que Charli havia assistido se tornou público. Todas as resenhas e comentários, estrelas e corações que ela, até então anonimamente, atribuiu, foram expostas nos “outdoors” da internet – ao que ela reagiu com um engraçadinho “my account got leaked i guess” [acho que minha conta vazou].
Com isso, descobrimos que a popstar não era só music e fashion, mas também film. Externamente, sempre a vimos como um ícone da moda alternativa e uma grande voz do electropop estilizado e dançante (haja vista o sucesso estrondoso de brat, seu último lançamento). Entretanto, passamos a conhecer uma nova dimensão de Charli: a cinéfila, a que rompeu os muros do clichê, se entregou e se apaixonou pelo cinema encantador de Jacques Rivette, enigmático de Paul Thomas Anderson e visceral de David Cronenberg.
Como se não bastasse, ainda, a diva abriu uma conta no Substack e começou a escrever, algo que até o momento só acompanhávamos nas letras das suas canções. Nesse espaço, ela meditou e refletiu sobre o próprio trabalho, sobre a sua relação com a indústria e sobre as dores e as delícias de trabalhar com música. Em seu texto de estreia na plataforma, logo após a explosão de brat, ela começa dizendo:
I’ve been in a state of overwhelming creativity of late, so much so that I feel like I’m running on the spot in a dream. There are so many ideas pouring out of me that sometimes I don’t even know where to begin. [Eu tenho me sentido “criativamente sobrecarregada”, tanto que eu sinto que estou “correndo parada” enquanto sonho. Existem tantas ideias “vertendo” de mim que às vezes eu nem sei por onde começar.]
Nesse mesmo texto, Charli diz se sentir mais inspirada por filmes do que por música ultimamente (“Film is where my creative brain seems to be gravitating” [minha mente criativa aparentemente anda gravitando ao redor de filmes]), tanto que acompanhamos os frutos disso com The Moment (leia nossa crítica!), filme estrelado por ela em 2025.
Esse foi o solo formador que possibilitou o nascimento de um álbum tão autêntico como Music, Fashion, Film.
Com esse projeto, a artista tem a pretensão de ir contra a música pop pasteurizada e industrializada que vem tomando conta das paradas. Para começar, a sua maior inspiração vem dos seus hobbies e do amor pelos seus amigos, assim já dá para ver a espontaneidade que o álbum pretende alcançar.
Musicalmente falando, “Music, Fashion, Film” trabalha uma sonoridade que lembra o shoegaze, um estilo musical com distorções de guitarra que trazem uma aura etérea e misteriosa, e também o grunge e o punk – uma mistura de sons que, junto ao pop, cria uma atmosfera memorialística e nostálgica que remonta aos anos 90 e 2000, em um excelente trabalho do produtor A. G. Cook. Usando sintetizador e guitarras distorcidas, ele abraça o pop ao mesmo tempo em que deixa transparecer as referências a estilos musicais mais alternativos.
Além disso, o álbum vem acompanhado de um filme curta homônimo, no qual vemos cenas dos bastidores junto a alguns videoclipes, e também alguns relatos de Charli.
“Rock Music” – 1:55
A primeira faixa do álbum, anteriormente lançada como single, brinca com o rock de forma a causar questionamentos – isso é ou não é rock? É, por causa da guitarra; não é, por causa do sintetizador pop (mas alguém já questionou se New Order pode ser rock por causa de alguns sintetizadores?).
Essa faixa é quase como uma libertação: eu e meus amigos saímos, tiramos fotos, fazemos música […] estou batendo o cabelo com tanta força que estou machucando o pescoço. É um hino à juventude, a estar bem acompanhada e se sentir livre para viver cada experiência como única, colecionar memórias e se expressar através de vários meios – música, fotografia, dança.
“SS26” – 2:48
Spring Summer 26 é a faixa representativa da moda e como ela reflete (ou deixa de refletir) uma época – nesse caso, uma juventude sem esperança, uma sociedade à beira do caos, colapsando. Nós estamos desfilando em uma passarela rumo ao inferno, mas que seja, pelo menos estou bem vestida. É uma ode ao momentâneo, que pode ser catastrófico (eu fui tirada de contexto!) ou libertador (eu não fiz, mas e se tivesse feito?).
Novamente as guitarras e sintetizadores, mas agora numa roupagem mais melodramática, algo que diz “it is what it is”, não há saída. É uma canção conciliadora com o destino implacável para o qual estamos caminhando.
“Card Declined” – 3:28
Com um “quê” de “Bling Ring“ (filme da diretora Sofia Coppola), Card Declined alude a uma realidade fantasiosa em que o dinheiro pode comprar tudo, inclusive uma nova personalidade ou uma outra história de vida. No entanto, caímos em queda livre no momento em que o verso “cartão recusado” aparece, com um corte seco e direto que nos transporta de volta à realidade.
O grunge toma conta da música, criando um som “sujo” e pesado que conversa com uma estética de compulsividade e teimosia. Ao final, uma nota aguda e solitária nos relembra que é hora de acordar desse mundo de faz de conta.
“Camera” – 2:31
O poder da câmera. Ao ser filmada, posso ser quem eu quiser, e essa é a forma mais honesta de expressão. Essa é verdadeiramente uma canção sobre o amor da Charli pelo cinema, por tudo o que ele possibilita às pessoas e principalmente, a ela mesma, que decidiu entrar de cabeça no mundo da atuação.
Com uma melodia mais puxada ao pop, o que mais chama a atenção em “Camera” é o videoclipe, que conta com a participação do ator francês Vincent Cassel, astro de clássicos franceses como “La Haine” (1995). Enquanto Charli brinca de filmar, Cassel se entrega à câmera, sangra, morre e transforma a realidade em ficção em alguns takes que duram segundos – um poder que atores despertam tão intensamente.
“2007” – 2:04
Apesar de dizer pouco, “2007″ parece fazer uma autorreferência à adolescência de Charli. Uma canção indiscutivelmente nostálgica, com uma guitarra que lembra o pop rock dos anos 2000 (como “Celebrity Skin“, da banda Hole, e “Take me away“, da banda fictícia de Sexta-feira muito louca).
Ela carrega uma promessa com um tom saudosista: posso te levar a um tempo melhor, mais simples, ou poderia dizer, o próprio paraíso.
“I’m afraid” – 2:11
De repente, cresci e estou cercada de coisas adultas demais para a minha compreensão. Há em I’m afraid uma necessidade incontrolável de escapar da seriedade da vida adulta, uma quebra de expectativa quanto ao que se esperava da felicidade idealizada e o que ela de fato acaba se tornando.
A melodia de duas notas que antecede o caótico e urgente refrão é quase como um lamento, ela é nebulosa e melancólica, enquanto o refrão em si é aquele momento do “pronto, falei”, um desabafo em alto e bom som: tenho medo.
“Yeah” – 2:17
“Posso mudar de ideia?” Esse é o mote que move a letra de “Yeah”. Uma repetição de “não quero” que beira a rebeldia, mas, como uma pessoa que se dá ao direito de respeitar os próprios limites, decide aceitar uma nova proposta.
Consigo facilmente ver essa música sendo performada no palco com uma rebeldia punk e uma guitarra agressiva. O slow motion que preenche a melodia no final é a última pitada para representar os efeitos da mudança de rumo.
“Wink Wink” – 2:03
Fazer o que eu quero não me torna uma má pessoa. Quando Charli canta “I’m not a bad girl anymore” [não sou mais uma garota má], é mais sobre aceitar quem você foi e é do que sobre tentar buscar ser alguém melhor.
Wink Wink é a música mais pop do álbum, no sentido de ser a mais próxima do que a geração atual entende por pop: um ritmo dançante e positivo.
“Persona” – 2:37
Em Persona, há um relato sobre a dificuldade de se relacionar com alguém que se recusa a ser sincero com os próprios sentimentos. Entretanto, é nessa relação de tentar sempre desvendar o outro em que se junta uma biblioteca de sinais, gestos e atitudes que permitem a decodificação do comportamento alheio. Inevitável pensar em Persona, filme do diretor Ingmar Bergman, que fala muito sobre máscaras e relações de confiança.
Cada verso dessa canção é uma facada, e é curioso como o discurso dela é levado pela melodia como se fossem uma coisa só: todos os instrumentos e a voz se somam e dizem o mesmo.
“Magic Metal Montana” – 2:31
Imagina escrever uma música com o seu melhor amigo. Essa é a sensação de ouvir Magic Metal Montana, uma homenagem à amizade entre Charli e A.G. Cook. Como a linguagem de ambos é a música, ela soa como uma road trip, com uma sonoridade agitada mas melancólica, que lembra um entardecer na estrada.
Apesar de quase todas as faixas do álbum serem compostas pelos dois, essa é mais especial porque é a união de dois corações, resultando em uma letra que mais parece uma carta de amor.
“No One Lasts Forever” (featuring David Cronenberg) – 5:42
Essa é talvez a música mais emocionante e meditativa do álbum. Ao se deparar com a finitude da vida, com a efemeridade de tudo o que fazemos aqui e com a inevitável incapacidade de deixar algo para a posteridade, Charli convida o cineasta David Cronenberg para dizer algumas palavras.
Cronenberg perdeu a sua esposa para o câncer em 2017 e, no processo de lidar com o luto, lançou em 2024 o filme “O Senhor dos Mortos”, estrelado por Vincent Cassel (olha aí um eco que já apareceu no álbum antes). Nesse filme, o personagem de Cassel cria uma empresa que fornece túmulos que captam imagens dos cadáveres em decomposição em tempo real, numa tentativa de garantir a permanência das pessoas mesmo após a morte. Ele é motivado a fazer isso após, isso mesmo, a morte de sua esposa para o câncer, algo que nunca superou.
Nas linhas finais da canção, o diretor reflete sobre a relação das pessoas com a arte e como esta sim pode perdurar, ao contrário dos artistas que criam, os quais sempre encontram o mesmo destino: a morte. Qual o sentido de fazer arte se não se pode apreciá-la? Muitos têm sucesso em deixar seus trabalhos para a posteridade, mas eles não podem mais usufruir dele, pois estão mortos, se foram. A frase final ecoa nesse mesmo tom, mas para mim, o que fica marcado é o verso “oblivion is freedom” [esquecimento é liberdade], um encerramento do ciclo que retoma toda a necessidade das outras canções em bradar pela liberdade.
Torne-se um apoiador da Pista no apoia.se clicando aqui. Você também pode apoiar o nosso trabalho e o jornalismo cultural independente com qualquer valor via Pix para apistajornal@gmail.com.

